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15 octobre Marcelinho, o Opinioso, comenta: "É casado? Tem filhos?"Estourou minha cota de paciência com bobagens da imprensa a história da propaganda eleitoral da Marta Suplicy sobre a vida pessal do Kassab. Sério. Tanto que resolvi voltar à seção "Marcelinho, o Opinioso, comenta" para tratar do tema. Não que seja exatamente um sacrifício dar minha opinião sobre isso. Mas esse espaço é mais como um alívio catártico, um cantinho que me permite desabafar e desestressar sem gastar fortunas com terapia.
Quem não sabe do que estou falando precisa ler mais jornais ou frequentar mais sites de notícias na internet. Não se falou de outro assunto essa semana. Acontece que na volta do horário eleitoral gratuito para o segundo turno da eleição para a prefeitura de São Paulo, a candidata do PT Marta Suplicy trouxe uma inserção em que um locutor perguntava, entre outras coisas, se o o eleitor sabia se o outro candidato, Gilberto Kassab (do DEM) era casado e se tinha filhos. Em resumo, a peça tratava do passado de Kassab, no qual a campanha de Marta está se focando agora, discutindo suas antigas ligações políticas.
De repente, começou o chilique. Por que? Porque algumas pessoas interpretaram que na verdade a pergunta era uma forma subliminar de se questionar a sexualidade do candidato à reeleição. É importante esclarecer que esse tipo de boato sempre existe, mais nas redações do que entre o povo propriamente dito. Jornalista é cheio de citar comentários maldosos que ouviu de inimigos ou mesmo de amigos de políticos. Nesse caso não podia ser diferente, mas a coisa extrapolou para as manchetes e se tornou o novo escândalo. Parodiando Titãs, "o maior escândalo dos últimos tempos da última semana". Editoriais terríveis, colunistas em polvorosa e gente decretando que isso manchará para sempre a carreira de Marta.
Nossas avós sempre disseram que muitas vezes a maldade está nos olhos de quem vê. Acho que aqui é disso que se trata, mas com um pouquinho de interesse escuso envolvido. Corro o risco de ser já imediatamente tachado de petista (ou pior, de petralha), mas me arrisco a analisar o fato. É realmente importante saber se um candidato a prefeito é solteiro, casado, viúvo ou namora? Nem um pouco. Isso não quer dizer, no entanto, que sua vida pessoal não seja importante. Homem público nunca terá uma vida pessoal completamente dissociada de sua carreira. Isso pode se dar pelo envolvimento de coisas públicas com o o privado (caso do ex-presidente do Senado Renan Calheiros) ou pelo simples fato de eventualmente segredos aflorarem. Quantas autoridades inglesas volta e meia não renunciam após aparecerem em algum tablóide com uma prostituta. Ou um michê?
Uma comparação ainda mais esdrúxula surgiu em outros momentos: comparou-se o fato ao episódio da eleição em 1989, quando Collor, vendo-se ameaçado por Lula, pagou para que a ex-mulher do atual presidente gravasse uma entrevista falando que Lula hava pedido que ela abortasse. Primeiro: aborto é bem diferente de opção sexual. Aborto é crime, e naquela época a sociedade era ainda menos tolerante com esse tipo de coisa. Além disso, a coisa foi completamente explícita. Agora, algumas pessoas que assistiram ao vídeo de Marta em fase de teste sequer consideraram a possbilidade de se estar discutindo os gostos de Kassab na cama. Obviamente não havia nenhum jornalista no grupo.
Me interessa saber se o Kassab é gay? Não. Mas se ele for, e se esconde isso, é problema meu? Pode ser. A idéia nesse caso é sempre discutir o que mais ele pode estar escondendo, e não se ele está ou não trancado em algum armário por aí . Políticos são hábeis na arte de ocultar rabos presos (com o perdão do trocadilho) de suas vidas pregressas. Nos Estados Unidos, o tão aclamado berço da democracia, praticamente toda disputa presidencial é cheia de dossiês e coisas arremessadas no ventilador. Aqui a gente tem uma tradição de jogo sujo só por baixo do tapete, deixando para a tela da televisão só sorrisos e propostas. Marta errou? Errou. Em campanha ganha quem consegue prever o máximo de movimentos à frente, como no xadrez. Isso tem que incluir mal-entendidos e interpretaões bizarras da mídia. Cochilar nisso pode ter custado a ela a chance de se eleger. 7 octobre "Rastafáris" no porãoMeu vizinho fuma maconha. Não ia nem falar sobre o assunto, mas quando me preparava para escrever mais uma obra prima de análise econômica senti o cheiro subindo pela varanda. Sim, é o vizinho do apartamento de baixo. E ele fuma praticamente toda noite, o que explica um pouco melhor minha revolta em relação ao tema. E talvez as piadas que eventualmente escrevo por aqui à noite e não acho a menor graça no dia seguinte.
Não sou careta. Conheço muita gente que já fumou, fuma às vezes ou fuma regularmente. Não me importo, acho que cada um faz o que quer. E nem começo com discursinhos como "se quer destruir o próprio pulmão e o cérebro é problema dele". Sério, não me importo mesmo. Desde que não suba pela minha varanda toda noite. E é como se ele fizesse questão de colocar um ventilador, mandando a fumaça para fora e a colocando diretamente em rota de colisão com meu apartamento. E aí ele fica com o que aparentemente leva todo mundo ao consumo, que é o barato, e para mim sobra só o cheiro incômodo. Não que eu quisesse trocar de papéis, eu simplesmente preferia que eles não existissem.
Talvez eu não devesse tornar a história inteira pública. Não tenho prova nenhuma do que falo, exceto talvez o depoimento de alguém que já frequentou suficientemente festas de faculdades de humanas para identificar esse tipo de coisa no ar. Talvez nem seja o vizinho exatamente abaixo, pode ser o de algum outro apartamento do andar, ou mesmo alguém do meu andar que aproveita uma anomalia nas correntes de ar que circulam o prédio para infernizar minhas noites. Provavelmente é o rapaz do saxofone, que de vez em quando resolve ensaiar nas manhãs de finais de semanas. Um me dá sono, o outro me acorda - uma bela dupla, diga-se de passagem.
Volta e meia me perguntam o que penso da descriminalização da maconha. Como se minha opinião fosse importante, ou como se eu fosse fazer campanha para qualquer um dos dois lados. Uns argumentam que o tráfico alimenta o crime, outros que se fosse liberado teríamos uma quantidade de viciados semelhante à dos cigarros normais, mas com uma substância mais nciva. Para ser sincero, não ligo muito. Desde que não aumente a quantade de fumaça chata entrando no meu quarto toda noite! 1 octobre De 0 a 10O ser humano classifica tudo. Sempre classificou. Não estou falando de nada científico, como tabelas periódicas ou números primos. Estou falando de coisas banais, como dar notas para jogadores de futebol após uma partida, a hamonia de uma escola de samba ou mesmo nádegas (a popular bunda) que eventualmente passam em frente a uma mesa de bar. Somos sempre tentados a dar valores numéricos às coisas, ou separá-las em categorias por cheiro, tamanho, forma, cor. Pensamos que podemos controlar o que classificamos, mesmo que sejam furacões devastadores. Como se a natureza se importasse com a escala Richter na hora de sacolejar o Japão.
Às vezes chegamos ao absurdo de querer analisar coisas abstratas. Emoções. Inteligência. Testes de QI são particularmente perturbadores para mim - com um 100 você é normal, abaixo você tem problemas, acima você é superdotado. Curioso é que um 140 não garante a você ser popular na escola, ou pelo menos amizades. Talvez porque o número não esteja na sua testa, ou talvez porque medir algo assim seja tão bizarro que a natureza faz questão de te castigar com a solidão eterna. Medimos até a dor - nunca passei por um parto, mas me dizem os médicos que o sofrimento de ter algo de alguns quilos saindo de você equivale ao de um infarto ou de problemas no dente.
Comecei a pensar recentemente em outras possibilidades igualmente esdrúxulas, como classificar nosso nível de felicidade, por exemplo. Sempre acreditei que felicidade é o nome bonito dado a um estado de alegria que dura mais do que o esperado. Como se a dopamina que permeia nosso cérebro em momentos de prazer demorasse um pouco mais do que o normal para ser metabolizada. De qualquer forma, imagino uma pesquisa em escala mundial, ou pelo menos nacional, sobre quão feliz um indivíduo se sente. Isso poderia contar pontos na escola, em entrevistas de emprego, entre outras. É uma idéia.
- Com licença, senhor.
- Pois não?
- Estamos fazendo uma pesquisa sobre o nível de felicidade das pessoas. O senhor se importa de participar?
- Olha, adoraria, mas estou um pouco ocupado agora...
- O senhor é feliz em sua vida profissional?
- Ahn... Bem, às vezes eu me atraso, mas é que eu enrolo um pouco para deixar meu filho na escola e...
- Hum... (anotando algo no papel)
- Ei, o que você está escrevendo aí?
- Nada, nada.
- Você anotou alguma coisa aí sim, que eu vi. O que é?
- Calma, calma. Que nota de 0 a 10 daria para seu nível de tolerância? O senhor sempre fica irritado assim facilmente?
- Eu não estou irritado! Só quero saber...
- Hum... (anota novamenta algo no papel)
- Ei, o que você escreveu agora? Eu disse que não quero participar da pesquisa!
- Tudo bem, eu entendi. É comum o senhor não querer ajudar outra pessoa que precise? Entre péssimo, ruim, regular, bom e ótimo, como o senhor classifica o seu nível de altruísmo?
- Eu só não quero participar dessa pesquisa!
- Hum... (anota)
- Olha só, eu estou fora! Já disse que não quero participar e não vou. Passar bem!
- Claro, claro. Obrigado! (e continua baixinho) Problemas no trabalho, culpa a família, se irrita com facilidade, pouco solidário. Vou dar um 3.
É, talvez não desse muito certo. Pelo menos eu passaria de ano. Por pouco, mas passaria. |
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