Profil de MarceloAlface, o BrevePhotosBlogListesPlus ![]() | Aide |
|
27 février In My Time of DyingDizem que o homem escreve para tornar-se imortal. Que, mesmo com o fim da sua efêmera vida, o artista fica em sua obra. Concordo com isso. Luis de Camões (não sei se é essa a grafia) morreu na mendincância. Tudo bem que tenha optado pelo rumo errado da literatura (a poesia), mas ainda assim era um grande escritor. Quando morreu, não foi ninguém. Depois, virou Camões! O mendigo lusitano de um olho só acabou virando o pesadelo de estudantes do Ensino Médio por todo o Brasil. O que além da literatura daria ao pobre coitado essa possibilidade?
O fato é que permito-me um pequeno roubo intelectual. Recentemente li um texto de temática muito interessante, em que o autor quis prever seu enterro, dando opiniões e dicas sobre o assunto. Permito-me fazer o mesmo. A morte, por mais assustadora que pareça a todos nós, é uma realidade que deve ser encarada. Agora ou mais tarde, não importa. Mas certamente estando preparados, o choque será menor. Não para o morto, para quem aliás se o choque fosse grande não faria diferença alguma. Mas para amigos, parentes, colegas, todas as pessoas a quem o dito cujo possa ter sido importante em algum momento. Considerando-me relativamente bem fornido nesse aspecto, dou início a meu testamento.
Antes de mais nada, não quero discursos. Pessoas dizendo como eu era engraçado, legal, ou coisa parecida. Sou mesquinho, fútil, materialista, crítico ao extremo e sarcástico. Se alguém se dispuser a falar isso na frente de todos, peço que acrescente os demais defeitos que esqueci. Não quero uma imagem falsa de mim na cabeça de quem só estiver por lá acompanhando alguém. E quero que alguém ande entre os presentes fazendo piadinhas sem a menor graça, mas que de tão infames acabam provocando o riso. E que as pessoas gargalhem até lembrarem-se de mim, e comecem aos poucos a parar de rir, e ficar num misto de choro e riso, e que se lembrem de como eu próprio riria delas em uma situação ridícula como essa.
Quero também que cobrem entrada. Já terei dado trabalho demais para muita gente em vida, e provavelmente morrerei tendo gasto tudo que tiver obtido, ou doado em meus delírios caducos. Portanto, nada mais natural que minha morte sirva para alguma coisa. Não um preço muito caro, para que as figuras que eu conheça que não tiverem onde cair mortas possam rir uma última vez da minha cara, mas não muito barato para que meus possíveis amigos ricos não se sintam em um evento de pobre. E já deixo a ameaça: se pouca gente aparecer, eu voltarei à noite com um alicate para arrancar as unhas dos pés de cada um que pensei que estaria presente.
Quero que toquem músicas enérgicas e alegres. Country, sertanejo romântico, forró universitário, arrocha se possível! Funk e axé eu dispenso, mas se em algum momento quiserem tocar para as pessoas não irem embora muito cedo eu aguento. Não quero som baixo, não adianta mesmo o vizinho querer reclamar comigo no dia seguinte. Que todos em volta ouçam, se irritem, e falem "Mas que inferno essa música dessa altura! Por que esse cara não morre?" E quero as pessoas dançando, brincando, sacaneando umas com as outras e rindo quando lembrarem como eu enganava que sabia dançar.
Quero muita comida. Eu preferiria que fossem as minhas preferidas, mas como meu gosto culinário é tão eclético ou até mais do que minhas opções musicais, tendo muita comida eu ficaria satisfeito. Só um pedido especial: pamonhas. Seria a reunião perfeita das minhas origens com minha única grande preferência culinária: comidas com muita gordura (provavelmente o motivo da festa). E bebidas, quero das mais diversas! Tenho amigos que bebem de tudo e tenho amigos que só bebem destilados a dois graus negativos, com três gotinhas de limão e meia pitada de açúcar. Como quero todo mundo até o fim, mas sem fazer bobagem, que a quantidade seja suficiente para satisfazer os gostos preliminares, mas não o bastante para que indo embora para casa alguém resolva me acompanhar.
Particularmente preferia que as pessoas fossem fantasiadas, melhor ainda se fossem de super-heróis. Mas como sei que se disserem para irem fantasiados metade não vai e metade vai de preto, deixo que estejam vestindo-se como quiserem, desde que com roupas multicoloridas. Mas eu quero estar vestido apropriadamente: com um belo terno verde, cheio de interrogações, e uma gravata roxa. Meu personagem de quadrinhos preferido merece a homenagem. Não que um morto como eu estar vestindo sua fantasia seja uma homenagem, mas, ah, dane-se! Quero estar de Charada e pronto. São meus últimos desejos ou não? E quero uma iluminação especial, com decoração verde e roxa, que dê uma animada nesse ambiente meio mórbido.
Caso alguém realmente insista em desrespeitar meu primeiro desejo e resolva falar, quero que leia esse texto. Mas sem voz embargada e pausinhas para choramingos. Mas que, se ao final alguém quiser chorar copiosamente que chore, e se desespere, e grite se sentir vontade, enquanto ensopa a manga da camisa da pessoa ao lado. Mas por no máximo um minuto, que seria o tempo que eu aguentaria assistindo uma cena tão patética quanto essa. E que depois disso as pessoas se encaminhem para suas casas e sigam suas vidas. E que se esqueçam desse dia até ouvirem uma piada que de tão infame acaba sendo engraçada. 22 février Novelas- Você me ama?
- Amo.
- Ama mesmo?
- Amo.
- Não estou sentindo muita confiança na sua voz.
- Que saco, mulher! Já disse que amo!
- Aí, viu? Sempre que eu pergunto isso você se estressa.
- Mas é claro! Você pergunta isso quinze vezes por minuto.
- Esse seu exagero...
- Que exagero? Pare e conte para você ver. Eu já fiz isso uma vez, foram vinte e duas vezes em uma hora.
- Então, não dá quinze vezes por minuto isso...
- Ai meu Deus, é claro que é só uma hipérbole.
- Ih, lá vem você falar difícil...
- Não é falar difícil. Só você não entende meu jeito de falar.
- Claro que não. No começo você era todo carinhoso, romântico. Agora é só "que saco", "quinze vezes por minuto", hipérbole"...
- Hipérbole é uma figura de linguagem...
- Não quero saber o que é. Foram quatro anos de namoro e você sempre foi atencioso, apaixonado. Agora a gente completa três anos de casamento e você não diz que me ama espontaneamente há... há... eu nem lembro mais quando foi a última vez!
- Foi no seu aniversário, eu acho.
- Não, foi no nosso aniversário de casamento, e só porque você estava bêbado. Tem seis meses. Seis meses! E você não tinha a menor idéia! Chutou uma data qualquer!
- Ah, pelo menos eu lembrei do nosso aniversário de casamento.
- Não, não lembrou. Fez de conta que lembrava quando chegou em casa e eu tinha preparado um jantar especial e estava só de camisola!
- Humm... Verdade. Você ainda tem aquela camisola?
- Pelo amor de Deus, eu estou aqui reclamando da sua falta de atenção por mim e você pensando naquela camisola!
- O que você queria? Eu trabalho o dia inteiro, pego um trânsito infernal para vir para casa. Aí chego e tudo que quero é tomar uma cervejinha e ver meu futebol. E você vem querendo falar da novela? Isso me estressa!
- Estresse? Não venha me falar de estresse. Você acha que é fácil cuidar dessa casa? Aguentar a vizinha de cima ouvindo Calypso? O idiota do 103 está reformando o apartamento há três meses! Três meses! É furadeira, martelada, eu não aguento mais!
- E você acha que eu faço o que no trabalho? Jogo biriba? Meu chefe me odeia, e me marca para fazer relatórios. Ontem ele pediu um material sobre a viabilidade de um esquema de exportação de ósmio para a Nova Zelândia. Você tem alguma idéia do que seja isso? Ou pelo menos o que seja ósmio?
- Não adianta querer mudar de assunto. O fato é que você simplesmente não se declara mais para mim! É só trabalho, trabalho, trabalho, e futebol com os amigos, e futebol na televisão, e trabalho. E eu? E EU?
- Calma, querida, calma você sabe que não é assim.
- É assim sim! Por isso que eu fico insegura, desconfiando de você.
- Calma, calma, calma. Ei, pára de chorar. Olha pra mim. Eu te amo!
- Ama mesmo? 14 février EsquizofreniaQuando abriu os olhos, teve a absoluta certeza de que aquele seria o dia mais estranho de sua vida.
Fechou os olhos, depois abriu, fechou de novo. Fora dormir tarde demais para acordar muito cedo, então a preguiça estava praticamente invencível. O tempo estava frio, uma garoa suave batia contra a janela, fazendo o típico barulho sonífero. Moveu-se um pouco na cama, até encostar na parede gelada. Foi o suficiente para afastar o sono. Rolou rapidamente para o outro lado, e quase caiu. Procurou os chinelos com os pés, mas tudo que encontrou foi algo viscoso. Viscoso e frio. Puxou rápido as pernas, assustado. O que poderia ser aquilo? Espreitou a cabeça lentamente pelo colchão, até chegar ao canto e tomar coragem para olhar. Deixou escapar um "Ufa", de alívio. Era só sangue...
- Espera, pára, pára tudo... Como assim só sangue?
- É, ué, era só sangue!
- Não, está errado isso. Você acorda, depois de uma noite aparentemente normal, pisa em uma poça de sangue e fica aliviado?
- É, uai. Podia ser alguma coisa, sei lá. Uma geléia alienígena, por exemplo.
- É, concordo que podia ser algo pior. Mas mesmo assim é sangue! Você sabe de quem é esse sangue?
- Não.
- Sabe como chegou aí?
- Nem idéia.
- Então por que o alívio?
- Sei lá, a história é sua!
- É, mas o alívio foi coisa sua! Eu ia dizer que você ficou apavorado!
- Como assim apavorado? Olha para mim, vê se eu tenho cara de homem que fica "apavorado"!
- Ok, como você ficou então?
- Humm... Curioso?
- Curioso não, você não é tão corajoso assim. Que tal espantado?
- Não, espantado é muito parecido com apavorado. E você já me deixou assustado ali atrás.
- Tudo bem, curioso então. Agora você fica curioso depois do alívio, mas lembre-se que isso não é uma democracia. Isso signfica que de agora em diante eu decido as coisas!
- Sim senhor.
Depois de sentir-se aliviado, ficou curioso. O que diabos fazia uma poça de sangue no seu quarto? Até o momento que dormira na noite anterior, não havia notado nada estranho, nenhum barulho, nada! Será que alguém entrara na casa? A idéia o apavorou, e ele escondeu-se imediatamente sob o edredon...
- Pára, pára. Minha vez de pedir tempo.
- Como assim tempo? Acha que isso aqui é o que? Um jogo de basquete? Eu estou tentando escrever uma história!
- É, mas lá veio você de novo com essa história de eu me apavorar. E porque diabos eu me esconderia sob o edredon?
- Porque você ficou com medo?
- Medo? Existe uma vaaaga possibilidade de ter alguém na casa, porque eu me esconderia sob o edredon? Se for um ladrão, por exemplo, não adianta eu me esconder sob meio metro de pano...
- Hum... É, você tem razão. Então você vai fazer o que?
- Sei lá, sair pela casa procurando algo que indique a origem do sangue?
- Não, menos, você não é tão corajoso assim.
- Como não?
- Não, oras. Eu te criei, eu te defino.
- Mas...
- não, não tem mas. E não enche que preciso acabar a história, está ficando longa demais, ninguém vai ler até o final.
Com a visão oculta pelo cobertor...
- Edredon.
- Que?
- Você falou que era edredon lá atrás. E agora disse que é cobertor.
- Não é a mesma coisa?
- Acho que não.
- Acha que não?
- É.
- Você me interrompe sem ter certeza que estou errado?
- Algo assim.
- Ah, chega, pra mim já deu. Você é muito chato, e eu odeio protagonistas chatos. Vou acabar com isso é agora!
- Não, espera aí...
Com a visão oculta pelo edredon, conseguiu ouvir os passos na sacada, e o som de um revólver sendo engatilhado. Fechou os olhos, e percebeu que aquele fora, certamente, o dia mais estranho de sua vida. 12 février Cri criBom, é isso, garotão. Ela já está na escada rolante. Não, não fica olhando, disfarça, ela ainda não viu você. Se ela perceber que você está encarando vai ficar com medo, sei lá. Vai pensar que você é tarado ou coisa parecida. Pronto, agora ela te viu. Acena, isso, de leve. Nada exagerado, você não está numa feira. Pronto, ela está vindo, garanhão. É uma gata, meus parabéns. Bem acima do seu nível padrão. Aliás, como foi mesmo que você a convenceu a topar o cineminha? Ok, deixa a história pra mais tarde, ela está chegando. Concentração, concentração. Olhos de tigre, olhos de tigre! Não, nos peitos não! Doente, ela percebeu. Era para olhar nos olhos, abrir um sorriso, sei lá, você é algum tarado pervertido? Então porque ficou olhando como se fosse um recém-nascido? Torce pro estrago não ter sido grande.
Tá, ela pelo menos é discreta e não fez escândalo. Só te cumprimentou. Fala alguma coisa inteligente, vai. Não, diabos, "oi" não é inteligente. É óbvio! O que vem agora? Um "tudo bem"? Isso, gênio. Você acaba de provar que é uma negação. Isso vai acabar mal, ouve o que estou dizendo. Agora tenta consertar, faz alguma coisa que preste. Não, não puxa a cadeira. Isso é da época da minha avó! Agora você pretende fazer o quê? Comprar flores, recitar um poema? Não me espanta ter falhado tantas vezes nessas coisas? Não, rapaz, não discute comigo não. Eu sou sua consciência, estou falando para só você ouvir. Conversa comigo e ela vai te achar maluco. Um tarado maluco.
Nossa, essa piadinha foi horrível. É, ela riu, mas foi por educação, você não tem senso dessas coisas? Melhor arrumar uma desculpa e irem logo para a fila do cinema. Se bem que você também não é muito bom no cinema... Não adianta reclamar, eu só falo a verdade. Queria que eu fosse o que, o grilo falante do Pinóquio, todo gentil e bonzinho? Minha função é te trazer para a realidade, mostrar essas mancadas em que você parece ser mestre. E eu te asseguro, o cinema é sua última chance. Olha que eu entendo dessas coisas. E não adianta jogar a culpa para a timidez não, ela tá aqui do meu lado chorando, dizendo que você sempre foi injusto, que ela já te salvou em inúmeras situações e você nunca pensou nisso. Tarado maluco ingrato.
Ok, ingressos comprados, nada de pipoca com manteiga para não dar mal hálito. Você está aprendendo, me dá até orgulho. Agora cuidado, você escolheu um bom filme, mas foi de um tema que ela gosta. Não vá tentar alguma coisa na hora errada, ou pode perder as esperanças. Aí, isso, agora. Passa o braço. Com cuidado, não, não esbarra na cabeça. Nossa, você é mesmo um mané. Tá, deu sorte, ela se aninhou no seu ombro. Espera, ela se aninhou no seu ombro. O que você é, cego? Aproveita, garoto. Isso! Agora se controla, não pareça exagerado. Não, pega leve. Ei, calma aí. É a sua consciência que está mandando. O que foi, deixou de me ouvir? Não faz isso, eu sumo se você me ignorar! Não, você não consegue sozinho. Foi só sorte, só sorte. Nãaaaao!
Maldito tarado maluco ingrato auto-suficiente. 9 février LexVocê já viu como age uma criança hiperativa? É incrível. Crianças já são naturalmente agitadas, elétricas. Uma criança com hiperatividade parece um personagem de desenhos animados ao levar um choque, se transformando em um conjunto de risquinhos quase invisíveis percorrendo toda a sala, subindo pelas paredes e derrubando coisas. Uma forma de acalmar garotos hiperativos é mantê-los brincando. Mantenha-os correndo, jogando bola, brincando de pique. Isso os cansará e, mesmo que eles não queiram, acabarão dando uma parada para respirar e descansar. Não durará muito, no entanto, e logo ele estará agitado e se divertindo novamente. Garotos hiperativos são normalmente alto-astral, animados, de bem com a vida. No carro, no entanto, essa não é uma solução possível. O menino se move, batuca no vidro, abre e fecha a janela, às vezes até canta para acalmar, inutuilmente. A impaciência normalmente atinge os pais ou os irmãos, que aliás são as principais vítimas dos sacolejos do garoto no banco de trás. A única solução acaba sendo o cinto de segurança...
Não, não dá para continuar impessoal, tentando disfarçar a indignação. A morte de João Hélio Fernandes, de 6 anos, no Rio de Janeiro, é brutal demais, explícita demais para escrever como se fosse só mais uma na onda de violência urbana do Rio. Um garoto inocente, envolvido num conflito que os sociólogos insistem em manter no campo teórico e frio da discussão sobre legislação criminal. Quem tem um irmão, um primo, um parente qualquer com 6, 7 anos, não pode nem deve esconder o medo de encarar uma situação como essas na própria família. Eu, particularmente, tenho um primo menor, um moleque brilhante, engraçado e agitado. Não sou muito afeito a chorar, muito menos vendo algo que ocorra com uma criança tão distante e desconhecida. Mas imaginar que aquele poderia ser meu primo deixa minha respiração difícil e voz embargada.
É triste dizer isso, mas uma das poucas coisas que me consola é saber que os responsáveis pelo crime provavelmente não terão muito tempo de vida na cadeia. Que, mesmo entre os criminosos, esse tipo de atitude não é perdoada. Digo que é triste, porque significa que deixei de acreditar no sistema legal do meu país. Não que ele tenha merecido muito crédito em algum momento da minha vida, mas deixar de acreditar no modelo penal é um dos primeiros elementos que leva pessoas a realizarem crimes como esse. Toda vez que absurdos bárbaros como esse ocorrem, sinto-me mais próximo dos monstros responsáveis, e isso me aterroriza e me enoja. Pois a única diferença existente entre nós torna-se a minha crença de que alguma justiça no fim será feita, nem que seja a do olho por olho, dente por dente. E que isso ainda será pouco. 7 février Cetim chinêsEra com certeza o leque mais bonito que Júlia já vira ao longo de seus 11 anos. Os desenhos, marcados em alto-relevo, davam um toque especial que, de alguma forma, intrigava e atraía a garota. Desde que o objeto chegara ao antiquário do seu pai ela passava por lá todos os dias, após a escola, e ficava só observando o frágil artefato na vitrine. Uma tarde perguntou ao pai de onde viera, e ele explicara que o comprara de um senhor oriental pouco tempo antes, e que este explicava ser o leque da época da dinastia Ming. Ele não acreditara no velho chinês, mas fora tão barato e o leque era tão bonito que ele acabou comprando e deixando ali, na vitrine. "Quem sabe alguém se interessa e compra?", e fez um cafuné na filha. "Além do mais, nunca vi alguém se sentir tão aliviado por vender algo para mim. Acho que fiz uma boa ação", gracejou o pai.
No cetim, um jardim florido com borboletas rodopiantes recebia um grupo de alegres meninas, das mais variadas raças, que dançava em roda. Nas sutis expressões de seus rostos, sorrisos de alegria infinita, enquanto uma brisa suave movimentava as folhas das árvores em volta e beija-flores flutuavam por entre pétalas ao vento. Júlia, olhava aquilo, impressionada, e olhava por sua janela, soltando um suspiro de desânimo e desilusão. Sua janela dava para o outro bloco de seu prédio, e nada mais. Com sorte ela conseguia ver as crianças brincando, no playground ou na quadra do condomínio, mas nenhuma delas com o sorriso das garotas do leque. Tinham um sorriso triste, como se estivessem apenas conformadas com o que podiam ter. Mas Júlia queria mais, queria sair daquilo ali, daquele quartinho escuro, fechado e cada vez mais sufocante.
Naquela noite, Júlia sonhou com as garotas do leque. Sonhou que dançava com elas, rindo e se divertindo. Uma borboleta multicolorida pousava em seu nariz, fazendo cócegas, e o barulho de um riacho ali perto lhe dava uma sensação plena de conforto e relaxamento. Era aquilo que ela queria, aquilo que ela buscava, fugindo do cubículo em que ficara por 11 anos. Segurou com força as mãos de suas novas amigas, e começou a dançar com mais velocidade, e mais, e mais... Quando seu pai procurou-a na manhã seguinte, para ir para a escola, encontrou apenas o leque multicolorido sobre a cama, onde lindas meninas rodopiavam em meio a um jardim florido. 5 février Band-aidQuem nunca teve um dia com cara de topada no dedo mínimo do pé? Daquelas feias, que pega exatamente no cantinho do pé da cama, e você urra de dor tão alto que o vizinho vem bater na porta para saber o que houve? Sem contar nas vezes que, ato reflexo, o joelho vai com tudo um pouco acima, e fica um hematoma do tamanho de uma bola de golfe na rótula. Aí o primeiro idiota que vê faz cara de dor (como se fosse nele e não em você) e faz a pergunta óbvia - "Nossa, isso doeu muito?".
A maior parte dos meus dias-topada é feita de perguntas óbvias. Eu acordo cedo, algumas horas antes do que eu certamente gostaria, e está garoando. Aquele clima de friozinho, confortabilíssimo e tentador, e eu acordo para mais um dia "legal" de trabalho. Me arrasto até o banho, do qual saio razoavelmente revigorado. Mas ainda estou muito lento, demoro a me arrumar e acabo vendo o ônibus chegar ao ponto antes do que eu esperava. Sei que não dá mais para alcançar, mas corro assim mesmo, abanando freneticamente o braço. É inútil, o motorista solta um sorrisinho sádico pelo retrovisor e me deixa na fumaça. Aí uma senhora, gentil e solidária alma, pergunta: "Você ia pegar aquele ônibus?". Tenho vontade de responder que não, que só queria perguntar ao motorista se ele não sabia a que horas começa o desenho do Bob Esponja, mas ainda é cedo e vou precisar de mais sarcasmo pelo resto do dia.
Alguém poderoso (Murphy talvez) resolve me sacanear, e basta eu descer do próximo ônibus (já bastante atrasado) para o céu nublado que apenas garoava desabar em impropérios sobre minha cabeça. Aproveito que teria de correr para chegar um pouco menos fora do horário e fujo da chuva por tabela. Mas é muita água para muito espaço, e eu chego à redação como se tivesse pulado em uma piscina completamente vestido. Aí algum colega de raciocínio perspicaz e visão aguçada comenta - "Ué, tá chovendo lá fora?". Não, meu caro, não está. Foi só uma turba ensandecida pela inveja da minha bela camisa do Quarteto Fantástico que resolveu cuspir sobre mim em uníssono. Mas eu só penso isso, só imagino, pois sou um estagiário e tenho de aguentar calado essas coisas. Por enquanto, por enquanto.
O dia caminha a vagarosos passos, morno (para mim está gelado, tenho certeza de que pegarei uma gripe). Trabalhar em uma redação de jornal pode ser terrivelmente solitário, apesar da quantidade de pessoas, telefones e gritos simultâneos ao redor. Começo a me sentir o homem-invisível. Mas sei que vou tornar-me presente tão logo alguém tenha uma tarefa ingrata, chata ou ruim. Regra de ouro. Aliás, não demora muito. Estou no meio desse texto e me mandam para algum canto obscuro da cidade, onde chego meia hora depois. Operação padrão: equipe para gravar imagens do dito cujo, perguntinhas rotineiras, a figura adorando aparecer. Mas na portaria alguém precisa testar minha paciência. O rapazinho, com cara de estagiário confuso, pergunta para mim, olhando para toda a equipe. "É imprensa?". Eu olho para trás, o cinegrafista segurando uma câmera de dez quilos nos ombros e um tripé, o assistente carregando outros equipamentos e eu, com crachá e microfone na mão, e me seguro. "NÃO! É PEGADINHA DO MALANDRO! HA HA HA! SA SA FRU FRU!".
Mas meu dia não terminou ainda. Não, meus caros, ainda não. Pois a noite chega, depois de trabalhar muito e descansar pouco. E, com o tempo, a fome. Eu me dirijo, sem um tostão furado, à pastelaria próxima à minha casa, onde vejo, com razoável felicidade, o cartazinho que informa a possibilidade de usar o cartão de crédito! Mas sou precavido, e não custa perguntar. A atendente confirma que posso pagar, eu faço meu pedido e resolvo já deixar pago para levar a comida. Saco de meu dinheiro eletrônico e seguro na frente da garota, que pergunta com ar dócil: "Vai pagar no cartão?". Chega, é demais para mim. "Não, querida, não sei se você notou, mas isso é um assalto. Me dá meus pastéis de graça ou eu corto sua orelha fora com meu cartão-navalha! Rá!" Ela olha, sem entender, e eu tiro o meu sorriso de dever cumprido para falar. "É, é no cartão".
O incauto leitor poderá dizer que sou exagerado, que as pessoas só querem ser gentis ou estão fazendo sua obrigação. Tudo bem, não discordo. Mas elas não podiam fazer isso sem apelar para perguntas que, de tão óbvias, chegam a irritar, incomodar. E se eu estivesse com pressa? Ou atrasado para o meu casamento, e só quisesse comer um pastel rápido? Outros dizem que não passo de um jovem com alma de velho, ranzinza e resmungão. Sou obrigado a concordar, sou como o Saraiva (personagem do inesquecível comediante Francisco Milani) para essas coisas. Tolerância zero. Mas quem não é com uma topada do dedo mindinho no canto do pé da cama? |
|
|