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June 26 Troféu Tristan Tzara de Composição: Só Love
Não postei nada essa semana. Lamento. Não que eu deva explicações a qualquer um de vocês, mas é que sempre fico com algum peso na consciência quando não posto durante tanto tempo. Ainda mais tendo muito o que falar. Por isso fiz questão de dar as caras pelo menos com a seção Tristan Tzara, que é para ser fixa. Por isso, e agradecendo a sugestão do colega e muito melhor blogueiro do que eu Vitor Matos (http://www.ofuror.blogspot.com/), segue abaixo um hit da época em que os bailes funk ainda podiam ser freqüentados por garotas vestindo calcinhas. Com vocês, Claudinho (que Deus o tenha) e Buchecha cantam “Só Love”. “Só love, só love Começo defendendo. Não pensem que é incompetência dos nossos prezados compositores mesclar as línguas inglesa e portuguesa em uma só frase. Marisa Monte fez um sucesso absurdo com “Amor, I love you” e todo mundo chama de gênio. Esse mundo é injusto. Além do mais, vocês podem não ter notado, mas o ritmo de só love dito várias vezes certamente lembrará a ouvidos sensíveis e atentos o som de um coito em execução. Reparem só. “Quero, de novo com você Poético isso. Nada mais romântico do que o rapaz que fala que se “atracar” de novo com a senhorita. Até vejo a cena: ela acorda, cansada da batalha sexual da noite e recebe o animado telefonema do rapaz. Só não entendi o “corpo, alma e coração”. Coração é um negócio à parte? Só não gostei quando o nosso romântico personagem demonstra todo o seu egoísmo. Ele não adora o prazer a dois, ele venera apenas e tão somente o próprio prazer. E todos nós sabemos que fim têm as pessoas que gostam mais do próprio prazer individual do que a dois, não é verdade? Mãos peludas! Quem não entendeu pergunta ao amigo nerd do lado. Agora, aqui está de longe uma das maiores bizarrices que já vi em termos de letra: "controlo o calendário sem utilizar as mãos". Primeiro, calendário sempre me lembra aquelas folhinhas de borracharia com mulher pelada representando cada mês. E segundo, como assim, controla o calendário usar as mãos? Ele faz tabelinha pela namorada? Usa telecinésia? Ou será que ele desenvolveu essa incrível habilidade porque está sempre com as mãos ocupadas demais na obtenção do próprio prazer? "Amor vou esperar Bem, talvez ele não seja tão egoísta assim, e ainda dê alguma chance à namoradinha de se divertir também. Mas pegou muito, muito mal ele falar que sonha, pensa na moça... jogando futebol. Em tempos de Ronaldo, frases como essa podem destruir carreiras! O que me tranquiliza é saber que ele só mandou essa para rimar com sol mesmo. "E mesmo que eu
Arriscasse alguém
Não seria tão bom
Quanto é
Eu não vou confiar
Em ninguém
E nem vou me envolver
Com qualquer
Pra despir toda essa razão
E a emoção transparecer
Deixarei que os momentos se vão
Pra amar
Tem que ser com você"
Desculpa, não tenho nada a dizer dessa parte. Estava desatento, lembrando que o rapaz aprendeu a mexer na folhinha da borracharia na base do poder mental só para estar sempre com as mãos em busca do próprio prazer. E depois ainda tinha a desfaçatez de fazer uma dancinha com a mão... no nariz. Pervertidos. June 20 Troféu Tristan Tzara de Composição: Papo de JacaréAntes de qualquer coisa, pedir desculpas por um dia de atraso no post dessa seção, que deveria ser todas as quintas-feiras. Lamentável. Principalmente porque não há motivo em particular, eu simplesmente fiquei com preguiça. Simples assim. O fato é que dessa vez os astros dessa seção são especiais. Clássico instantâneo à época de seu lançamento, essa música alçou seus poetas compositores ao estrelato, permitindo que eles se apresentassem até no Criança Esperança e fossem trilha sonora de uma novela das sete. Inovadores, definem seu próprio ritmo como uma mistura de reggae, rock, funk, maracatu e baião. E acreditem se quiserem, eles são goianos: as pessoas nunca me deixam esquecer disso. Com vocês, P.O. Box canta Papo de Jacaré.
" Tô viajando na onda
Dessa menina Que dá aula de inglês Toma vinho português E vive rindo Da minha ignorância Mas a minha tolerância Vai fundir a sua cuca..." Até aí tudo bem. Somos apresentados ao nosso caríssimo capiau, que se apaixona pela professorinha de inglês de classe média (afinal de contas, ela não toma nenhum Romanée-Conti, mas também não apela para o Mioranza), e que sofre por isso. Pudera. Se apaixonar por alguém que é professor no Brasil e ri dos outros é de chorar mesmo. Mas ele persiste, e vai demonstrar a nosso pequeno pedaço de arrogância da classe C que é um rapaz tolerante. Proeza nos tempos de hoje. Uma última confissão: eu juro que sempre entendi que a dita cuja dava aulas de inglês em um navio português. O que sinceramente parecia bem mais bizarro.
" Vou te bater uma real
Vou dizer que sou o tal Bater um papo no café É papo de jacaré Mas vê se fala por favor A minha língua Que já tem até uma íngua Por causa do seu inglês" Até agora eu simpatizava com o nosso protagonista, rapaz pobre da roça que se apaixona pela princesinha de papel culta. Mas ele chega nela como um legítimo peão, vamos concordar. Imagine a distinta leitora que encontra-se em uma cafeteira, a ler algum desses semanários gratuitos, quando chega um rapaz todo pimpão e manda um "Sou o tal". Já é ou já era? E eu sinceramente não tenho a menor idéia do que seja um papo de jacaré. É tipo, conversinha mole antes de comer? Quero acreditar que ele falou todas essas bobagens por causa da íngua na língua (rima pobre, mas fazer o que? O menino é da roça). Diz papai Aurélio que íngua é um linfonodo, um ingurgitamento dos gânglios linfáticos. Salvo engano, o negócio fica cheio de pus. Nojinho.
" Eu não sei falar
Também não sei entender Sou só só só suburbano Sou latino-americano... Sei quem é fulano Mas não sei quem é cicrano E o seu inglês Fica pegando no meu pé... Diz que vai me ensinar
Então diga como é! (4x)"
Bom, pelo menos o garoto reconhece sua condição. Não que ser suburbano, e muito menos latino-americano, seja desculpa para não conhecer o idioma inglês. Mas admitir a ignorância é o primeiro passo. Aliás, rolou uma gaguejada bacana no "só só só", mas completamente explicável: foi para se adequar ao ritmo pouco ortodoxo da melodia. Compreensível. Deve estar nervoso depois de levar um fora, porque é o máximo que eu conseguiria com um "Eu sou o tal". Ele não é tão o tal assim, afinal, mal consegue entender a periguete. E o pobre diabo até pede ajuda à moça, repetidas vezes, praticamente implorando. Ela diz que vai ensiná-lo, mas será que nosso pocinho de arrogância que vive de crédito vai ajudar?
"E o que é essa garota
Tá querendo me dizer? I love you, meu chuchu Merci beaucoup Meu chuchu, isso é francês E não inglês..." Alguém que dá a cantada do "Eu sou o tal" merece uma namoradinha poliglota com manias exibicionistas. E que ainda dá uma de malandrona, fingindo que fala francês com um Merci Beaucop que qualquer gambá de desenho solta de vez em quando. Parece eu com meu japonês de anime legendado. E o pior é que o nosso excelentíssimo caipira caiu. Eles se merecem. June 17 Traz aqui, traz... Não quero levantar...Eis-me novamente como advogado do diabo. Dizem que sou do contra, que vou de encontro às opiniões de outros apenas por diversão. Confesso que realmente me entreto com isso, mas minhas motivações vão além de ver faces rubras e lágrimas de raiva. Às vezes, e só às vezes, eu realmente acredito no que estou dizendo. E faço questão de firmar pé e colocar aqui, diante do escrutínio público, minhas convicções.
É o que acontece quando defendo a preguiça, por exemplo. Sempre achei que as pessoas geralmente superestimam o trabalho duro e o esforço. Aquela coisa de "Deus ajuda quem cedo madruga". Muita gente não entende que, na verdade, a preguiça é um elemento de evolução. Provavelmente foi a mais pura vontade de ficar quietinho na cama que motivou a maioria das invenções. Como o despertador. Idéia genial, com cara de criação de dorminhoco. Forno de microondas também. Eu sei de toda a história, de como ele foi criado por um cientista que sentiu um chocolate derreter no bolso ao lado de um gerador de microondas, mas tenho certeza que o rapaz não era exatamente do tipo ativo e cozinheiro. Sem falar no controle remoto - juro que conheço gente que nem sabia que tinha como mexer na TV com a mão no aparelho.
Chorumelas à parte, essa aversão que muita gente tem em relação à preguiça está na verdade associada àquilo que um alemão tornou famoso: a ética protestante. Segundo Max Weber (e não o Gehringer, que provavelmente me crucificaria agora), por algum motivo, os primeiros protestantes defendiam que o sucesso na vida - inclusive o financeiro - era a forma de demonstrar que Deus abençoava o indivíduo. Por isso tanta preocupação em enriquecer e ficar bacana: para conseguir uma vaga no céu. Só que naquela época o único jeito de fazer isso era na base do trabalho, não tinha jeito. E quem não estava muito animado acabava ficando com pinta de amaldiçoado, de gente ruim. Daí para o capitalismo, as indústrias e as horas do cafezinho que não passam nunca de cinco minutos foi um pulo.
Na prática, muito do que é criado hoje em dia pela tecnologia vem no caminho inverso a isso aí em cima: queremos menos trabalho. menos movimento, menos cansaço com coisa inútil. O que implica mais funções no celular (para não ter de procurar pela agenda eletrônica na mochila, que está uma bagunça), livros no computador, compras pela internet! Preguiçosos adoram a palavra "praticidade", só não gostam mais do que "controle remoto universal". É natural querermos nos esforçar menos, para armazenar energia: era isso que faziam nossos antepassados. E graças a esse tipo de atitude, de não sair para caçar porque está frio e chovendo, é que estamos aqui hoje. E provavelmetne se a gente ainda vai para a frente, é por causa de pessoas que não fazem questão alguma de sair do lugar. June 13 Um Grito de SocorroSou um apaixonado por tecnologia. Não chego a ser fanático, do tipo que sabe quando surgiu o microchip, quando foi criado o nanochip ou qual é a previsão para o picochip. Mas acompanho atento a chegada da tecnologia, principalmente de informação, ao nosso cotidiano. E é daí que vem meu temor: a forma como vão usar essas coisas todas que surgem todos os dias em uma velocidade absurdamente estonteante.
O celular, por exemplo, está na vida de todo mundo hoje em dia. Conheço gente que prefere ter o aparelhinho móvel a ter um telefone fixo, por exemplo. Eu sou um desses: com exceção do trabalho, prefiro mil vezes o celular para ligações pessoais do que ligar de casa. Chego ao cúmulo às vezes de ligar do celular para alguém estando em casa, e podendo tranquilamente usar o fixo, por pura preguiça de levantar da cama. Mas o fato é que me assusta o alcance que a coisa tomou, principalmente em termos de convergência. A maior vantagem de telefones móveis, para mim, sempre foi a comodidade de poder ligar e receber ligações "em qualquer lugar". Mas tem gente que surta com outros apetrechos possíveis: celular que é celular tem que mandar mensagem, acessar a internet, tirar foto, filmar, fazer pipoca, fritar um bife... Eu lembro que na primeira vez que meus primos menores viram meu atual celular a primeira pergunta foi "Não tem joguinho?". "Não, não tem joguinho." "Mas nem cobrinha?". "Nem cobrinha". "Que chato". Eu mereço.
E é engraçado como as coisas só pioram, mesmo no que se refere a só um desses recursos, como as mensagens. Sou usuário assíduo de SMS, porque sou sucinto e consigo normalmente passar mensagens importantes em 130 caracteres. Mas, por algum motivo, as pessoas se encantaram com esse recurso, que me lembra muito os velhos 0900 de piadas. Gente que escreve no teclado do celular mais rápido do que consigo digitar no computador. E que se impressiona com a possibilidade de receber todo tipo de informação por mensagem. Notícias de economia, de política, dicas de relacionamento, horóscopo! Vão lançar qualquer dia desses um celular cartomante, que fotografa a mão do usuário e prevê seu futuro. Por meros 50 centavos a mensagem.
Outro recurso que me preocupa nos celulares é o tal toque personalizado. Sou adepto, e acho até legal que toque o tema de "O Poderoso Chefão" quando meu pai liga. Mas tudo tem horas e horas. Tem no Youtube um vídeo em que, durante uma entrevista ao vivo em um telejornal, começa a tocar o celular de uma autoridade qualquer, ecoando pelo estúdio um "Não me chame não, viu, não me chame não". Lamentável. Sem contar o toque de risada estridente que já ouvi em velório. Há horas e horas para tudom, e para isso serve um outro recurso poderoso e muito ignorado: a opção do "silencioso".
Não quero parecer chato ou rabugento, entendam. Gosto de toda essa inovação, e de saber que tenho de tomar cuidado redobrado sempre que for fazer alguma besteira porque pode existir alguém com um celular por perto, que vai filmar, fotografar ou pelo menos gravar minha voz. Mas como toda tecnologia, é preciso cuidado nos exageros para não se tornar refém. Porque aí pode não ter mensagem de 50 centavos que resolva. June 12 Troféu Tristan Tzara de Composição: ObiNão resisti. Confesso que queria deixar mais para a frente a participação de um dos maiores dadaístas da música brasileira nessa seção, mas não teve jeito. Ouvi, por acidente, uma música que me fez sentir-me na obrigação de postar o mais rápido possível. Para quem não conhecer, deixarei o link com a letra no final do post. Com vocês, Djavan canta "Obi".
"Obi, Obá,
Que nem zen, czar,
Shalom, Jerusalém, z'oiseau,
Na relva rala Meu arerê Tombara Ali, Alá Logo além Nem lá Logum Pra cá ninguém faraó" E isso é a primeira estrofe. Não foi força de expressão chamar o autor de dadaísta. Realmente parece que ele é adepto do método de recortar palavras a esmo e jogá-las como se estivesse semeando um campo (bonita essa imagem, né?). Obi seria, segundo o dicionário, noz-de-cola na Bahia. Ou, em tupi, significaria verde ou azul. Não acho que os índios tupis considerassem as duas cores iguais, mas não vou discutir com meu pai, senhor Aurélio. Obá é tipo um príncipe do candomblé, alguma coisa relacionada a Xangô. Ser zen tem a ver com meditação, coisa de japonês, czar era o monarca russo pré-Revolução. Shalom é uma saudação judaica, Jerusalém capital de Israel, z'oiseau nem idéia, parece ser francês. Juro, nunca vi uma música tão miscigenada. Índio, negro, japonês, russo, judeu, francês. Nenhum sentido até agora, mas fazer o que, não é verdade? Isso é arte!
Não sei o que é o arerê (que só me lembra a Ivete Sangalo esperneando enquanto grita "Arerêeeeeeee Um love um hobby um love com você ê ê, ê ê!": a defesa encerra), mas pelo jeito o do rapaz caiu na grama. Logo ali. Aí vem mais um traço de miscigenação, com o Alá muçulmano logo além, Logum, pra cá ninguém faraó. Que diabos é isso? Alá está logo além de onde tombou o arerê (que diabos é arerê!!) mas nem lá e pra cá ninguém manda no Egito. Levante a mão quem entendeu alguma coisa. Agora, por favor, mantenha-a levantada com a palma para cima, pois passaremos distribuindo seus comprimidos de hoje. Obrigado pela atenção.
Mas a música continua. Sim, continua. "No ver da gente o samba é pedra mor África Benfica E fica melhor". Primeiro comentário óbvio: muito ruim esse trocadilho do Benfica e fica melhor, vamos combinar, né. E mor, nos diz papai, é um conjunto de camadas sobrepostas de humus repleta de matéria orgânica e que serve de tapete natural para o solo. Não me parece exatamente elogioso falar que o samba é isso, principalmente pela própria música ser um samba. E esse África aí sobrou, hein. Podia ter ficado lá em cima, no meio de obi, obás e adjacentes.
Por fim, vamos aos últimos versos:
"Amanheceu de um sorriso
Vida como é preciso Sonhando Sentindo Cantando Infindo Ouvindo Falando Falo de mim Pra você Alô, olá Se não for pra já So long Ouricuri madurou" Juro, não tenho nem idéia de quem amanheceu tão feliz assim. Quem acorda com um sorriso e sai cantando, sentindo, sonhando? Em que mundo vive essa pessoa?Imagine-se na cena, caro leitor. Alguém que se aproxima com um sorriso, cantando para você, e começa a falar de si. Aí você, que como ser humano normal acorda levemente mal-humorado, pede um tempo para esfregar os olhos e entender a situação bizarra e ouve um "Alô, olá, se não for pra já (ih, rimou!) so long, Ouricuri madurou". Ouricuri? Até onde eu lembro, ouricuri é uma planta, uma palmeira, usada aliás para se extrair cera. "Foi mal, não dá para converar depois, preciso ir ali extrair umas coisas do pau que cresceu o suficiente". Com trocadilho, por favor.
Não vou discutir aqui as habilidades poéticas de Djavan. Ídolo dessa seção desde já, ele tem lá seus méritos (sempre achei genial a metáfora de aprender japonês em braille, de "Se"), mas Obi não dá, sejamos francos. É por essas e outras que concordo quando dizem que o Jorge Vercilo é genérico dele: porque não consigo pensar em castigo maior. Shalom!
June 11 Se as meninas do Leblon não olham mais pra mim...Hoje esse blog atuará com um função social. Sim, finalmente serviremos para alguma coisa além do mero entretenimento de seu autor e de meia dúzia de gatos pingados que dão alegria a um pobre coração e deixam alguns preciosso minutos na leitura desse espaço. Farei aqui uma denúncia. E não uma daquelas que vemos todos os dias, de verba da saúde desviada, de filas em postos de saúde ou de falta de policiamento. Gostaria de registrar aqui minha irritação e profunda angústia em ver o dinheiro público sendo desperdiçado em algo tão banal. Juro, minha têmpora chega a saltar quando a adrenalina circula. E isso só acontece quando vejo que mais uma vez os óculos da estátua do poeta Carlos Drummond de Andrade, belamente localizada no calçadão de Copacabana, foi furtado novamente.
Ao contrário do que poderia parecer, não estou revoltado com o furto. Talvez eu esteja completamente anestesiado pelo descaso costumeiro com que tratam a segurança ao ponto de não me preocupar mais com roubos. Não importa. Meu problema é com a expressão "novamente" no final do parágrafo anterior. Pela quarta vez (vejam bem, quarta vez!) desde 2002, os malditos óculos foram roubados. E isso me provocou diversas dúvidas, que deixo aqui aguardando resposta. Por que diabos a maldita estátua tem óculos? Para ver melhor os biquinís (e recheios) das moças que ali caminham? Não! Ela não enxerga! É pelo valor artístico da fidelidade ao objeto ali homenageado? Que seja! Por que não fundiram a maldita armação à cabeça da estátua? Por que deixar aquilo solto? E ainda dizem que vão pedir mais policiamento no loca, além de uma câmera de vigilância. Tenho certeza que assim o Drummon de chumbo vai se sentir mais seguro. Será que vão matar os pombos que nele deixam lembranças também?
Diz o responsável que a reposição deve custar 3 mil reais. 3 mil reais em um óculos? Começo a imaginar que a estátua seja cliente da Benneton, da Oakley ou talvez da Hot Buttered. E com cartão fidelidade, afinal de contas, já gastou 12 mil reais na loja. Uma moto, diga-se de passagem. É inacreditável que continuem a gastar o dinheiro dos contribuintes cariocas nessa porcaria! Não duvido que o próprio Drummond ficaria chocado com tamanha piada. Internacional, aliás. Descobri que em Cuba uma outra estátua, do músico John Lennon, também sofreu com esse problema, tendo os óculos roubados duas vezes em oito anos. Mas lá, para resolver, alguns aposentados resolveram se revezar em turnos de doze horas de vigilância. E colocam os óculos no bolso, só tirando quando algum turista quer tirar fotografia.
Será que custaria mais de 12 mil reais importar alguns aposentados cubanos? June 09 Saudades do véuLá pelo começo da década... Dá uma sensação de ser velho quando a gente fala "lá pelo começo da década", né? Até sinto uma dorzinha nas juntas, um reumatismozinho. Mas bem, lá pelo começo da década a televisão estava em seu momento áureo de gostosas. Aliás, agradeço todo santo dia por ter passado a maior parte da minha puberdade nesse período. Lembrio com saudosa nostalgia da Banheira do Gugu, por exemplo. Aliás, para ser cinegrafista do Domingo Legal não podia ser qualquer um não: todos deviam ter diploma de ginecologista. Eles tinham uma técnica especial de voltar dos interlavos com a tela completamente escura, até a gente descobrir que aquilo na verdade era a bunda de alguma dançarina vista de muito, muito perto. E ainda tem gente que elogia o tal do Bergman.
É dessa época também o grande cafetão brasileiro: Luciano Huck, o gênio criador das Hzetes, Tiazinha, Feiticeira, Salva-Vidas... Poucas pessoas que eu conheço teriam o orgulho de poder falar, ao final da vida, que transformaram Susana Alves em celebridade, por exemplo. A maioria simplesmente negaria ter feito parte disso. Bobagem. O Huck fez isso e hoje é podre de rico, pai de dois filhos e casado com a Angélica. Chicotinho e reboladas dão dinheiro, meu caro.
Se tenho alguma decepção dessa época é a Feiticeira. Lembro que antes dela passar a treinar com o marido lutador de vale-tudo (e ficar com o pescoço do mesmo diâmetro da coxa), ela fazia a propaganda de um desses produtos que dá choque na barriga e teoricamente emagrece. Eu lembro do brilhos dos meus olhos enquanto ela falava, lembro de ficar impressionado com o formato das barrigas dos figurantes... até o choque de descobrir a verdade sobre tudo aquilo: "não é feitiçaria, é tecnologia!". Caramba! Em uma frase ela destruiu todo o meu encanto pelo produto. Tinha esperanças de ser alguma coisa de Merlin, algum segredo tibetano encontrado em uma caverna. Mas não. Era só produto da mente de algum nerd com preguiça de fazer exercícios. Malditos!
O fato é que hoje eu ligo a TV e é tudo muito diferente. A Banheira do Gugu, com seu singelo "Uba Uba Uba Ê!", foi substituída pelo Créu da Mulher-Melancia. Aliás, Mulher-Melancia?! Como assim? Cadê o véu, o chicotinho, o segredo? É só aquela bunda? Não estou sendo moralista, acho que faz parte da TV o erotismo, mas às vezes até incomoda. Eu tenho algo chamado vergonha aleia: fico sem-graça por gente que faz coisas embaraçosas, mesmo que elas não fiquem. Hoje, mal vejo TV por causa disso. E sinceramente: sinto falta de quando o mais pornográfico que eu via na tela eram duas pessoas brigando por um sabonete. June 06 Título? Para que? Ninguém vai ler mesmo...Quero fazer hoje um desabafo. Todos os dias eu vejo gente carregando por aí livros de auto-ajuda que defendem o poder do pensamento positivo e do otimismo. Não acredito nessas bobagens. Sou um pessimista nato e defensor da classe. Muita gente não sabe, mas se o mundo está onde está hoje, é graças aos pessimistas.
Um dia dois homens da caverna viram um tigre dentes-de-sabre - eu sei que homens e tigres dentes-de-sabre não conviveram, mas vou abusar da liberdade poética - na entrada do buraco em que viviam. Um deles, o pessimista, já ficou logo com medo. "Bicho grande, com dentes desse tamanho. Não gostei, vou fugir ou, se não conseguir correr, pegar um pau e lutar". O outro, otimista, pegou uma pequena flor entre os dedos e, balançando-a suavemente, se aproximou do tigre, pensando: "ele parece amável, vou levá-lo para a caverna e ele vai me proteger!". O resto vocês imaginam.
O fato é que ser pessimista é um resultado da evolução. Nós somos a raça superior (e não, otimistas, vocês não vão chegar lá). Acreditamos que as coisas vão dar errado, e por isso criamos planos B, C, D... Pessimistas são planejadores meticulosos e organizados. consideram todas as hipóteses possíveis: da estupidez de quem digita os números na calculadora a um chip com mal contato lá dentro que transforma quatros em setes. Nós não deixamos as decisões para a hora do erro. Isso é improviso, coisa para gente que acredita que o Brasil vai pra frente. Vai sim, mas só quando todo mundo estiver recuando para não cair no buraco.
Outra vantagem que eu considero fundamental para entender a força do pessimismo: nós não nos decepcionamos. Se eu não planejo longe demais, se minhas ambições não são absurdas, é mais provável que elas ocorram. Dá para ser o capitão de bocha do time do meu prédio, mas capitão do Manchester United... não rola. Otimistas têm muita esperança, normalmente sonham demais, até encontrarem o Freddy Krueger de suas vidas e voltarem à boa e triste realidade nossa de cada dia.
Para os chatos de plantão, lembro que não estou chutando: outro mais esperto (e obviamente mais pessimista que eu) falou mais ou menos a mesma coisa: Arthur Schopenhauer, filósofo alemão. Segundo Tuzinho, a vida do homem é fadada ao sofrimento pelas aspirações não obtidas. Às vezes algum sucesso passageiro aplaca esse sofrimento, mas é sempre temporário. Já o filósofo Xandy Avião, esse brasileiro, resume muito bem a situação: a vida do homem é beber, cair, levantar, beber, cair, levantar. O pessimista fica feliz de não ter rasgado o joelho da calça. O otimista lamenta até aquele restinho de cerveja quente do copo que perdeu.
Fica então o conselho: seja pessimista. Murphy foi, e ficou famoso. Virou até nome de lei. Tudo bem que hoje existe até Lei Pelé, mas Murphy era bem sucedido. Importante cientista da Força Aérea Americana, ele tinha motivos para ser pessimista: um erro besta de sinais em uma conta e teríamos mais Apollos 13 por aí. Mas isso não quer dizer que você, zé-ruela otimista, não possa se tornar um pessimista hoje ainda e ter sucesso na vida. Só não tenha muitas esperanças. É um excelente primeiro passo. June 05 Troféu Tristan Tzara de Composição: Pescador de IlusõesOlá, meus caros três leitores. A partir dessa semana teremos uma seção fixa no blog: é a seção "Troféu Tristan Tzara de Composição"! Todas as quintas-feiras teremos aqui a análise de letras de músicas de todos os tipos, para entender um pouco melhor a poesia e o simbolismo por trás de clássicos e hits que tomam de assalto nossos ouvidos todos os dias. Sucessos de rodinhas de violão, melodias assaz costumeiras em rádios, canções do meio undergound, todas terão espaço aqui. Antes de começar, no entanto, eu gostaria de fazer somente uma ressalva. Não há aqui nenhum preconceito ou juízo de valor. Não estamos dizendo que uma música é melhor ou não que outra, ou que as letras bizarras encontradas por aí as tornam dignas ou não de ouvidos menos apurados. Isso aqui é só um exercício lúdico de análise bem detalhada. Nada mais. Ou não. Lembrando que quem quiser deixar sugestões de novas músicas a serem analisadas, pode deixar o nome da música e da banda (se souber) nos comentários.
E estreamos em grande estilo, com uma música que fez imenso sucesso quando estreou, depois sumiu e voltou recentemente, graças em parte à sua repetida, contínua e extenuante exibição em um desses reality shows. Por algum motivo, os participantes do tal programa eram completamente apaixonados pela dita cuja, e isso atraiu meu interesse. Afinal de contas, o que tem de tão bom em "Pescador de Ilusões", do Rappa?
Diz a primeira estrofe: "Se meus joelhos não doessem mais diante de um bom motivo que me traga fé". Tudo bem até aí, imaginamos que ele vá explicar o que acontece se de repente ele virar ateu, ou perder as pernas, algo do gênero. Daí eu lembrei da expressão "ajoelhou, tem que rezar". Engraçado é que essa música fez muito sucesso na época dos escândalos de padres pedófilos... Fiquei na dúvida se não teria ali alguma mensagem subliminar, e juro que torci para que não tivesse,
porque os joelhos do rapaz já não doíam mais...
Depois ele continua falando em "se", o que me lembra: Djavan ainda vai estar nessa seção. "Se por alguns segundos eu observar e só observar a isca e o anzol, a isca e o anzol, a isca e o anzol, a isca e o anzol...". Ok, isca e anzol, entendi! Esse trecho é praticamente uma apologia à vadiagem. Tudo bem que ele diz que seja por alguns segundos, ainda assim é muito tempo parado observando. Mas vamos aceitar, já que aparentemente ele é um pescador profissional. De ilusões, mas cada
um pesca o que pode. Pelo menos não é nenhum candiru.
Mas aí vem um "Ainda assim estarei pronto pra comemorar se eu me tornar menos faminto e curioso, curioso... O mar escuro trará o medo lado a lado com os corais mais coloridos...". Então ser faminto é bom? Ser curioso eu entendo, as maiores alegrias da puberdade vêm da curiosidade, mas você está disposto a comemorar mesmo se ficar menos faminto? E não era para comemorar? E de onde veio o tal mar escuro? Medo, lado a lado com corais coloridos? Parece trauma de surfista. E a
isca e o anzol lá de trás, tem alguma coisa a ver com isso? Fico projetando a imagem: uma prancha quebrada flutuando, um surfista com os joelhos quebrados preso a uma barreira de corais, a noite caindo, e ele delirando em febre, vendo corais psicodélicos multicoloridos. Medo.
Daí a minha análise vai para o brejo, porque o rapaz chega gritando "Valeu a pena (ê ê) valeu a pena (ê ê) sou pescador de ilusões". Um masoquista, presumo eu logo de cara. Foi divertido ficar ali vendo a maré subir, com medo de se afogar, não podendo mais se ajoelhar em frente ao padre, tendo que dar adeus à roupa devb coroinha? Por que? Só porque virou um pescador de ilusões? E aí ele encerra a parte original com mais "se"'s: "Se eu ousar catar na supefície de qualquer manhã as palavras de um livro sem final". O que diabos quer dizer isso? Superfície da manhã? Quantas palavras tem um livro sem final? O que tem a ver isso com o resto das coisas? Ele vai catar? Mas não era um pescador, com linha, anzol e tudo? E aí ele volta a falar que valeu a pena, porque é um pescador de ilusões, e fica nisso até acabar. Juro: coisa de surfista dopado de morfina na cirurgia de reconstrução dos joelhos. Só pode. Mas isso até que é bom, porque explica porque o pessoal do tal reality show gostava tanto da música. Coisas de afinidade. June 04 Telhado- Eu te falei. - É a quinta vez que você repete isso. - E aí vem a sexta: eu falei. - É "eu te falei". - Não, não... Fui eu que te... - Esquece! É, você me falou. E daí? - E daí que estamos os dois em cima do prédio sem ter como descer. Você nunca me ouve e dá nisso. Depois fica reclamando. - Eu não fico reclamando. - Acha que eu não ouço? Acha que eu sou surdo? Eu sempre ouço alto e claro. Você consegue falar mais alto que as vozes na minha cabeça. - Sério? - Sério. Você é a pessoa que resmunga mais alto que eu conheço. Você resmungando parece um sindicalista gritando com um megafone estragado, daqueles que ficam chiando e com barulho de estática. - Comparação horrível. - Como se você resmungando fosse muito melhor. - Que seja. - Mas e agora? - E agora o que? - Agora que o que eu falei que ia acontecer aconteceu. - E eu que sei? Você deveria saber, já que você sabia o que ia acontecer. - Sou um pessimista nato, não um planejador nato. Sei quando as coisas estão indo para o buraco, mas isso não significa que eu saiba como sair dele. - Você é tão útil quanto uma lupa de canivete quebrada. - Comparação horrível. - Mas válida. - Então quer dizer que você não sabe o que vai fazer? - Nem uma mísera idéia. - Eu devia ter imaginado. - O que? - Que você não saberia o que fazer. Sou um pessimista, devia ter imaginado. - Cala a boca, vai. Se não vai dar nenhuma sugestão, pelo menos fica quieto enquanto eu penso. - Você pensa tão devagar que às vezes parece um bêbado com Alzheimer. - Comparação horrível. - Eu sei. - Já sei! Vamos fazer o seguinte: no três você pula, eu pulo logo atrás, e a gente corre quando chegar lá embaixo. - Pular assim, sem corda? - É. - Mas é alto. A gente não vai se arrebentar lá embaixo? - Não. Tem uma corrente de ar saindo ali do aquecedor, ela consegue segurar a gente. - Tem certeza? - Tenho, eu vi na Discovery Channel. - E daí? - Daí que tudo que fala lá é verdade. Pula logo. - Eu não. - Meu Deus, você é muito covarde. Parece uma menininha apavorada que menstruou pela primeira vez no baile de formatura da 8ª série. - Comparação horrível. - Eu sei. Agora pula. - Ok, mas se você não pular logo depois eu venho aqui e te puxo. - Tudo bem. Te encontro lá embaixo... Ei, espera! Você pegou as pílulas? - Que pílulas? - Que a gente tem que tomar amanhã cedo. - Ih, esqueci. - Meu Deus. Tem certeza que você não tem Alzheimer? - Tenho. Vou correndo lá pegar. - Eu te acompanho. - Ótimo. A gente aproveita e toma um café. - Você faz? - Faço. - Droga. Seu café é pior que cair com um olho no prego. - Comparação horrível. - Eu sei. Agora anda. |
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