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27 octobre

Mono

 
Não aproveitei minha vida. Pode parecer estranho que alguém de dezenove anos tenha tanta certeza disso, ou que considere grave ter desperdiçado dezenove em um país com expectativa de vida de mais de oitenta anos. O fato é que dizem nossos pais que a infância e a adolescência são as melhores fases de nossa vida, e analisando com cuidado (apesar de ser sábado à noite), percebi que passei os últimos dezenove anos praticamente embalsamado. Ou mumificado. O que parecer pior.
 
Sou um nerd. Nunca tive vergonha de falar isso, porque defendo a teoria - felizmente já muito difundida - de que um dia os nerds comandarão a Terra. Provavelmente você trabalhará para um nerd, ou terá um colega nerd que ganha mais do que você e te irritará gastando tudo em videogames. Só que ser um nerd não é exatamente o paraíso - falta um pouco de, como dizer, sociabilidade. Não somos famosos por ter um círculo social muito extenso, ou uma agenda cheia de telefones. Somos mais conhecidos por nossa suposta inteligência superior, o que nos coloca em uma categoria diferente, como se simplesmente não fôssemos humanos. A possibilidade de alguém não-nerd fazer amizade com um nerd é tão remota quanto a da mesma pessoa fazer amizade com um computador. Diferente de um nerd, que se deixar até apelida o laptop com nomes carinhosos como "Speed" ou "Fireburn".
 
Não me arrependo de ser um nerd, nem de ter crescido como um nerd. Mas queria que pelo menos tivesse sido como um nerd de filme americano. Daqueles que, próximo ao final do ensino médio, começa a fazer todo tipo de loucura para não chegar virgem à faculdade, e no final se dá bem com uma loira qualquer. Minha maior diversão no ensino médio foi jogar RPG nos sábados à tarde. Nada de festas de arromba com garotas seminuas, ou roubar o carro do meu pai para encher a cara com meus amigos. Sou tímido, mesquinho e péssimo motorista. Mas isso não justifica o Universo me castigar com uma vida repleta de noites de sábado ao computador.
 
Não tenho muitos arrependimentos na vida. Não que eu não tenha errado muito, é que em geral eu distorço a realidade para diminuir minha mancada. Mas da monotonia da minha adolescência, essa sim eu me arrependo. Me arrependo também de não ter feito mais amizades, de não ter feito mais bobagem, de não ter perdidos chances de ficar calado ou quieto na minha. Porque tenho certeza de que se eu tivesse tido uma vida dessas não estaria escrevendo um texto sobre como minha vida é monótona em um sábado ao noite.