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24 décembre

Um conto de Natal

Contam que certa vez um homem muito ranzinza morava sozinho em um casarão na cidade. A única pessoa com quem conversava era um velho empregado, e não eram exatamente conversas - impropérios seriam uma melhor definição. O homem passava o tempo inteiro chamando pelo mordomo, dando ordens contraditórias e propositalmente imprecisas, apenas para humilhar seu velho empregado. Era véspera de Natal, e após limpar toda a casa, o velho mordomo se aproximou de seu patrão e, humildemente, pediu que lhe concedesse uma folga naquela noite. Seu filho passara muito tempo fora, estudando, e agora voltara para aquela noite especial. Mas o homem, ranzinza e invejoso, disse que não poderia permitir aquilo. E ficou extremamente surpreso com conseqüente pedido de desculpas e demissão que ouviu.
 
A noite chegou rápida, e com ela a solidão. Em frente à lareira, o homem se sentia completamente só. Os estalos costumeiros do assoalho pareciam mais altos naquele momento, e ele chegou a sentir um pouco de medo. De repente, as velas se apagaram. E ele ouviu gemidos que lhe arrepiaram os parcos cabelos que ainda possuía, e congelaram sua alma. Olhou pela janela e viu ali um fantasma, flutuando no ar e lhe apontando um dedo ameaçador. Ele tentou esconder-se atrás de sua poltrona, e fechou os olhos desejando que aquilo não estivesse acontecendo. Mas os gemidos continuaram, seguidos de um estalo que demonstrara que a porta da sacada acabara de ser aberta. Um frio intenso entrou, e ele tremia tanto que abriu os olhos. Não havia nada lá. A porta provavelmente se abrira com o vento, e uma fina neve entrava aos poucos na casa, tornando o piso levemente úmido e esbranquiçado.
 
Ele riu de seu medo, e de como pudera acreditar naquela superstição boba. Seguiu até a porta para fechá-la quando viu a praça que se localizava em frente à sua casa. Sempre valorizara aquela vista não pro sua beleza, mas pelo fascínio que proporcionava nos visitantes que recebia. Chegou-se até a amurada, e resolveu apreciar a vista. Mas não havia nada. Era como se tudo tivesse se deteriorado há muito tempo - o jardim estava completamente descuidado, a maioria das plantas mortas. Ele não se lembrava daquele jardim assim! Passava lá em frente todos os dias, inclusive passara por lá naquele dia! Algo estava errado!
 
Foi quando sentiu o frio na espinha - e era o mesmo de momentos antes. Ele fechou os olhos, e começou a tremer.
 
18 décembre

Só o meu não cresce...

Eu não queria falar sobre o aumento no salário dos deputados. Não queria mesmo. Como o presidente Lula disse, Executivo, Legislativo e Judiciário são poderes autônomos entre si. Não sei se pertenço a algum desses poderes sendo povo, mas por via das dúvidas preferia não opinar. E se o que penso tomasse maiores proporções do que deveria?
 
Só que a coisa toda chegou a um grau que fica difícil continuar fingindo que não vejo. Protestos populares emblemáticos, como o de um cientista político que se acorrentou a uma pilastra do Congresso, demonstram a gravidade da situação e seu alcance. Quando um acadêmico prefere a atitude puramente manual, corporal de se prender fisicamente a um pilar da democracia ao invés de escrever uma tese abstrata sobre o assunto, é sinal de que algo está errado. Ou quando uma mulher, aparentemente desequilibrada mentalmente, ataca um deputado federal alegando como causa sua indignação contra políticos. Violência não é a solução. Não ainda.
 
Não quero, no entanto, ser superficial ou alienado. É bobagem criticar o aumento se baseando no pequeno aumento do salário mínimo, por exemplo. São situações diferentes. Ou alguém acredita que o impacto de se aumentar para R$420 o salário mínimo de mais de 100 milhões de trabalhadores é a mesma coisa de aumentar o salário dos deputados? É vergonhosa uma atitude egoísta e desnecessária como essa? Sim, claro! Mas também é muita hipocrisia que a sociedade critique esse tipo de atitude em um Congresso com tantos parlamentares reeleitos. Ora, se foram reeleitos é porque tiveram 4 anos (ou 8, no caso de senadores) para apresentar propostas e demonstrar resultados. Ou seja, quem os reelegeu deveria estar satisfeito com o trabalho destes. E agora reclamam? A melhor forma de protestar ainda é o voto, e se a sociedade abdicou desse direito...
 
Dizem que o ajuste é constitucional. Isso não é desculpa. Pela constituição todo mundo deveria ter condições de vida decentes, o que implica emprego, saúde, educação, segurança... Dizer que algo está na constituição, no Brasil, não significa absolutamente nada. Só que isso pode ser usado como desculpa por um grupo de parlamentares com 15 salários por ano, com um valor (até pouco mais de uma semana atrás) que já era igual a pouco mais de 34 vezes o salário mínimo aprovado recentemente. É realmente necessário esse valor absurdo? Os deputados não conseguem viver com a quantia anterior?
 
Segundo o presidente da Câmara, Aldo Rebelo, a decisão provavelmente não será revertida. Isso demonstra a tenacidade, resistência e coragem de nossos parlamentares. E também a mais completa ausência de bom senso. Encaram uma opinião pública em total oposição  como se estivessem fazendo algo pelo bem maior do país e que fosse de difícil entendimento pela população. Até parece uma reforma tributária. Mas não, estão apenas deixando seus rendimentos ainda maiores e mais distantes da realidade do país. Um país que, infelizmente, só escolhe horas erradas para dizer "Chega!"
11 décembre

Por onde andará o Aerolula?

Tú-dú. Atenção, senhores passageiros. Informamos que todos os vôos de Brasília para qualquer capital do país foram cancelados, bem como qualquer atitude do governo em relação a uma já consolidada crise do sistema aéreo brasileiro, que não é de agora e veio à tona somente com tragédias e imprevistos recentes. Informamos também que todos os vôos de qualquer capital do país com destino a Brasília podem ser cancelados ou se atrasarem, de modo parecido ao do desenvolvimento da economia do país, que aguarda medidas e atitudes de um governo que está dormindo no ponto. Ou nos bancos de aeroportos por todo o país. Tú-dú.

Seria cômico ouvir isso um dia desses por aí. Seria, se a situação do transporte aéreo brasileiro não fosse tão caótica. Sucessivos erros administrativos, investimentos incorretos, panes misteriosas – elementos de uma crise anunciada. Há muito o governo deixa os ares do país a ver navios (ou aviões). Falência da Varig, que já foi a maior empresa aérea do país, a tragédia do Boeing da Gol (ainda sem esclarecimentos), tantos demonstrativos de que é necessário firmeza do Estado em um sistema fundamental como o transporte. Ainda mais no sistema aeroviário, em que erros estruturais ou de operação tendem a ser fatais, como lamentavelmente foi provado recentemente.

Enumerar os problemas no transporte brasileiro não demanda muito esforço. Uma rede rodoviária em constante deterioração e malhas ferroviária e hidroviária inexpressivas, que sobrecarregaram o sistema aéreo. A popularização do transporte de passageiros, que não foi acompanhada no mesmo ritmo pela infra-estrutura do setor. Um ministro da Defesa que não mostrou a que veio, agindo com fraqueza em momentos críticos, e que continua no poder. Uma Aeronáutica perdida, que procurava a quem culpar pelos próprios erros.

São muitos os agravantes, e poucos os atenuantes. A situação é emergencial: são necessários uma ação mais efetiva e rápida do Estado, uma fiscalização mais rígida, e investimentos a curto, médio e longo prazo no setor, tanto em recursos humanos como em equipamentos. Ou então sempre restará aos clientes (que, não custa lembrar, são contribuintes em sua maioria) somente aguardar a resolução de tantos impasses, sem muito o que fazer além de protestar. E os prognósticos não são bons, é provável que esperem por muito mais. Apertem os cintos, meus caros, o governo sumiu.

5 décembre

Picadeiro

Seria um palhaço triste se isso não fosse um tremendo clichê. Era, portanto, um palhaço angustiado. Sim, pois ele não sabia o que esperar das pessoas. Não sabia o que elas queriam, não sabia como agir. Ou como fazê-las rir.
 
Era um palhaço amargurado. Sim, amargurado, pois tudo que sempre soubera fazer fora provocar o riso, e agora estava diante de uma situação que não lhe permitia gracejos. Ou permitia, mas o resultado definitivamente não era a gargalhada que tanto lhe dava prazer. Devotara sua vida a fazer rir, e tudo que conseguia agora era a indiferença,quando não ódio e mágoa.
 
Era um palhaço fracassado. Aprendera a nunca hesitar, e acabou hesitando. Sim, tremeu quando não podia, e agora tinha de prosseguir, sendo engraçado ou não. Ele torcia por uma torrente de impropérios, tomates e outras verduras, como em desenhos. Mas não era ela que vinha, e sim uma chuva das mais salgadas lágrimas. E viria também ranger de dentes, se não fosse outro tremendo clichê.
 
Era um palhaço rancoroso. Sim, rancoroso, pois aprendera a nunca guardar a mágoa e a raiva, mas não conseguira se policiar e agora chorava em seu canto. Chorava com olhos doloridos de tão pressionar as pálpebras para cerrá-los e segurar as gotículas que insistiam em cair. Seu coração se preenchera com todo o ódio que um coração de palhaço pode aguentar. E então começou a expulsar-lhe a alma de palhaço, seu humor, sua alegria. Tudo que o palhaço via agora era a dor, a raiva, a tristeza e a ira.
 
Mas palhaços não choram. Eles enxugam seus sentimentos, que borram o lenço como a tinta que usam no rosto. E voltam pro picadeiro, afinal, o show tem de continuar. Palhaços vivem de clichês.
3 décembre

In natura

Ultimamente ando falando muito de pessoas. Pessoas e seus sentimentos, pessoas e seus preconceitos, pessoas e seus lirismos. Chega, cansei disso. Vou falar de animais agora.

Que são famosos por agirem institivamente. Uma cobra ataca quando se sente ameaçada e quando precisa alimentar-se. Ela não ataca porque acha o filhote da outra mais bonito, ou porque está às vésperas de seu período menstrual. Mesmo porque cobras não menstruam. Elas não são movidas a fazerem ações por motivos fúteis e tolos, resultantes de longos períodos de pensamento e reflexão. Elas só agem objetivando a sobrevivência, sua ou de algo que lhes é importante, como seus filhotes. Não questionam a necessidade de atacar um predador, por maior e mais forte que este pareça ao se aproximar. Não fogem praguejando, jurando vingança e procurando a autoridade mais próxima a quem recorrer. Estufam o peito (cobras têm peito?) e encaram o perigo.

Um lobo não finge não querer a comida quando sente fome. Ele não está preocupado em perder peso para parecer mais atraente às fêmeas da alcatéia, e sim em ter forças para caçar algo que sirva de presente na hora da paquera. Aliás, nem sei se lobos paqueram. Acredito que sim, considerando que têm de presentear a fêmea, e isso parece muito com a versão de paquera que os humanos conhecem. O fato é que lobos comem quando podem, pois nunca sabem quando terá uma próxima chance. Ou se haverá outra. Eles simplesmente aproveitam a oportunidade que lhes aparece, sem pensar muito. Lobos vivem em pleno e completo "carpe diem".

Uma preguiça passa horas e mais horas no mesmo lugar. O único trabalho a que se dá é o de eventualmente girar um pescoço (com uma incrível inclinação, diga-se de passagem) em busca de perigo. Só se movem em caso de extrema necessidade, como alimentação e reprodução. Têm garras poderosíssimas, gigantescas e afiadas, que poderiam fatiar facilmente presas menores e mais fracas. Mas não o fazem, são herbívoras, ou seja, usam verdadeiras lâminas que possuem nos dedos para cortar alface. E não me lembro de já ter visto uma preguiça utilizar suas habilidades inatas de combate para derrubar uma concorrente de um galho mais alto, ou para atacar um bicho diferente e inofensivo que apareça por perto.

Temos muito orgulho de nossa consciência. De pensar, refletir, analisar uma situação e tomar decisões. Chamamos alguém que age de forma mais impetuosa ou intepestiva de "animal irracional". Um pleonasmo, diga-se de passagem. Animais são naturalmente irracionais, e talvez seja isso que lhes mantenha vivos em um mundo como o nosso. Com humanos pensando por si mesmos e pelos demais. Usando sua notória inteligência para analisar como podem chegar ao seu objetivo, de que forma podem suplantar algum empecilho (quem sabe outro humano) que porventura apareça. Nós atacamos sem motivos, fugimos quando sentimos medo, escondemos nossos sentimentos atrás de sensações e desejos fúteis. E esperamos que alguém resolva os nossos problemas, enquanto estamos protegidos e seguros, atacando com pedrinhas pela janela.

Quero perder minha conscîência... 

1 décembre

Em defesa de Gersão

Gostaria de fazer uma pequena parada em minha produção rotineira (não tão rotineira ultimamente) para fazer uma pequena e singela homenagem a um homem importantíssimo para a cultura brasileira. Trata-se do ex-meia armador da Seleção Brasileira de Futebol, Gérson. Um dos maiores craques mundiais da história desse esporte, Gérson acabou ficando ainda mais famoso nos anos 70 do que apenas por seu talento no esporte. Ao protagonizar uma propaganda dos cigarros Vila Rica, que seriam melhores e mais baratos do que os concorrentes, Gérson fez uma pergunta crucial. Afinal, "Você também gosta de levar vantagem em tudo, certo?". Estava criada a Lei de Gérson. Considerada um reflexo da mentalidade do brasileiro, a dita cuja se refere à eterna tentativa do brasileiro, pelos mais diferentes modos, de se dar bem em tudo, mesmo (e dizem que principalmente) que seja às custas de outrem.
 
A Lei de Gérson já foi tema de diversos estudos acadêmicos desde então, que vão de antropologia social a análise de comportamento das massas. Discordo veementemente, no entanto, que este seja um mal exclusivo dessas terras tupiniquins. Quer dizer que os japoneses não saqueiam caminhões tombados em esquinas movimentadas? Os americanos sempre devolvem uma carteira achada na rua com todo o dinheiro? Alemães não desejam a mulher do próximo? Acreditar que a vontade de levar vantagem seja uma marca registrada de brasileiros é só mais uma manifestação de auto-preconceito, nas quais somos pródigos. Temos a péssima mania de nos subestimarmos, de nos considerarmos inferiores a outros povos e etnias, e a Lei de Gérson é só mais um exemplo disso.
 
Vivemos em um contexto social de grandes mazelas. Um sistema econômico baseado na desigualdade, no qual é natural que a busca pela oportunidade de sucesso seja agarrada com todas as forças. É o "cada um por si, e Deus contra todos" do Titãs. Não se pode esperar que as pessoas tenham sempre bom senso e pensem no todo antes de olhar para os lados e pegar rapidamente a maçã exposta na banca. Então por que transformar esse raciocínio natural ao ser humano em exclusividade brasileira? Como muitas generalizações, a Lei de Gérson é só mais um erro. Talvez devesse atender a outra generalização tipicamente nacional, a de que leis, no Brasil, não pegam. Talvez fosse mais justo com o nosso craque dos anos 70.