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29 décembre

Por una Cabeza

 
E é isso. Acabou. Simples assim. Ou talvez não tão simples, mas dane-se. Acabou. "Que me voy a hacer?", me pergunta Gardel. E eu respondo "Y yo que sé, mi hijo?". Porque se tem alguém que ficou perdido nisso tudo fui eu. Totalmente. Mais do que cego em tiroteio, mais do que filho de mãe solteira em dia dos pais, mais do que... escritor amador frustrado sem substitutos para frases feitas.
 
Doeu? Doeu. Muito? Demais da conta (ou Vixe!,como diria um baiano). Vai doer mais? Vai. Vai passar? Nem idéia. Espero que passe, não posso ficar eternamente com isso na cabeça, ainda mais sabendo que só eu estou preocupado com isso. Tem lógica? Deve ter, mas eu pensei que essas coisas fossem exatamente o contrário de lógicas. Me enganei, pelo jeito. Nada com que eu não esteja acostumado.
 
O curioso é pensar que eu já imaginava. E logo vão dizer "ah, então você ficou com pensamento negativo o tempo inteiro!". E eu não terei nem como discordar de um argumento tão frágil, porque ainda estará doendo e eu só concordarei balançando a cabeça e falando "Quem sabe se eu tivesse acreditado com mais força...". E farei alguma piada, porque meu mecanismo de defesa padrão é o humor. E logo parecerei o mesmo de sempre, mas sabendo que não estou nem perto do que eu era. E vai continuar doendo, mas pelo menos um sorriso estará estampado na cara e ninguém me perguntará se quero um Sonrisal.
 
"Mas era amor?". E eu respondo "Faz diferença agora?". Se era ou não amor tanto faz, não existe amor solitário que sobreviva. É claro que Platão discordaria de mim com um discurso de beleza ímpar, mas para minha sorte o pederasta safado já foi para as terras de Hades há um bom tempo. E eu repito: faz mesmo diferença se era ou não amor? E se fosse? Continuará sendo? Doerá mais? Cupido olhará por mim com carinho especial e dirá "Aguenta aí, compadre, que resolvo isso em dois tempos"? Não sei se era amor ou não, mas deve ser. Pelo tanto que dói, só pode.
 
E o melhor é quando eu tento racionalizar, o que é a resposta óbvia a toda essa situação: como eu acabei de viajar pelos encantos oníricos do emocional e despenquei no abismo da desesperança repentina, agora é hora de parar e pensaro em tudo que aconteceu de forma lógica e coerente. E no que estar por vir. E é aí que eu me arrebento de verdade, porque uma parte de mim quer seguir em frente, reconhecendo que não tem mais jeito, mas a outra insiste em divagar pelo paraíso perdido. E a dor, que antes partia só o coração (metafórico, por favor), revira o estômago e corre a espinha até chegar no cérebro, colocando os hemisférios em choque. E tudo se transforma em uma dor que analgésico nenhum alivia, e que só piora quando Gardel repete, tão perdido quanto eu: "Que me voy a hacer?".  
22 décembre

02:32 AM

 
- Hum.
- Que foi?
- Nada.
- Claro que é alguma coisa. Você não pára quieto um minuto nessa maldita cama. O que foi?
- Nada não.
- Fala logo. Odeio consciência tímida.
- Nada. É que não estou me sentindo muito bem.
- Como assim?
- Não sei. Alguma coisa... mexendo lá dentro.
- Lá dentro onde? Estômago? Intestino? Te falei pra tomar um vermífugo.
- Não é isso. Odeio essa sua literalidade.
- Então o que é?
- Não sei. Não é algo como uma doença. É mais como, sei lá, um sentimento.
- Ih, lá vamos nós.
- É sério.
- Você sempre tem essas crises noturnas. Por que você não bebe e esquece isso?
- Você sabe que não funciona assim.
- Claro que funciona. Bebe, esquece, dorme. E se você disse que "tá mexendo lá dentro" não pode ser coisa boa.
- Claro que pode! Saudade, por exemplo.
- De quem?
- Sei lá. Minha família, amigos que moram longe.
- Não caio nessa. Te conheço há muito tempo, sua saudade não dura cinco minutos.
- O que é então, sabichão?
- Sei lá. Do jeito que você é mané, só pode ser algo do tipo "amor" ou "carinho". Tem certeza de que não é só fome ou sede? Ou quem sabe vontade de ir ao banheiro...
- Não. Mas gostei da idéia de ser amor.
- Não falei amor, falei "amor". E não pode ser isso. Nós sabemos como são as coisas.
- É, eu sei. Mas eu mudei ultimamente, sabia?
- Mudou, é? O que? Tomou jeito e resolveu fazer dieta? Ou quem sabe deixou de ser tão workaholic e passou a se divertir um pouco mais?
- Ok, talvez eu não tenha mudado nisso. Mas por que eu não posso estar amando?
- Não é do seu feitio, só isso.
- Como assim?
- Sei lá, você sempre foi do tipo solitário egoísta e egocêntrico. Não acredito que consiga realmente pensar mais em outra pessoa do que em você mesmo.
- Para alguém que não sabe, você sabe bastante, não?
- Olha, não queria te chatear. É só que você é assim.
- Ok, eu concordo. Sou assim mesmo, e daí? Eu posso ter mudado, estar amando. E se eu estiver? Você, mais que ninguém, sabe que eu sempre quis isso.
- Sempre quis, nunca conseguiu. Convenhamos, você é um fracasso nisso.
- Eu sou, mas estou tentando melhorar. Você não pode simplesmente respeitar isso?
- Posso, mas não de madrugada. Amanhã a gente conversa sobre isso, pode ser?
- Tudo bem. Vou tentar dormir. Mas tenho quase certeza de que é amor. VOcê a viu, ela é tão...
- Tem certeza que não é fome?
17 décembre

Aconteceu

 
Aconteceu quando eu não esperava. Assim mesmo, sem sininhos tocando ou uma música romântica de fundo. Aos poucos, de mansinho, e foi tomando uma proporção maior do que se podia imaginar. Foi entrando sem pedir licença na fortaleza de pedra do peito, e redecorando tudo com flores. Pendurou quadros, colocou novas músicas para tocar e encheu tudo com um perfume diferente. E tudo simplemente acontecia assim, e eu não me importava em saber o porquê.
 
Aconteceu quando eu não acreditava. E me convenceu silenciosamente de que aquilo era verdade, que era mais que uma ilusão, dessas que acometem solitários no final do ano. Muda, mexeu daqui e dali e transformou a carranca contante em um sorriso besta, de "bobo alegre". E deixou o dono da fortaleza cheio de dúvidas e temores, sem saber o que falar. Mas daquela dúvidas boas, que a gente gosta de passar horas pensando, e refletindo, e divagando. E tudo simplesmente acontecia assim, e eu não me importava em saber o porquê.
 
Aconteceu quando eu começava a sonhar. E eu via um futuro diferente, menos cinza. Mas até o cinza era bom, quando vinha nas nuvens de chuva no céu, que limpavam a alma e traziam as boas recordações. E tudo adquiria um significado diferente, um novo conceito, um novo valor. O sorriso da criança que antes incomodava agora criava um novo sorriso, e tudo que incomodava era o braço solitário. E o tempo, antes companheiro, era agora o novo inimigo, separando como nunca as semanas. E tudo simplemente acontecia assim, e eu não me importava em saber o porquê.
 
Aconteceu quando eu não esperava mais. A música de fundo, que acompanhara as flores na nova decoração da fortaleza, foi sumindo aos poucos no mesmo silêncio de outrora. A carranca constante voltou, enquanto as flores murchavam. E o perfume foi sumindo, se dispersando com o vento frio que chegava. O céu voltou a ser cinza, mas a chuva não significava mais nada. Era só a velha chuva de sempre, molhando a alma e levando, a cada palavra, um pouquinho mais daquela felicidade que durara demais. E foi quando tudo que importava era saber o porquê, mas era tarde. Simplesmente aconteceu.    
4 décembre

Sobre favos e favas

 
Não, eu não sei fazer poesia. Nem gosto na verdade. Então por que fazer? Nem idéia. Mas mandei às favas o resto de dignidade que eu mantinha e pus-me a pensar com o coração, o órgão que menos faz isso em todo o corpo. Foi de onde saiu isso aí embaixo. Não entendeu? Tanto faz. Entendeu? Ótimo. Quer dizer que pensamos em sintonia.
 
Favos
 
Não és ave, com penas, plumas e asas
Não bradas estridente ou ressoas
Não flutuas sobre águas rasas
Nem ocupas o teu tempo em lagoas
 
Não és tampouco criatura sob a terra
Que, com outras, trabalha incansável
E se estás sempre pronta para a guerra
Sabes quando deve ser e é amável
 
Pois tu és a operária da floresta
Que suave, vagueia pelo céu
E entre pétalas de flores gentil canta
 
Sim, és tu que me provoca, testa e testa
E tão louca em meus lábios deixa o mel
Que me atrai, me seduz e me encanta