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19 novembre NonadaSou uma pessoa prosaica. Não que eu seja corriqueiro ou banal, longe disso. Mas sou definitivamente adepto da prosa. E se considerarmos a prosa como uma oposição à poesia, sou completa e totalmente prosaico
Descobri isso com o tempo e a prática da escrita. O lirismo foi algo que já acreditei possuir, mas não posso mais viver na ilusão. Sou cartesiano, conservador e não vejo a Lua como a demonstração mais pura do amor celeste. Vejo a Lua como um satélite natural da Terra, cujo diâmetro é de aproximadamente 3674 km e que fica por volta de 384 000 km de distância daqui. Não vejo o coração como o recanto de amores secretos de apaixonados. Meu coração é simplesmente o principal órgão do meu sistema circulatório, possui dois átrios e dois ventrículos e provavelmente de secreto mesmo só terá algumas veias entupidas.
Poesia não dá resultado para ninguém. Machado de Assis já fez poesia, mas só saiu da miséria e se tornou imortal com sua prosa realista. Já Álvares de Azevedo, expoente da poesia de segunda geração romântica, morreu virgem e tuberculoso com vinte e poucos anos. Gregório de Matos, um dos poucos poetas que admiro efetivamente, só conseguiu ser chamado de "poeta barroco" (eu me sentiria ofendido) e ser apelidado de "Boca do Inferno". Boca do Inferno? Ultraje! Nem preciso comentar Camões, autor do gigantesco "Os Lusíadas", que morreu na sarjeta. Ser poeta é coisa de português mesmo.
Não quero também justificar minha ausência de talento para a poesia por elementos tão materiais quanto dinheiro, sucesso e prazeres luxuriosos. Não duvido que eu conseguisse escrever poesia moderna. Antigamente os grandes poetas eram criaturas capazes das melhores rimas, donos de um vocabulário refinado e conhecedores da língua. Hoje em dia qualquer um escreve qualquer porcaria e publica, e sempre tem um crítico que vai chamá-lo de "o último gênio da literatura". Ora, francamente! Concretismo para mim é uma piada de mal gosto. Olavo Bilac deve estar se revirando no túmulo.
É claro que existe gente boa nesse meio. Sei apreciar Drummond, assim como reconheço o valor de Manoel Bandeira ou Mário de Andrade. Mas vejo Guimarães Rosa e Clarice Lispector como verdadeiros escritores. É como se os primeiros fossem Audis, mas os outros fossem Ferraris. Sem contar a adoração de pseudo-intelectuais e indies por poetas e "poetas" modernos. Não há nada que dificulte mais a possibilidade de algo assim me agradar do que saber que esse grupo de pessoas lê determinado autor. Normalmente, esse público gosta de autores vazios em conteúdo, mas "esteticamente agradáveis". Como se a poesia fosse uma caixinha de presentes, não importando se o que você colocará nela não passa de um par de meias.
Sou prosaico, sim, mas entendo quem se arrisca a ser poético. Existem pessoas que precisam de sentimentos, nem que sejam de terceiros. Outras preferem ter as próprias sensações e acreditam que, colocando-as no papel, elas deixarão de ser tão ilusórias. Eu faço o mesmo, mas com a prosa. Porque, independente do gênero, as pessoas escrevem pelo mesmo motivo: o egoísmo de vencer a morte e permanecer vivo, nem que seja por palavras.
17 novembre CaixinhasOdeio as pessoas. Imprévisíveis, pouco confiáveis, ainda menos inteligíveis. Odeio não entender as coisas. E como as pessoas são as criaturas mais entrópicas do universo, eu as odeio.
Vá lá, ódio é um sentimento mto forte. Digamos que eu as deteste. Sim, por que as pessoas mentem. Falam exatamente o oposto do que sentem. A garota está afim de você, mas quando você pergunta ela diz que não. Para que se fazer de dífícil? Seu vizinho odeia as músicas que você ouve no último volume, mas quando vocês se encontram no elevador ele não fala nada. Custa falar "Desculpa comentar, mas você se importa de ouvir Calypso mais baixo a partir das duas da manhã"?
É essa falsidade que irrita. As pessoas escondem os sentimentos dentro de pequenas caixinhas. Acordam todos os dias, abrem o armário e começam: "Hoje vou levar um pouquinho de amargura, outro tanto de rancor, mas acho que vou pegar um pouquinho de ternura... Não, ternura não. Ei, achei minha inveja!". Mas na hora de falarem com você, são corteses e gentis. Como tamanduás. Sabia que o abraço do tamanduá é uma forma dele se proteger dos predadores. Extremamente perigoso, mas para quem vê parece só que o bichinho tá carente.
Aliás, considerando os tamanduás, até que as pessoas não são tão ruins assim. Não estou falando de celebridades caridosas ou budistas. Estou falando das pessoas que nos fazem rir diariamente. Os palhaços cotidianos. Todo mundo tem um amigo metido a engraçadinho, que não sabe a hora de parar. E que às vezes até irrita! Eu sei porque sou um. Já me disseram que minhas piadas são infames, mas eu sou brasileiro e não desisto nunca! Tudo bem, vou tentar parar.
A vida é uma piada, mas só tem graça se rirmos dela. Se rirmos das nossas pequenas tragédias diárias, com as pessoas e suas caixinhas de sentimentos. Das vezes que o destino nos prega peças. Das figuras que conhecemos todos os dias, e que tanto bagunçam nossas vidas. E que no final podem até ir, mas não sem deixar algo ou levar algo. Não estou falando materialmente, apesar de já ter perdido algumas coisas que emprestei e nunca mais vi, mas também na memória. Sempre vamos nos lembrar dos bons momentos que passamos com alguém, da corrida sob a chuva incessante, da festa em que alguém bebeu demais. E são esses momentos que farão a diferença quando nossos filhos tiverem nos colocado em asilos solitários.
Acho que ainda tenho esperança nas pessoas. E suas caixinhas. 16 novembre Nerds(,) paladinos e outras aberraçõesHoje quis um texto que tivesse a palavra "paladino". Não sei o que me deu, eu simplesmente fiquei com vontade. Pode ser por ter ouvido falar recentemente de uma banda que se chamaria "Paladinos do Forró". Não confirmei se é verdade um nome desses (na verdade o Google diz que não existe, e se o Google diz que não existe é porque não existe), mas fiquei encucado com a palavra. E quando eu fico encucado com alguma coisa eu ponho no papel ou no teclado, o que vier primeiro.
Muita gente não imagina o que signifique "paladino". Dicionário online serve pra isso. Originalmente eram os cavaleiros que acompanhavam o imperador carolíngio Carlos Magno. Não custa lembrar que devo muito aos carolíngios- meu codinome vem de uma brincadeira com o nome de um de seus regentes, Pepino, o Breve, um grande imperador de estatura reduzida. O fato é que esses cavaleiros tornaram-se notáveis por suas habilidades em proteger tanto o imperador quanto os interesses do reino, e logo "paladino" virou sinônimo de protetor, defensor.
É nesse sentido que eu me considero um paladino. Em RPG, ou Roleplaying Game, existe a figura do paladino como um guerreiro leal e bom, um defensor do bem e da verdade. Para quem não sabe, RPG é um jogo de interpretação de personagens, uma espécie de teatro, e não um culto satanista onde virgens inocentes são sacrificadas e um resultado ruim nos dados de 10 lados (como assim 10 lados?) signifique a sua morte e a de seus pais. Isso é lenda, provavelmente criada por brincadeira por algum jogador de humor doentio.
Jogo isso há mais ou menos uns 10 anos. Acreditem, já ouvi de tudo um pouco. Mães que não permitiam que seus filhos jogassem pois começariam com isso e logo estariam roubando. Ignorantes que me chamavam de "bruxinho". Ou simplesmente pessoas que passaram a me olhar diferente, como se eu fosse portador de uma doença terminal altamente contagiosa. Alguns colegas de mesa me diziam para ignorar, mas não posso! Sou um nerd paladino! Tenho de defender a minha causa! Não vou permitir que minha vida social seja destruída por esse preconceito tolo.
Sim, eu luto contra tudo isso. Já estive em situações de interpretar maníacos psicóticos, assim como já interpretei padres. Já fui um sacerdote de um deus medieval protetor, e atualmente interpreto o deus da mentira e da intriga em um outro universo. É um maldito teatro, ora bolas, e ninguém crucifica um ator por um papel maníaco. Kevin Spacey faz um católico fanático que mata pessoas em Seven e nem por isso dizem que ele é maluco ou roubará no futuro. Por que isso comigo? Só porque não fiz Beleza Americana?
Tudo o que nós, nerds, fizemos foi sistematizar o teatro. Dar condições para que todos possam aparecer e se divertir igualmente. Afinal, não é exatamente justo que um ator interprete Otelo enquanto outro faça o cocheiro. Pode ser no teatro, mas não em RPG. Que é, antes de tudo, um jogo que objetiva a diversão em grupo. O foco é a cooperação, e não a competição. Muitas vezes o trabalho solitário é impossível, e você precisa do seu amigo. Isso era para ser bom, devia ser usado com as crianças. RPG é pedagógico! E eu não estou falando de ensinar rituais pagãos ou coisa do gênero.
Experimente conhecer, deixo aqui minha sugestão. E veja, é uma sugestão. Os paladinos de Carlos Magno não deviam ser tão sutis, mas funcionavam. Assim como eu posso fazer um voodoo na próxima sessão de jogo caso os preconceituosos insistam... 13 novembre Crônica de um não-fatoEram umas cinco da tarde quando meu telefone tocou. Era Luis, um amigo que apesar de próximo eu não via há algum tempo, e que estava eufórico. Chamou-me para um café aqui próximo, queria contar uma novidade e disse que a primeira pessoa que lembrou para tal fui eu. Eu não estava fazendo nada, afinal, e reecontrar um bom amigo podia ser divertido. Só não sabia se o fato dele lembrar-se de mim em primeiro lugar para o ouvinte de sua novidade era bom ou ruim.
Encontrei-o já no local. Ele bebericava um capuccino, enquanto eu pedi apenas um expresso. Ele cumprimentou-me efusivamente, e pediu que eu me sentasse.
- Conheci uma pequena.
- Uma o que?
- Uma pequena.
- Como assim uma pequena?
- Uma pequena, oras. Uma donzela.
Eu não pude conter um leve riso.
- Luis, não estamos nos anos 30. Ninguém mais fala essas coisas. Fala que conheceu uma garota, uma moça, uma mina, sei lá. Acho que você é o único que conheço que ainda fala que conheceu uma pequena!
Um sorriso amarelo passou pelo seu rosto, acompanhado de um rápido movimento de ombros.
- Não importa. O fato é que trata-se de minha alma gêmea! Estamos destinados um para o outro, preciso tê-la ao meu lado pelo resto de meus efêmeros dias!
Eu já tinha relativa experiência com amores problemáticos, de modo que eu já sabia que a ilusão da "alma gêmea" não ajudava muito quando as coisas acabavam não indo bem. O problema era explicar isso ao meu amigo.
- Olha, Luis, fico muito feliz por você. Mas, não sei, não acha exagero você já se ver ao lado da garota pelo "resto dos seus dias"? Você pelo menos a conhece.
- Sim, claro! - ele movimentava de tal forma os braços que as pessoas em volta começaram a nos observar- Ela é amiga de minha irmã! E uma princesa! Que porte, que gala!
- "Que porte"? "Que gala"? Luis, você está falando de uma garota, não de uma égua de corrida. Eu lembrava do se vocabulário formal, mas isso já é exagero! Você pretende falar assim com ela?
- É exatamente este o problema que me aflige! Necessito de tua ajuda! Não consigo diminuir sozinho a formalidade de minhas colocações!
Não pude deixar de rir pela ironia. Por anos eu tentei ser mais formal, como ele, porque pensava ser isso garantia de sucesso. Até que desisti, e agora ele queria minha ajuda para o processo contrário.
- Tudo bem, vamos ver o que posso fazer. "Diminuir sozinho a formalidade de minhas colocações" é horrível. Tente "falar de um jeito mais normal".
Ele fez uma cara de nojo, mas murmurou algo que acabava em um "normal". Presumi que ele tivesse acertado. Segui em frente.
- Quando falar com ela, não seja poético demais. A garota tem de conhecê-lo primeiro, se interessar por você. Isso significa que você tem que ouvir mais do que falar. Mulheres gostam de bons ouvintes. Ou seja, guarde Olavo Bilac para mais tarde, quando estiverem mais íntimos. Por hora, tente perguntar sobre a novela, sei lá. Você sabe do que ela gosta?
- Bom, o gosto dela se assemelha ao de minha irmã.
Não resisti e soltei uma cara de nojo. A irmã dele tinha um gosto horrível para qualquer coisa.
- Tá, isso não ajuda. Pesquisa antes então. Descobre o que tá passando na novela, ou o último sucesso do funk, e manda ver. A garota vai gostar de saber que você tem interesses parecidos. Mesmo que não tenham.
Ele riu. Depois fez cara de nojo.
- Funk?
- Isso?
- Acho que ela vale o sacrifício.
- É assim que se fala. Você me liga avisando o que deu?
- Ligo.
- Então beleza. Boa sorte com a garota.
Acabei meu café, paguei, me despedi e fui embora. Nunca mais o vi ou ouvi falar dele. 9 novembre Ao rufar dos tamboresDenominava-se O Grande Mefisto. Já tinha certo renome na cidade, de modo que se dava ao luxo de fazer algo que poucos por ali podiam: seus shows eram fechados a crianças. Nenhum pirralho para gritar "Faz a dos pombinhos!" ou "Tira uma moeda do meu ouvido!". Com uma platéia jovem e adulta ele podia se dedicar aos seus maiores truques, aos mais espantosos! Fatiaria sua assistente, se atearia fogo para aparecer milagrosamente por trás da platéia. E sem o risco de ouvir choradeiras incontidas e gritaria.
Tudo que ele temia nos adultos era a observação. Ah, os observadores eram o pesadelo de qualquer mágico! Sempre existe o sabichão, que quer se mostrar aos amigos ou à mulher descobrindo o segredo por trás do truque. Ficam de olho nas mãos do mágico, na capa, nas mangas. E de repente soltam um grito, um "RÁ!", como se tivessem descoberto a gravidade. Logo em seguida, no entanto, o Grande Mefisto arregaçava as mangas, ou retirava sua capa, e completava o truque, deixando a todos estupefatos e o sabichão boquiaberto e confuso.
Ele sabia que aquilo não duraria para sempre. Um dia um sabichão desses descobriria a verdade. Veria o pequeno fio de náilon preso ao indicador esquerdo, ou a moeda entre os dedos, ou mesmo o dispositivo com as facas falsas. Mas isso não seria problema, não para ele, O Grande Mefisto! Um mágico iniciante talvez ficasse perdido e inseguro, mas não ele. Eram longos anos de palco para um erro bobo desviá-lo. Ele era um mestre da ilusão, e seu público não se decepcionaria jamais.
O teatro estava lotado, a platéia silenciosa. As cortinas se abriram, mas nada estava sobre o palco ainda. Um estopim, que gerou gritinhos abafados da platéia, e do meio da fumaça roxa que cobre o palco ele sai. Um fraque impecável, a cartola brilhando com as luzes. E ele se apresenta, O Grande Mefisto, mestre do ilusionismo e da magia. Um rompante de aplausos ecoa pelo teatro. Ele faz uma pequena mesura e se dirige à mesa, onde sua varinha o aguarda. O show começa.
Mefisto tinha tudo preparado. O show ia maravilhoso, nunca havia realizado seus truques tão perfeitamente. Preparou-se para o final, o seu último truque, mais secreto, inédito até aquele dia. O mergulho. 8 metros de altura, um mergulho de cabeça. Colocou a rampa, e aproveitou para prender os equipamentos que tornavam aquilo possível. Foi quando ouviu os sussurros vindo do canto da platéia. "Olha lá, ele prendendo algo nos sapatos. Sabia que tinha um truque! Espera ele acabar que a gente acusa!" Tremeu. O dia chegara. Finalmente um sabichão o desmascaria. Mas ele estava preparado para aquilo. Sabia, lá dentro, que aquilo aconteceria uma hora. Soltou os equipamentos dos sapatos. Caminhou até a ponta da rampa, fez um pequeno gesto a todos, esperou que a assistente se afastasse e saltou. 8 novembre Manivelas, cachorrinhos e "música de verdade""Tá com pulga atrás da orelha?
Me pegue e puxe, me beije e puxe!"
Não, meus caros, não trata-se de poesia moderna. Ou trata-se, de certa forma. Isso é na verdade o começo do refrão do último hit de Kelly Key. Sim, Kelly Key, cantora popular e artista de renome no meio da música brasileira. Autora de sucessos como Baba, baby e Cachorrinho, a cantora agora manda ver com Pegue e Puxe, a obra-prima de onde foram retirados os versinhos com que iniciei essa composição.
Espero que tenham visto a ironia com que trato do assunto. Há muito tempo música popular brasileira deixou de ser MPB. Virou a música da rádio, que faz sucesso com o povão, que aparece no Faustão aos domingos e no Show da Virada do fim de ano da Globo. Kelley Key é a música popular das crianças e adolescentes, assim como um fenômeno que não entendo chamado Rebelde, importado diretamente do México. Um grupo de trintonas que interpretam colegiais que parecem saídas de um filme pornô de quinta. Eu ia perguntar como isso faz sucesso, mas lembro que uma fórmula parecida funciona por aqui há mais de uma década... Quem aí nunca viu Malhação?
Não concordo, no entanto, com a visão preconceituosa que qualquer música popular particularmente recebe. Eruditos, pseudo-eruditos, indies e afins fazem sempre questão de frisar que essa música das massas é "um lixo, uma abominação, uma coisa hooooorível"! E se lembram saudosos, mesmo que não tenham vivenciado, dos festivais, da tropicália e das músicas de protesto. "Ah, quando Geraldo Vandré compôs Prá não dizer que não falei de flores existia música no Brasil, hoje a indústria cultural só produz essas coisas que vendem! Cadê a preocupação social? Cadê o protesto?"
Preocupação social, meus caros, tem hora e vez. Como eu sempre faço questão de frisar, ninguém leva o último CD do Harmonia do Samba para um sarau de poesia parnasiana, certo? Então por que sempre aparece um espírito de porco vestido de preto com uma coletânea do Chico Buarque no churrasco? Ainda estamos na ditadura para ouvirmos Cálice enquanto pensamos na opressão realizada pelos militares? Eu só quero me divertir no churrasco, não sentar num canto e começar uma discussão socio-filosófica sobre a poesia de Drummond ou a prosa de Dostoiéviski. Isso eu faço outra hora.
Música popular é mais do que CDs para venda e jabá para rádios. Muita música popular surgiu como manifestações regionais e evoluiu em diversos sentidos. O sertanejo romântico de Bruno & Marrone que ouvimos por aí começou com as modas de viola originais do sertão. Alguns consideram um regresso, outros preferem as novas temáticas. Calypso é originalmente um ritmo paraense, uma manifestação regional como o forró de pé de serra. Isso não é considerado manifestação cultural? Não é um retrato artístico da sociedade? Ou só a poesia moderna urbana alternativa do Los Hermanos conta?
Não estou defendendo o surgimento de atrocidades como Atoladinha ou a poluição sonora que vem dos trios elétricos baianos. Cultura popular nenhuma justifica que o gênio Durval Lélis, vocalista do Asa de Águia, tenha um momento de criatividade gloriosa e profira que "Deus criou o homem! O homem criou Nero! E Nero criou a Dança da Manivela!". Isso é uma aberração aqui e em qualquer lugar. Mas generalizar toda e qualquer manifestação de cultura popular como indústria cultural alienadora é um erro. E um erro pelo qual passamos sempre que dizemos que jamais ouviríamos isso ou aquilo. E se você discorda de mim, o que posso fazer? Baba, baby. 2 novembre Telhado de VidroEu quase nunca vou a livrarias, mas naquele dia em específico aproveitei que passava em frente a uma e resolvi entrar. Já estava adiando há algum tempo uma leitura para a faculdade, por isso decidi comprar logo o maldito livro e aproveitar o feriado. Chuvoso mesmo, não acreditava que fosse perder alguma farra em um clube. De qualquer forma, entrei no dito estabelecimento e fui em busca do livro.
Com muita dificuldade encontrei a estante onde o livro deveria estar. Deveria, que fique bem claro. Tenho quase certeza que livrarias são uma prévia do Juízo Final. Um teste de paciência incrível. De modo que eu já havia esgotado minhas esperanças de encontrar o que eu fora procurar quando comecei a ouvir murmúrios vindos do outro lado da estante. Minha curiosidade falou mais forte, e eu encostei o ouvido aos livros do meu lado da estante, tentando entender o que os murmúrios significavam.
- Xineaxiqui... Xineaxiqui...
Hum, algo que eu conhecia. Já ouvia falado do autor, perito em livros de auto-ajuda. Será que era aquela a estante de auto-ajuda? Resolvi esticar o pescoço e ver quem procurava o livro. Quase recebo uma cabeçada no nariz. A moça acabava de se levantar, e sua expressão de desânimo logo tornou-se um misto de surpresa e susto.
- Oh, desculpe. Eu não vi que você estava olhando.
Ótimo, odeio ser desarmado assim. Fiquei sem o que dizer.
- Eu que peço desculpas... Ouvi você falando do Shinyashiki, está procurando algo?
- Ah, que ótimo , você trabalha aqui! Então...
Eu não sabia se ela estava me zoando, mas interrompi na hora.
- Não não, eu não trabalho aqui não...
Ela fez uma nova expressão de surpresa e susto, mas dessa vez levemente enrubecida.
- Oh, me desculpe! Eu não quis...
- Tudo bem. Tem certeza que é essa a estante de auto-ajuda?
Ela olhou a plaquinha, que eu não conseguia ver de onde estava, e soltou um risinho abafado.
- Não, essa aqui é Culinária. Vou tentar achar a de auto-ajuda. Muito obrigado.
E saiu antes que eu pudesse falar qualquer coisa. Eu ri, pensei comigo mesmo sobre como as pessoas conseguem ser tão sonsas. Foi quando olhei para a plaquinha da minha estante. "Culinária". Droga.
Sobre tiros, socos e explosões"Cretino! Você gosta de dar tiros! Eu odeio gente assim! Você é um imaturo, um cocô, e eu vou matar você"
- Marion Cobretti (Stallone), em "Cobra"
Não vou negar que sou um adepto de filmes de ação com violência. Gratuita ou não, não importa. Nem sei como começou, acho que foi com meu primeiro "Duro de Matar", mas logo progrediu para desde filmes violentos meio cults (como alguns do Kubrick e "Pulp Fiction") até os filmes cretinos de ação dos anos 80. "Comando para Matar" é para mim melhor do que, sei lá, Ben-Hur. Aliás, dormi na metade de Ben-Hur. Como aquilo ganhou um monte de Oscars?
Muita gente critica a violência presente nesses filmes. Dizem que é gratuita, que influencia negativamente as crianças que assistem, que já basta a violência da vida real. Discordo veementemente. Eui comecei a assistir essas coisas com, sei lá, doze anos? Uma criança ainda, e nem por isso saí matando os outros na rua, ou brigando com todo mundo. Talvez por eu não ser estúpido- com o meu tamanho e forma física, procurar encrenca seria burrice. O fato é que a violência da vida real já é grande, concordo, mas vejo a violência cinematográfica como uma catarse. Eu descarrego a minha tensão provocada pela violência real assistindo a essas coisas, oras! É melhor do que brigar na rua, acreditem.
As pessoas não reconhecem o valor dos artistas que fazem esse filme. Eu sou um nerd, e sei dar valor. Stallone, Schwarzenegger (acho que é assim que escreve), Dolphin Lundgreen, Steven Seagal, Chuck Norris, Jackie Chan, Jet Li. Ídolos da minha adolescência que às vezes ainda se esforçam, mas não mais com o mesmo reconhecimento. Quer dizer, às vezes algum ainda é eleito governador, mas em termos de cinema... Os nerds têm muito a agradecer a esses caras. Afinal, quando você é o que apanha na escola alguém tem que bater por você, nem que seja na Sessão da Tarde.
Conheço muitas pessoas que discordam de mim. Tem gente que acha que o cinema deveria sempre ter um cunho social, mas de realidade crua já me bastam os telejornais. E quanto a protagonistas existencialistas com crises de identidade... Já tenho muitas, obrigado. Mas fico com uma dose de porradaria gratuita, tiroteios, explosões e frases clichês cretinas. Sem açúcar, por favor. |
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