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30 novembre

Nos detalhes

 

Com os longos cabelos dela entre os dedos, ele observava as borboletas que esvoaçavam à sua volta. Pousavam em uma e outra flor, carregavam o néctar e o pólen e deixavam um delicado aroma no ar. Com movimentos graciosos, suas asas desenhavam corações que só olhos apaixonados viam, e sóis multicoloridos que aqueciam os corações em festa.

Entre um e outro cafuné, ele notou o céu azul e límpido, que aos poucos recebia as alvas nuvens que surgiam no horizonte. Girassóis, beija-flores e novos corações chegavam aos poucos, disfarçados em cumulus e nimbus que hora se juntavam, ora se desfaziam. Uma brisa suave batia em seu rosto e nos cabelos dela, que flutuavam.

Ao longe, o barulho suave de um riacho ecoava. De vez em quando ouvia-se também o coaxar de um grilo, mas só às vezes, como se quisesse lembrá-los do ambiente bucólico em que se encontravam. A grama roçava a pele do casal, mas gentil, sem irritar ou incomodar. As flores balançavam ao sabor da brisa, soltando, lentamente, uma infinidade de pétalas.

Até que um passarinho pousou em um galho de uma árvore próxima, e começou a assoviar. E era um canção tão suave, tão pura, tão gentil que o rapaz se cansou de tanto clichê, empurrou a namorada para o lado e foi para casa jogar paciência.

28 novembre

A Geometria do Sucesso

(Eis uma das minhas teorias-piada de auto-ajuda profissional. A idéia é escrever um livro repleto delas.)
 
O que define um profissional exemplar? São suas capacidades técnicas? Sua habilidade nos relacionamentos interpessoais? Ou outros elementos?
 
Nenhuma empresa busca em seus funcionários a perfeição. Mas ninguém também é contratado por seus defeitos. No ambiente de trabalho, o que determina nosso sucesso é, mais do que o pensamento positivo, a reunião de elementos positivos, que se destaquem e atraiam para nós os bons fluidos da realização profissional. Para exemplificar como deve ser essa reunião, uma das melhores metáforas que encontrei (a mim ensinada por um monge budista que passou por Brasília há coisa de seis anos) é a das figuras geométricas básicas.
 
Comecemos pelo círculo. Como sabemos, a circunferência perfeita tem começo e fim no mesmo ponto. Depois de uma rota curvilínea, o ponto de origem se torna o ponto de chegada, criando uma das mais perfeitas figuras que nossa geometria euclidiana possui. Mas, o que quer dizer isso para a vida profissional? Que devemos "andar em círculos", fazendo sempre o mesmo caminho, nos permitindo cair na rotina produtiva, voltando sempre ao mesmo ponto para começar tudo de novo no dia seguinte?
 
Longe disso. O círculo nos diz como devemos guiar nosso trabalho: com um começo e um fim. A busca da perfeição reside em pensarmos nossos projetos como um círculo, ao qual devemos dar uma origem e seguirmos com ele até o fim. A perseverança no trabalho é uma das mais apreciadas virtudes: manter a determinação até quando parece que vamos nos desviar é o que garante o nosso sucesso.
 
Quantas vezes não ouvimos falar que "fulano é quadrado"? O que isso quer dizer? Que ele pode ser "careta", ou retrógrado, ou mesmo inflexível. Mas pensemos melhor em uma outra expressão, a "se vira, você não é quadrado"? O que quer dizer isso?
 
Por mais sólido que pareça um quadrado, ele não consegue se movimentar sozinho. Assim também deve ser o bom profissional: não conseguir se movimentar sozinho. Toda empresa precisa de um funcionário que se integre, que faça parte do time. O quadrado é aquele funcionário que admite que por mais que pareça bom, seu trabalho individual nunca será melhor do que o coletivo. Ele admite que, sozinho, ele não vai conseguir se virar.
 
E o que é o retângulo? Diz a nossa geometria que todo quadrado é retângulo, mas nem todo retângulo é quadrado. Então, o que torna o retângulo diferente dos quadrados? É exatamente a pergunta que deve fazer o profissional a si mesmo: o que me torna diferente do resto do meu time. Estar integrado não significa sufocar as próprias habilidades individuais, e sim saber destacá-las no momento adequado. Esse é o profissional retângulo.
 
Por fim, temos o triângulo. Considerado uma das mais perfeitas figuras da geometria, o triângulo é certamente o principal aspecto a ser levado em conta pelo funcionário de sucesso pela sua característica principal: o equilíbrio. Ninguém gosta de um colega barulhento, mas ninguém lembra de um funcionário silencioso demais. Ninguém quer sentar ao lado de um circunspecto mal-humorado, mas também não querem um comediante disfarçado. Por isso, a palavra-chave é o equilíbrio.
 
Sendo equilibrado, eficiente e bem integrado ao grupo, mas sem deixar as habilidades individuais de lado, não tem como não ser bem-sucedido no trabalho. Pense nisso!
25 novembre

O amor em tempos de conexão

 
"Sobe, janelinha, sobe". Isso sou eu, às nove da noite de um domingo, em frente ao computador. MSN, Skype, orkut, tudo aberto. E a maldita janelinha não sobe. Triste, não? Nem tanto. Sei que sou só mais uma vítima do amor de banda larga.
 
Quem vem de uma geração passada provavelmente não tem a menor idéia do que eu esteja falando. Isso acontece porque todo mundo só fala sobre como a tecnologia modificou coisas como rotinas produtivas no trabalho, mercado fonográfico, essas coisas. Mas e o amor e suas etapas? Cortejo, paquera, flerte, chegada? Ninguém comenta o que mudou?
 
Há, sei lá, quinze anos, as pessoas encerravam a paquera tentando um número de telefone. Não interessava a tática, se ia atacar com a do cachorrinho, ou colocar o colega para trabalhar. O que importava era voltar para casa com um guardanapo sujo cheio de numerozinhos. E rezar, na manhã seguinte, para serem reais, e não o número decorado de uma clínica de fertilidade.
 
Depois veio o MIRC. Explico para os perdidos, ou seja, qualquer um que não seja nerd ou que tenha mais de 30 anos: MIRC era uma espécie de boteco virtual, em que cada um podia ter sua mesa e escolher quais dos seus coleguinhas estariam presentes. O máximo de cortejo que aparecia era "Ei, quer dar uma passada no meu canal mais tarde? É #boteco_do_sandrinho, ok?".
 
Ainda existia a triste figura do dono de canal, que era o cúmulo da falta de vida social. O camarada passava meses entendendo de uma linguagem complexa para criar uma sala em que ninguém ia. Sem contar os protótipos de hackers da época, que eram o equivalente aos pitboys de hoje. "Sabia que ontem derrubei dois canais?". E passavam as mãos por seus músculos cheios de pixels.
 
Mais tarde surgiram as salas de bate-papo. Um tal de loirinha18 entra na sala, paulinha25 sai da sala, e o saldo sempre acabava sendo meia dúzia de homens (com pelo menos metade disfarçada sob nicknames femininos) olhando para uma tela em branco. Sem contar os "quer tc comigo", seguidos de "de onde tc" e "qntos anos vc tem". Excelente reduto para paquera entre ogros.
 
Hoje a onda é o MSN. Que na prática se aproxima da época do telefone. O sujeito chega na boate, e depois de muita conversa sai com um "kelzinha1982@hotmail. com". E um sorriso besta no rosto, que vai desaparecer tão logo descubra que a tal Kelzinha23 nunca aparece. É quando ele descobre que foi bloqueado, porque era uma mala e só recebeu o e-mail para ela se livrar dele.
 
Também tem a opção do Orkut. Excelente para deixar recados atrevidos, porque existe sempre uma chance de uma amiga dela ver, se interessar e, mesmo que ela não queira, você ainda pode sair no lucro. Argumento contra: competir com aquele monte de propagandas é sempre complicado. Sem contar que você pode até não colocar aquela sua foto fazendo bobagem quando era criança, mas quem vai impedir sua irmã?
 
Confesso que sou um adepto desses expedientes modernos de cortejo, porque sempre fui péssimo no viva-voz. Mas sou o primeiro a reconhecer que às vezes passa da conta. Qual a graça de horas e mais horas vendo um monte de letras e no máximo uma foto da pessoa ali no canto? Não era melhor tomar um café pessoalmente, sentindo o cheiro e, quem sabe, o gosto da dita cuja? E se a paquera não estiver indo bem, você ainda pode ligar e ela só vai descobrir que é você depois que atender. Aí você tenta emendar com algo engraçado, e com sorte reverte o quadro ruim. Não são grandes chances, mas ainda é melhor do que ficar esperando a janelinha dela, que nunca sobe...
 

Dopamina

 

- O que te faz feliz?

Eu devo ter entendido errado.

- O que te faz feliz?

Não, é isso mesmo. Só não entendi ainda o que diabos faz uma pergunta como essa em uma entrevista de emprego.

- Ah, as pequenas coisas da vida. Acordar e ver o sol brilhando... Receber uma ligação de uma pessoa querida que não vejo há muito tempo...

Isso é da garota ao meu lado. Minha concorrente. Não sei o que a esotérica-hippie-Gaia lover quis com essas respostas, soaram tão falsas. Ou será que sou eu que não entendo disso mesmo?

- Eu fico feliz quando saio com meus amigos, quando leio um bom livro, assisto a um bom filme...

Começo a ter a impressão de que sou eu o errado. Nem quando eu vejo uma comédia eu fico... Como dizer... "Feliz". Eu nem sei o que é ser feliz. Mas alguém sabe? Em que é diferente de alegre, contente, satisfeito?

- Eu fico feliz quando percebo que estou em um momento difícil, de muita transição da vida tranquila de adolescente para a vida adulta, mas que estou encarando numa boa.

Feliz? Quem fica feliz com algo assim? "Eu fico feliz de ver meu cachorrinho morrendo de câncer, porque sei que apesar de toda a dor e sofrimento ele vai para um lugar melhor". Quem cai nessas?

- Nada me deixa mais feliz do que sentar ao lado da minha namorada e ver o pôr, ou o nascer, do sol.

Ótimo! Temos um poeta entre os candidatos! Alguém que consegue misturar um sentimento inexplicável (felicidade) com outro (amor) e temos uma resposta absolutamente abstrata! Uau!

Entendam, não sou sempre amargo. Na verdade, realmente gostaria de ser até mais amargo em alguns momentos. Mas é que é difícil para mim aguentar tanta falsidade. Por que as pessoas não são capazes de alguns breves momentos de sinceridade nesse momento? "Meu sonho é casar com um cirurgião plástico podre de rico e bem velho, que morra e deixe tudo para mim e para o jardinheiro italiano". Metade das garotas ali deveria estar pensando isso, mas preferiu a adoração ao luar na hora da resposta.

- Ei, você.
- Desculpe?
- Eu te perguntei o que te faz feliz? Em que mundo você estava?
- He he. Desculpe, estava pensando na resposta. Bem, o que me faz feliz? Acho que ler uma poesia bem escrita... Ou comer um prato bem preparado...