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16 avril

Vida de Estagiário - Tomo I

Começa hoje uma série inédita aqui no blog do Salahda. Durante toda essa semana vocês poderão conhecer um pouco mais da minha rotina como estagiário de uma emissora de TV. São seis horas por dia de pura diversão, aventura e muita confusão e... Bem, normalmente não é nada disso. É um trabalho bem burocrático, às vezes meio chato e às vezes bem chato. Mas também seus momentos de glória, vitórias pessoais e descontração, que são o que acabam tornando minhas horas de trabalho menos entediantes. Enfim, deixemos de conversa fiada e vamos ao que interessa!
 
Segunda-feira, 16 de abril de 2007
 
Cheguei meia hora mais cedo porque tem reunião da equipe. Como bom estagiário, fiquei sentado só até chegar alguém mais importante que eu (ou seja, uns 90% da redação): me levantei e tranquilamente fiquei me apoiando em um cantinho de uma bancada com apenas metade do traseiro. Sem contar que a cada tema discutido começam as fofocas e aí vão cinco minutos de conversa à toa antes de voltarmos à pauta. Acabei ficando com as nádegas dormentes (para não dizer bunda, não pode falar bunda na televisão). Muita discussão depois, nada decidido e eu com fome. Não tive como almoçar na hora certa, e fico esperando uma chance. Rezo para que nada das quatro coisas previstas caia na minha mão, significando que almoço só lá pelas quatro da tarde.
 
Graças ao anjo da guarda dos estagiários, nada veio para mim. Entendam, não sou preguiçoso. Adoro sair para campo e cobrir assuntos interessantes e relevantes para o país. Mas reunião do presidente da Associação de Agricultores de Abobrinha Azeda com um representante do ministro do Desenvolvimento Social não dá. Não quero saber se a farinha de abobrinha azeda é importante para o país, sei que ninguém mais estará lá, só eu. E tenho de ir calado e com um sorriso no rosto, achando o máximo a oportunidade que estão me dando. Uma colega de trabalho diz que ando reclamão - mal sinal para alguém que tem de impressionar se quiser uma chance de voltar para cá depois de formado. Não sou reclamão. Mas, francamente, não sei como posso fazer um bom trabalho cobrindo algo que não entendo. Talvez seja por isso que eu tenha que sair mais: para aprender a fazer essas coisas. E não fico reclamando - só dou risadas sarcásticas quando chegam pedidos idiotas.
 
A tarde vai acabando e eu continuo na mesma. Nada relevante surge, e eu plantado na redação, tendo tanto tempo livre que posso me dedicar a esse texto. Um telefonema, preciso do rádio. "Cadê o rádio?". "Sei lá!" - a guria à minha frente lixa as unhas, enquanto olha com desprezo para o aluno de comunicação à sua frente. Eu ainda preciso aprender a controlar meu sarcasmo. "Eu precisando do rádio e você lixando as unhas?". Pronto. Caos na redação. Ouço uma sirene vermelha mental soar, me informando que tenho um problema (para não dizer que deu merda, não pode falar merda na televisão). Ela olha para mim como se eu fosse um lixo, e começa a procurar, fazendo uma ceninha levemente teatral. Sinto os instantes passando antes que ela conte em tom de piada para todos os coleguinhas de trabalho, o que de fato acontece. Volto a ser o abusado da redação - já aconteceu antes de não entenderem meu humor cáustico e parecer que sou mais arrogante do que deveria.
 
Aliás, não sou só o abusado da redação- também sou o sacaneado da redação. Profissionais de televisão têm um problema de ego - gostam de transformar alguém em vidraça ou ver isso acontecer, mas não gostam de estar em evidência nesses momentos. Ou seja, basta que eu responda à altura uma vez (como caí na bobagem de fazer) para que minha condição seja ressaltada como um exemplo de minha inexperiência. Não interessa meu argumento, sou o estagiário - valho menos que um judeu para um nazista. Mas é essa a essência do trabalho, a graça da profissão. Todo estagiário é, em sua essência, um ferrado - era para ser um fodido, mas não pode falar fodido na televisão...