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16 mars

De olhos bem abertos

Leônidas entrou para a história pelos seus feitos na batalha das Termópilas. William Wallace criou soldados capazes de fazer frente ao poderoso exército inglês em meio a fazendeiros plantadores de batatas. Michael Collins lutou pela liberdade contra a gigantesca capacidade opressora britânica. Asterix conseguiu proteger seu vilarejo de aldeões contra inúmeras investidas da escravista Roma. E eu, em minha eterna luta contra o terrível e devastador sono. Todos verdadeiros heróis de nossa história, exemplos que deveriam ser seguidos.
 
Pensando bem, talvez Asterix não devesse figurar nessa lista. Não que ele não seja um herói, mas felizmente não trata-se de um mártir. Morrer por uma causa nobre pode te dar um nome na página 39 do livro de história da quarta série, mas ainda é morrer. E como sei que mesmo vencendo minha guerra própria contra o sono não vou ficar famoso, prefiro não seguir o caminho mais fácil, e suicidar. Mesmo porque seria muito, muito ridículo um suicídio que eu dissesse motivado por dormir pouco.
 
Posso parecer exagerado, mas quem dorme como um anjo dopado em brancas nuvens durante oito horas não imagina como as parcas quatro horas que passo rolando na cama são um inferno. Ou como é difícil abrir os olhos e descobrir que não passou quinze minutos desde que me deitei. Ou o sofrimento que é demorar uma hora para dormir, para ter de acordar três horas depois. Sem contar as eventuais idas ao banheiro. Mas o pior disso tudo é exatamente a solidão. Experimente acordar algum amigo às quatro da manhã para dizer que está sem sono e querendo conversar. Talvez por isso eu mereça figurar entre essa galera aí de cima. Afinal, Leônidas tinhas trezentos soldados de elite para dar uma ajuda, e tanto Wallace quanto Collins estavam organizando um exército. Minha luta é solitária, na escura e fria noite. Heróis solitários deveriam estar acima de mártires de grupo.
 
Não é exatamente involuntária minha insônia. Começou com um hábito necessário, depois tornou-se um hábito desnecessário, e agora um doloroso incômodo. E com isso acabei adquirindo outro hábito perigoso durante as férias - o de dormir durante a tarde. Voltei ao trabalho, e agora preciso de doses maciças de café para permanecer morcegando. Perigo, perigo. E o problema nem é tanto a ausência de sono, afinal, e sim o idiota insistir em aparecer na hora errada. É como se Leônidas tivesse parado para ir ao banheiro e encontrado Xerxes já nas Termópilas.
 
Mas o fato é que não vejo uma solução possível. Não quero ter de recorrer a remédios, porque acho inacreditável que tenha de me entupir de alguma substância química para fazer algo que meu corpo deveria realizar naturalmente. Não sei se tentar dormir à força funcionaria - de certo modo, é o que eu já faço. Mas não sei se ando agindo corretamente aproveitando a pouca quantidade de sono à noite para ficar na Internet e assistindo televisão. Provavelmente isso influencia, porque enquanto tento dormir as imagens do meu dia, inclusive as televisivas, ficam passando em minha mente. Nauseante. Será que uma canção de ninar ajudaria?
 
Dormir bem estava entre as minhas resoluções de ano novo. Prometi, todo bonitinho vestido de branco (mentira, passei o Ano Novo com minha indefectível camisa do Quarteto Fantástico), que com a chegada de 2007 eu seria uma pessoa melhor, menos egoísta, ambiciosa, avarenta e insone. Já chegamos em março e, dessas intenções aí, nem sinal. Sou muito preguiçoso, talvez tornar-me mais ativo também fosse uma boa resolução de fim de ano. Ou pelo menos mais próxima da realidade, já que a insônia anda parecendo mais difícil que os cem mil persas de Xerxes.
14 mars

O lago

 
Era uma vez uma floresta muito, muito distante. Tinha árvores frondosas e verdes, com borboletas multicoloridas flutuando. Nas noites frias de inverno os animais faziam pequenas fogueiras para se esquentar e contar histórias. Muitos gargalhavam com as piadas dos macacos, e outros se impressionavam com as aventuras relatadas pelos leões. Mas o silêncio pairava absoluto quando a tartaruga pedia a palavra. Ela era a criatura mais velha e mais sábia da região (diziam os tucanos que na verdade seria a mais velha de todo o mundo), e aparentava ter todo o conhecimento do mundo. Ela coçava a garganta, chamando a atenção dos poucos que não haviam se calado, e começava a lentamente apresentar seus contos fantásticos.
 
Naquela noite, em especial, ela ficara o tempo todo calada, observando o céu nebuloso. Algum tempo depois, no entanto, ela revelou que o que se preparava para contar nunca havia sido dito a nenhum outro animal. Era um segredo que merecia ser lembrado por todos, que deixasse sua característica de exclusividade e se tornasse completamente público, mas não por mera curiosidade: era sim um alerta. Ela perguntou aos filhotes se já haviam ouvido falar do lago da clareira. Os pequenos, de olhinhos arregalados, apenas acenaram com a cabeça que sim. Então, a tartaruga, com um olhar sério, mas sereno, começou seu relato.
 
"Há muito tempo, meus pequenos, não existia um lago ali. Existia apenas a clareira, onde nos reuníamos à beira da fogueira para contar histórias. Até aquela noite, quando toda a floresta tremeu. Árvores milenares desabaram, grandes rochas desmancharam-se em areia. A floresta dormia, exceto talvez por uma única criatura: eu. Um de meus filhotes acordara com pesadelos pouco antes, e acabava de dormir quando senti a terra chacoalhar. Fiquei em pânico, pensando na segurança de meu lar, a toca da gruta na época. Mas pouco depois o tremor passou, e saí para ver o que havia. Coloquei minha cabeça para fora da toca, temerosa, e vi algo espantoso, que nunca havia presenciado antes. A lua, meus caros, que sempre jazia tão alva em nosso céu, estava rubra...". Neste momento os filhotes permaneceram de olhos vidrados na anciã, que parecia cansada, mas todos os adultos buscaram a lua no céu. As nuvens, no entanto, cobriam todo o cosmo até onde os olhos alcançavam. Então, eles voltaram seus olhos para a velha tartaruga.
 
"Senti muito medo naquele momento. Tudo que conseguia imaginar vendo aquilo era que a lua sangrava, como nós quando nos ferimos. E aquilo parecia muito errado, pois nada poderia ferir a lua. Pensei em voltar para meus filhotes, para dormir novamente, na esperança de tudo aquilo não passar de um sonho ruim. Mas ouvi um ruído, um gemido no vento, que congelou meus ossos. Algo agonizava na floresta. Senti medo, quis proteger meus filhotes. No entanto, meus pequenos, as tartarugas são os animais mais curiosos da floresta. Segui, receosa, até onde imaginava ter surgido o gemido. Era a clareira. Mas não como nós a conhecíamos. Por todo o chão espalhavam-se rachaduras, vindas de seu centro. E lá, um buraco surgia, aumentando aos poucos, mas rápido o suficiente para que meus calejados olhos percebessem. E dali uma criatura emergiu, mais negra que a noite, e com olhos mais escarlates que a lua no céu. Tinha longos tentáculos, que se arrastavam pelo chão, deixando um rastro negro". Alguns filhotes correram para o colo dos pais, que pareciam tão assustados quanto os pequenos. "Ela seguiu até mim, com um olhar fixo. Tentei fugir, mas percebi que seria inútil, então eu a encarei".
 
"Ela se aproximou bem de meu rosto, como se me estudasse. Depois procurou em volta, como se esperasse outros animais. Mas não havia ninguém, então ela voltou-se para mim e sussurrou. Era algo frio, morto, mas completamente inteligível. Ela era a própria morte, a infinita e inevitável morte. E tinha vindo até ali para nos preparar. Eu perguntei a ela, nos alertar contra o que? Mas ela só olhou no fundo da minha alma, e disse que ali deixaria sua marca, e que voltaria um dia, quando a última que se lembrasse dela a esquecesse, e levaria a todos nós. Então ela transformou-se em milhares de negras borboletas, que espalharam-se ao vento, sussurando medo. E eu voltei para minha toca, decidida a nunca esquecer aquela noite, não importando o que ocorresse. Mas no dia seguinte voltei à clareira, onde todos olhavam espantados para o lago de águas negras que surgira ali, de repente. E eu entendi que não havia nada que eu pudesse fazer para evitar nosso destino. Pois, naquela noite, eu conheci a morte. E sabia que uma noite ela voltaria".
 
Dito isso, a velha tartaruga abaixou sua cabeça, como se estivesse cansada demais para continuar a história. Um vento suave soprou pela floresta, balançando as folhas das árvores. As nuvens então se afastaram, revelando uma lua vermelha como o sangue, e um barulho de água começou a ecoar entre gritos.
6 mars

Diagnóstico

 
Ninguém acreditou na manchete estampada nos jornais daquele dia. Nada de escândalos políticos, carros-bomba no Iraque ou tiroteios no Rio de Janeiro. Era uma coisa não tão rara de se acontecer, mas de difícil aparição na mídia: uma descoberta científica. A multidão se amontoava em frente às bancas lendo nos jornais expostos, em letras garrafais: "Isolada bactéria do amor". Nunca o dono da banca vendeu tanto como naquele dia.
 
Dentro, uma foto de um homem que de tão branco ficava vermelho acompanhava o texto. Era o doutor Johnatan Haagünsen, eminente bacteriologista do Instituto de Microbiologia da Universidade Norueguesa de Ciências. Famoso em todo o mundo por sua pesquisa sobre os microorganismos da flora intestinal humana, o cientista descobrira recentemente que uma suspeita sua da época de estudante tinha uma base verdadeira. Ele acreditava que alguns sentimentos (entre eles o amor) eram simplesmente um descompasso na produção de neurotransmissores provocado por bactérias, o que acabara de provar. Um pequeno bacilo, ainda não nomeado, eventualmente migrava do intestino delgado, onde auxiliava na digestão, para o sistema nervoso central. Lá, a substância que produzia entrava em contato com a serotonina, conhecida como neurotransmissor do prazer, e formava o agora chamado "neurotransmissor do amor". Em contato com o córtex cerebral, a proteína (era uma proteína) induzia sensações de euforia, prazer e luxúria, além de provocar distrações e ter um leve efeito alucinógeno.
 
A principal pergunta que o cientista respondia nas entrevistas era a importância de sua descoberta, questão que ele respondia com uma tranquilidade mecânica. "A maioria das pessoas acredita no amor, em ter uma vida feliz ao lado de alguém para sempre. Desmistificamos isso.  Esse sentimento nada mais é do que uma patologia clínica, provocada pela migração indevida de uma bactéria, e pode ser eliminada como qualquer outra doença". A primeira resposta nunca era satisfatória, então ele improvisava. "Nem todo mundo é satisfeito com sua vida 'amorosa'. A maioria, aliás, se entristece mais do que alegra com seus relacionamentos. Agora, podem acabar com isso, não sentir mais isso. É uma opção, não uma obrigatoriedade, mas certamente evitaremos muitos crimes chamados passionais".
 
É claro que não faltaram críticas, algumas até mais exaltadas. "Esse cientista não entende a importância do amor para a manutenção da sociedade", comentou Sir Edward Howsback, importante antropólogo inglês. Já o poeta francês Louis Delacroix ironizou a descoberta. "São pessoas amargas como o senhor Haagünsen que demonstram o individualismo e a perda da sensibilidade cada vez mais fortes no homem contemporâneo, que não reconhece o sentido do amor". No Brasil, a Academia Brasileira de Letras se pronunciou através de um comunicado, em que repudiava o valor dado pelo cientista à descoberta. "O amor é mais do que substância correndo em nossos cérebros. Ele está no coração simbólico, na mente, não em célular nervosas".
 
Naquela noite, o dr. Haagünsen chegou tarde em casa. Passara a tarde em coletivas e entrevistas a jornais e tevês do mundo todo. Chamou pela esposa, para jantarem. Mas tudo que encontrou foi o guarda-roupas vazio, e um bilhete sobre a cama. "Parece que tomei um antibiótico, depois desses trinta anos. Sempre te amei, Johnatan, mas descobri que não passava de uma doença. E agora estou curada". O médico sentou-se na cama, deixando escorrer lágrimas que encharcavam suas mãos e o bilhete. Mas, afinal, não conseguiu segurar um leve sorriso, pois sabia que a sensação de abandono também não passava de uma patologia clínica.
5 mars

O que? Eeeeu?

 
Não entendo essa mania das pessoas de superestimar a espontaneidade. Liguei a televisão e por acaso vi um participante desses reality shows que passam por aí explicando porque merecia ganhar o programa: "Poxa, eu estou desde o começo sendo espontâneo aqui". E daí? Porque isso qualificaria o indivíduo a ganhar uma bolada? Desde quando falar a primeira bobagem que vem à cabeça se tornou uma vantagem? Aliás, sempre entendi isso como um defeito - a falta de controle para, em uma situação nova, estudar tudo friamente e chegar a uma conclusão lógica. Pelo jeito, é melhor chutar tudo para o alto e falar "Qual é? Vai encarar?".
 
Políticos que dizem qualquer porcaria à imprensa sem analisar as consequências do que dizem correm sérios riscos de dar fim à própria carreira. Está aí Lula e os seus "Eu não sabia de nada" e "...bando de aloprados" que não me deixa mentir. Jogadores de futebol são constantemente ignorados porque dizem que o jogo foi bom e o resultado foi justo, assim, sem pensar. Por que essa idolatria então pelo impensado? Qual o problema com analisar, estrategizar, calcular para só então agir? Dói a cabeça seguir o caminho mais difícil ao invés de falar que "o time jogou bem, o problema foram os contra-ataques, principalmente quando a bola estava no nosso pé"? Graaande Dunga! Mais um gênio da literatura brasileira que emerge de cantos obscuros do conhecimento. 
 
Não direi, de forma alguma, que o espontâneo é ruim. Só é restrito a contextos. Um bom ator, ou jornalista, é aquele que consegue improvisar em uma situação difícil o que, veja bem, não é ser espontâneo. Improvisar é conseguir raciocinar rápido o suficiente para elaborar uma resposta racional a um determinado contexto. Espontaneidade é um prefeito ouvir um homem protestando contra uma lei recente e chamá-lo de vagabundo em frente às câmeras da televisão. Ou um governador ("Isso não é meu! Eu não estou nem aqui!") dizer que quando for estuprar, que pelo menos não mate. São essas pérolas diárias que me dão a certeza de que estou no caminho certo ao preferir dizer que ainda não recebi todas as informações, mas tão logo as tenha e analise terei uma posição a respeito.
 
Já fui chamado de manipulador, estrategista, frio e calculista (aliás, já viu alguém dizer que fulano é só frio, sem dizer que é calculista?), só por pensar e agir assim. Não me importo. Primeiro porque são pessoas que não pensam antes de falar, impetuosas e intepestivas. E depois porque sei que no final é o raciocínio lógico, frio e imparcial que vai me garantir o sucesso. E tenho a absoluta certeza que posso mudar um dia, se me parecer necessário. E que não hesitarei em dizer, com expressão magoada: "Mas, poxa, eu estou sendo espontâneo desde o começo"!