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Alface, o Breve

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Todo canto pedem detalhes sobre você. Orkut, ficha de locadora, curriculum. Poxa, se quiser saber algo sobre mim pergunta! Dou tanto medo assim?
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Raphael Irerê

Alface, o Breve

August 22

Correções Históricas (atrasada): Vida de Pegador

 
Como podem imaginar, essa é a nova seção fixa do blog, e que já começou bem. Bem atrasada. Era para ter sido publicada na terça-feira, mas eu sou preguiçoso que dói e resolvi ficar assistindo Simpsons em casa, debaixo de um edredon. E ao diabo com minhas obrigações como blogueiro! Discursos à parte, a Correções Históricas tem a minha cara: sou eu tendo a presunção de corrigir a história e atribuindo a conceitos estabelecidos ao longo dos séculos pela sociedade o caráter de "erro". Assim, começo revisando a concepção clássica da vida de um pegador.
 
Sempre sofri com isso. Todo nerd sofre. A gente passa o final da infância e a adolescência ouvindo a família, os colegas de escola, os primos mais velhos perguntando o tempo inteiro: "Ué, em casa sábado à noite?". Sim, por que? É proibido? Dá cadeia, multa e apreensão da CNH? Parece até que somos alguma sub-raça, doente e fadada à morte sem herdeiros. Não entendem que tem gente que simplesmente não é viciada em sair toda santa noite para a balada, oras. Aliás, palavra horrível essa. Balada. Não sei nem se vem das balas de revólveres envolvidos nas brigas de trânsito da madrugada ou da "bala" que bomba a diversão de playboys e playgirls pelo mundo.
 
Sou um cara caseiro, adepto de ficar em casa vendo um filminho tranquilo, jogando alguma coisa ou conversando na internet. Não sou anti-social, nem um eremita de quarto dos fundos. Só não tolero os amigos que chamam para sair e depois ficam zombando se recuso. Não é que eu não tenha dinheiro, normalmente até tenho, mas não entendo a lógica de gastar 200 reais com vodca em uma boate até ser capaz de beijar a garota mais feia do lugar.
 
Aliás, a relação entre mulheres e "baladas" é um capítulo à parte. Cansei de chegar ao final da noite e ouvir "Peguei 15, e você?", "Pô, beijei pelo menos umas 23". Juro que me sinto excluído por estar só com minha própria saliva na boca ao final da noitada. Só que isso não me chateia. Sou do tipo arcaico, que gosta de estar em um relacionamento, que prefere ter uma namorada a tentar lembrar dos nomes de pelo menos metade das periguetes da noite anterior. Poderia até ser considerado um cara romântico talvez. E adoro ser assim, mesmo que tenha que abdicar da diversão de pegar sapinho todo sábado à noite.
August 14

Troféus Tristan Tzara de Composição: Cerol na Mão

 
Depois de muito tempo ocupado com coisas realmente importantes para minha vida(diferente desse blog), eu voltei. Não é que de repente eu esteja com tempo sobrando, apesar de ser essa a mais pura verdade. Só trabalhar cansa, mas nada que dormir até dez da manhã não resolva. Desse modo, resolvi reativar esse pequeno espaço de libertinagem de expressão, para aqui deixar algumas de minhas pérolas de sabedoria pensadas e coletadas ao longo de tediosos dias de trabalho. Ou seja, volto a postar nessa joça. Ah, e com novidade: a partir de agora, todas ("todas? não me faça rir") as terças teremos uma seção fixa, cujo nome ainda definirei, já que não pensei em nada engraçado até o momento. Assim, deixo vocês com a outra seção fixa ("fixa?") do blog e uma maravilha do funk carioca, que fez muito sucesso no começo do século. Bonde do Tigrão "canta" "Cerol na Mão".
 
"Quer dançar, quer dançar
O Tigrão vai te ensinar
Quer dançar, quer dançar
O Tigrão vai te ensinar"
 
Começou mal. Muito mal. Não sou exatamente um zoológo experiente, mas até onde eu consigo me lembrar, nunca vi um tigre dançando. É claro que já deve ter aparecido por aí em algum documentário da Discovery Channel a dança de acasalamento do tigre-d'água siberiano ou coisa do gênero, mas não consigo imaginar o gigantesco felino fazendo leves movimentos com as garras no ar e carinha de safado. Que, diga-se de passagem, era como os vocalistas dançavam. Memória tem dessas coisas.
 
"Vou passar cerol na mão
Assim, assim
Vou cortar você na mão
Vou sim, vou sim
Vou aparar pela rabiola
Assim, assim
E vou trazer você pra mim
Vou sim, vou sim"
 
Que feio! Todo mundo sabe que cerol é proibido! Assim como deveria ser comparar uma mulher a uma pipa. Típico trocadilho infame com a palavra rabiola que, para quem não sabe, é peça fundamental para pipas. É o que mantém o equilíbrio da dita cuja. Ou seja, comparar isso ao "popozão" das funkeiras não é só ridículo como cientificamente incorreto, já que bunda grande, todo mundo sabe, faz é tontear a dona e a molecada que observa. Não fiz pesquisa de opinião, mas acho que dificilmente eu conseguiria trazer uma mulher pra mim assim. Assim.
 
"Eu vou cortar você na mão
Vou mostrar que eu sou tigrão
Vou te dar muita pressão
Então martela, martela
Martela o martelão
Levanta a mãozinha, na palma da mão
É o bonde do tigrão!"
 
Três rimas difíceis demais da conta. Demais mesmo. Mão, tigrão, pressão... martelo? Não, martelão! Martelo na menina! Quero crer que isso seja a nossa tradução para o saudoso "Stop! Hammertime!", frase famosa de "U Can't Touch This". Ah, aquilo sim era funk! Funk raiz, como diriam os goianos. MC Hammer sim, era mestre na arte de martelar garotas. Ou tchutchucas. Que seja. No final todo mundo critica, mas dançava isso sim. E quem discorda, que levante a mãozinha para passar o cerol.
 
 
July 03

Troféu Tristan Tzara de Composição: Do Leme ao Pontal

 
Novamente, nada de posts essa semana. Estava ocupado com a última semana de aula pelos (espero) próximos 6 meses, no mínimo, e por isso não pude... Olha aí, lá estava eu me explicando novamente para vocês. Momento blasé funcional de novo. Essa semana temos um grande cantor. Um grande mesmo, tanto que acabou não tendo mais espaço aqui e foi parar no céu (nossa, que horrível! - a forma da piada, não o conteúdo). Com mania de falar durante as letras e uma voz inconfundível, ele imortalizou poesias como "Azul da Cor do Mar", entre outras. Com vocês, Tim Maia derrapa em "Do Leme ao Pontal".
 
"Do Leme ao Pontal
Não há nada igual
Do Leme ao Pontal
Do Leme ao Pontal!
Não há nada igual..." (3x)
 
Explico aos incautos: a orla carioca se estende por cerca de oitenta quilômetros, indo... do Leme - bairro nobre da Zona Sul - ao Pontal, que não tenho a menor idéia de onde fica. Juro, não tem "Pontal" no Wikipedia, e o Google também não dá sinal da existência de tal localidade, o que significa claramente que ele é uma criação da mente perturbada de Tim. Se não está no Google, não existe. Sem contar a ênfase no fato de não haver nada igual à tal orla. Mentira! Tudo quanto é praia brasileira tem mulher bonita, sol, água de coco e arrastão. Fica a impressão de que ele pensa que, se falar um monte (um monte mesmo) de vezes a mesma coisa, aquilo vai se tornar verdade. De qualquer forma, deixo um elogio ao mérito de fazer uma música que glorifica o Rio, algo raro na nossa MPB. E sim, eu estou sendo irônico.
 
"Olha o breque!

Sem contar com Calabouço
Flamengo, Botafogo
Urca, Praia Vermelha..."
 
Deixei o "Olha o breque" para que os fãs saudosos lembrassem da adorável mania do rechonchudo cantor de salpicar frases no meio da música. E logo em seguida vem uma sequência de (presumo) praias. Problemático. Alguém se candidata a dar um passeio na praia de Calabouço? Ou na Praia Vermelha, que só pode ter esse nome graças a um combo de poluição com algas ou sangue? É, talvez não exista nada igual mesmo. Até vou deixar de lado as praias do Flamengo e Botafogo, para não semear discórdias futebolísticas por aqui. Ou não: ARRÁ, URRÚ, EU SOU LDU! Obrigado.
 
"Tomo guaraná, suco de caju
Goiabada para sobremesa...(17x)"
 
Isso aí em cima vem logo depois de mais 3 vezes de "do leme ao pontal não há nada igual" e outra sequência de praias da morte. Sabe, esse número aí entre parênteses é sério. É sério, eu contei! Não me espanta que Tim Maia tenha ficado com uma barriga daquele tamanho: o cara almoçava um guaraná com suco de caju só para depois emplacar aquela goiabada, que certamente também vinha com um queijo minas bacana, formando a famosa dupla Romeu e Julieta. Dezessete vezes. Juro por Deus que depois de um dia nesse ritmo eu surtava, e a próxima vez que visse um copo de guaraná eu criaria várias Praias Vermelhas por aí. E me certificaria de que nada igual ocorresse novamente.
June 26

Troféu Tristan Tzara de Composição: Só Love

 

Não postei nada essa semana. Lamento. Não que eu deva explicações a qualquer um de vocês, mas é que sempre fico com algum peso na consciência quando não posto durante tanto tempo. Ainda mais tendo muito o que falar. Por isso fiz questão de dar as caras pelo menos com a seção Tristan Tzara, que é para ser fixa. Por isso, e agradecendo a sugestão do colega e muito melhor blogueiro do que eu Vitor Matos (http://www.ofuror.blogspot.com/), segue abaixo um hit da época em que os bailes funk ainda podiam ser freqüentados por garotas vestindo calcinhas. Com vocês, Claudinho (que Deus o tenha) e Buchecha cantam “Só Love”.

“Só love, só love
Só love, só love
Só love, só love
Só love, só love (2x)”

Começo defendendo. Não pensem que é incompetência dos nossos prezados compositores mesclar as línguas inglesa e portuguesa em uma só frase. Marisa Monte fez um sucesso absurdo com “Amor, I love you” e todo mundo chama de gênio. Esse mundo é injusto. Além do mais, vocês podem não ter notado, mas o ritmo de só love dito várias vezes certamente lembrará a ouvidos sensíveis e atentos o som de um coito em execução. Reparem só.

“Quero, de novo com você
Me atracar com gosto
Corpo, alma e coração (ôôô)
Venero demais o meu prazer
Controlo o calendário
Sem utilizar as mãos... (2x)”

Poético isso. Nada mais romântico do que o rapaz que fala que se “atracar” de novo com a senhorita. Até vejo a cena: ela acorda, cansada da batalha sexual da noite e recebe o animado telefonema do rapaz. Só não entendi o “corpo, alma e coração”. Coração é um negócio à parte? Só não gostei quando o nosso romântico personagem demonstra todo o seu egoísmo. Ele não adora o prazer a dois, ele venera apenas e tão somente o próprio prazer. E todos nós sabemos que fim têm as pessoas que gostam mais do próprio prazer individual do que a dois, não é verdade? Mãos peludas! Quem não entendeu pergunta ao amigo nerd do lado. Agora, aqui está de longe uma das maiores bizarrices que já vi em termos de letra: "controlo o calendário sem utilizar as mãos". Primeiro, calendário sempre me lembra aquelas folhinhas de borracharia com mulher pelada representando cada mês. E segundo, como assim, controla o calendário usar as mãos? Ele faz tabelinha pela namorada? Usa telecinésia? Ou será que ele desenvolveu essa incrível habilidade porque está sempre com as mãos ocupadas demais na obtenção do próprio prazer?

"Amor vou esperar
pra ter o seu prazer
Seu corpo é mais quente que o sol
E eu fico a sonhar
Pensando em você
Delírios de jogar futebol"

Bem, talvez ele não seja tão egoísta assim, e ainda dê alguma chance à namoradinha de se divertir também. Mas pegou muito, muito mal ele falar que sonha, pensa na moça... jogando futebol. Em tempos de Ronaldo, frases como essa podem destruir carreiras! O que me tranquiliza é saber que ele só mandou essa para rimar com sol mesmo.

 
"E mesmo que eu
Arriscasse alguém
Não seria tão bom
Quanto é
Eu não vou confiar
Em ninguém
E nem vou me envolver
Com qualquer
Pra despir toda essa razão
E a emoção transparecer
Deixarei que os momentos se vão
Pra amar
Tem que ser com você"
 
Desculpa, não tenho nada a dizer dessa parte. Estava desatento, lembrando que o rapaz aprendeu a mexer na folhinha da borracharia na base do poder mental só para estar sempre com as mãos em busca do próprio prazer. E depois ainda tinha a desfaçatez de fazer uma dancinha com a mão... no nariz. Pervertidos.
June 20

Troféu Tristan Tzara de Composição: Papo de Jacaré

 
Antes de qualquer coisa, pedir desculpas por um dia de atraso no post dessa seção, que deveria ser todas as quintas-feiras. Lamentável. Principalmente porque não há motivo em particular, eu simplesmente fiquei com preguiça. Simples assim. O fato é que dessa vez os astros dessa seção são especiais. Clássico instantâneo à época de seu lançamento, essa música alçou seus poetas compositores ao estrelato, permitindo que eles se apresentassem até no Criança Esperança e fossem trilha sonora de uma novela das sete. Inovadores, definem seu próprio ritmo como uma mistura de reggae, rock, funk, maracatu e baião. E acreditem se quiserem, eles são goianos: as pessoas nunca me deixam esquecer disso. Com vocês, P.O. Box canta Papo de Jacaré.
 
" Tô viajando na onda
Dessa menina
Que dá aula de inglês
Toma vinho português
E vive rindo
Da minha ignorância
Mas a minha tolerância
Vai fundir a sua cuca..."
 
Até aí tudo bem. Somos apresentados ao nosso caríssimo capiau, que se apaixona pela professorinha de inglês de classe média (afinal de contas, ela não toma nenhum Romanée-Conti, mas também não apela para o Mioranza), e que sofre por isso. Pudera. Se apaixonar por alguém que é professor no Brasil e ri dos outros é de chorar mesmo. Mas ele persiste, e vai demonstrar a nosso pequeno pedaço de arrogância da classe C que é um rapaz tolerante. Proeza nos tempos de hoje. Uma última confissão: eu juro que sempre entendi que a dita cuja dava aulas de inglês em um navio português. O que sinceramente parecia bem mais bizarro.
 
" Vou te bater uma real
Vou dizer que sou o tal
Bater um papo no café
É papo de jacaré
Mas vê se fala por favor
A minha língua
Que já tem até uma íngua
Por causa do seu inglês"
 
Até agora eu simpatizava com o nosso protagonista, rapaz pobre da roça que se apaixona pela princesinha de papel culta. Mas ele chega nela como um legítimo peão, vamos concordar. Imagine a distinta leitora que encontra-se em uma cafeteira, a ler algum desses semanários gratuitos, quando chega um rapaz todo pimpão e manda um "Sou o tal". Já é ou já era? E eu sinceramente não tenho a menor idéia do que seja um papo de jacaré. É tipo, conversinha mole antes de comer? Quero acreditar que ele falou todas essas bobagens por causa da íngua na língua (rima pobre, mas fazer o que? O menino é da roça). Diz papai Aurélio que íngua é um linfonodo, um ingurgitamento dos gânglios linfáticos. Salvo engano, o negócio fica cheio de pus. Nojinho.
 
" Eu não sei falar
Também não sei entender
Sou só só só suburbano
Sou latino-americano...
Sei quem é fulano
Mas não sei quem é cicrano
E o seu inglês
Fica pegando no meu pé...
 
Diz que vai me ensinar
Então diga como é! (4x)"
 
Bom, pelo menos o garoto reconhece sua condição. Não que ser suburbano, e muito menos latino-americano, seja desculpa para não conhecer o idioma inglês. Mas admitir a ignorância é o primeiro passo. Aliás, rolou uma gaguejada bacana no "só só só", mas completamente explicável: foi para se adequar ao ritmo pouco ortodoxo da melodia. Compreensível. Deve estar nervoso depois de levar um fora, porque é o máximo que eu conseguiria com um "Eu sou o tal". Ele não é tão o tal assim, afinal, mal consegue entender a periguete. E o pobre diabo até pede ajuda à moça, repetidas vezes, praticamente implorando. Ela diz que vai ensiná-lo, mas será que nosso pocinho de arrogância que vive de crédito vai ajudar?
 
"E o que é essa garota
Tá querendo me dizer?
I love you, meu chuchu
Merci beaucoup
Meu chuchu, isso é francês
E não inglês..."
 
Alguém que dá a cantada do "Eu sou o tal" merece uma namoradinha poliglota com manias exibicionistas. E que ainda dá uma de malandrona, fingindo que fala francês com um Merci Beaucop que qualquer gambá de desenho solta de vez em quando. Parece eu com meu japonês de anime legendado. E o pior é que o nosso excelentíssimo caipira caiu. Eles se merecem.
June 17

Traz aqui, traz... Não quero levantar...

 
Eis-me novamente como advogado do diabo. Dizem que sou do contra, que vou de encontro às opiniões de outros apenas por diversão. Confesso que realmente me entreto com isso, mas minhas motivações vão além de ver faces rubras e lágrimas de raiva. Às vezes, e só às vezes, eu realmente acredito no que estou dizendo. E faço questão de firmar pé e colocar aqui, diante do escrutínio público, minhas convicções.
 
É o que acontece quando defendo a preguiça, por exemplo. Sempre achei que as pessoas geralmente superestimam o trabalho duro e o esforço. Aquela coisa de "Deus ajuda quem cedo madruga". Muita gente não entende que, na verdade, a preguiça é um elemento de evolução. Provavelmente foi a mais pura vontade de ficar quietinho na cama que motivou a maioria das invenções. Como o despertador. Idéia genial, com cara de criação de dorminhoco. Forno de microondas também. Eu sei de toda a história, de como ele foi criado por um cientista que sentiu um chocolate derreter no bolso ao lado de um gerador de microondas, mas tenho certeza que o rapaz não era exatamente do tipo ativo e cozinheiro. Sem falar no controle remoto - juro que conheço gente que nem sabia que tinha como mexer na TV com a mão no aparelho.
 
Chorumelas à parte, essa aversão que muita gente tem em relação à preguiça está na verdade associada àquilo que um alemão tornou famoso: a ética protestante. Segundo Max Weber (e não o Gehringer, que provavelmente me crucificaria agora), por algum motivo, os primeiros protestantes defendiam que o sucesso na vida - inclusive o financeiro - era a forma de demonstrar que Deus abençoava o indivíduo. Por isso tanta preocupação em enriquecer e ficar bacana: para conseguir uma vaga no céu. Só que naquela época o único jeito de fazer isso era na base do trabalho, não tinha jeito. E quem não estava muito animado acabava ficando com pinta de amaldiçoado, de gente ruim. Daí para o capitalismo, as indústrias e as horas do cafezinho que não passam nunca de cinco minutos foi um pulo.
 
Na prática, muito do que é criado hoje em dia pela tecnologia vem no caminho inverso a isso aí em cima: queremos menos trabalho. menos movimento, menos cansaço com coisa inútil. O que implica mais funções no celular (para não ter de procurar pela agenda eletrônica na mochila, que está uma bagunça), livros no computador, compras pela internet! Preguiçosos adoram a palavra "praticidade", só não gostam mais do que "controle remoto universal". É natural querermos nos esforçar menos, para armazenar energia: era isso que faziam nossos antepassados. E graças a esse tipo de atitude, de não sair para caçar porque está frio e chovendo, é que estamos aqui hoje. E provavelmetne se a gente ainda vai para a frente, é por causa de pessoas que não fazem questão alguma de sair do lugar. 
June 13

Um Grito de Socorro

 
Sou um apaixonado por tecnologia. Não chego a ser fanático, do tipo que sabe quando surgiu o microchip, quando foi criado o nanochip ou qual é a previsão para o picochip. Mas acompanho atento a chegada da tecnologia, principalmente de informação, ao nosso cotidiano. E é daí que vem meu temor: a forma como vão usar essas coisas todas que surgem todos os dias em uma velocidade absurdamente estonteante.
 
O celular, por exemplo, está na vida de todo mundo hoje em dia. Conheço gente que prefere ter o aparelhinho móvel a ter um telefone fixo, por exemplo. Eu sou um desses: com exceção do trabalho, prefiro mil vezes o celular para ligações pessoais do que ligar de casa. Chego ao cúmulo às vezes de ligar do celular para alguém estando em casa, e podendo tranquilamente usar o fixo, por pura preguiça de levantar da cama. Mas o fato é que me assusta o alcance que a coisa tomou, principalmente em termos de convergência. A maior vantagem de telefones móveis, para mim, sempre foi a comodidade de poder ligar e receber ligações "em qualquer lugar". Mas tem gente que surta com outros apetrechos possíveis: celular que é celular tem que mandar mensagem, acessar a internet, tirar foto, filmar, fazer pipoca, fritar um bife... Eu lembro que na primeira vez que meus primos menores viram meu atual celular a primeira pergunta foi "Não tem joguinho?". "Não, não tem joguinho." "Mas nem cobrinha?". "Nem cobrinha". "Que chato". Eu mereço.
 
E é engraçado como as coisas só pioram, mesmo no que se refere a só um desses recursos, como as mensagens. Sou usuário assíduo de SMS, porque sou sucinto e consigo normalmente passar mensagens importantes em 130 caracteres. Mas, por algum motivo, as pessoas se encantaram com esse recurso, que me lembra muito os velhos 0900 de piadas. Gente que escreve no teclado do celular mais rápido do que consigo digitar no computador. E que se impressiona com a possibilidade de receber todo tipo de informação por mensagem. Notícias de economia, de política, dicas de relacionamento, horóscopo! Vão lançar qualquer dia desses um celular cartomante, que fotografa a mão do usuário e prevê seu futuro. Por meros 50 centavos a mensagem.
 
Outro recurso que me preocupa nos celulares é o tal toque personalizado. Sou adepto, e acho até legal que toque o tema de "O Poderoso Chefão" quando meu pai liga. Mas tudo tem horas e horas. Tem no Youtube um vídeo em que, durante uma entrevista ao vivo em um telejornal, começa a tocar o celular de uma autoridade qualquer, ecoando pelo estúdio um "Não me chame não, viu, não me chame não". Lamentável. Sem contar o toque de risada estridente que já ouvi em velório. Há horas e horas para tudom, e para isso serve um outro recurso poderoso e muito ignorado: a opção do "silencioso".
 
Não quero parecer chato ou rabugento, entendam. Gosto de toda essa inovação, e de saber que tenho de tomar cuidado redobrado sempre que for fazer alguma besteira porque pode existir alguém com um celular por perto, que vai filmar, fotografar ou pelo menos gravar minha voz. Mas como toda tecnologia, é preciso cuidado nos exageros para não se tornar refém. Porque aí pode não ter mensagem de 50 centavos que resolva.
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