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30 juillet

Elegia

É estranha a sensação de culpa. Talvez me cause estranheza por eu não sentí-la com frequência, mas mesmo assim, chega a ser desconfortável. Acordei hoje cedo, liguei a televisão e o apresentador do jornal anuncia. "A notícia triste dessa segunda-feira é a morte na Suécia do cineasta...". Eu parei, e voltei correndo para a TV. Fui rezando para não fosse Peter Jackson, ou Sam Raimi, ou Zach Snyder, ou Spielberg. "... Ingmar Bergman". Suspiro de alívio. Depois, começa a tal sensação de culpa.
 
Afinal, eu tenho uma noção de quem seja Bergman. E sei que ele é considerado importante por todos aqueles críticos de cinema e seus blogs importantes. Mas não consigo me preocupar muito com a morte de alguém tão distante. Tudo bem, ele fez, sei lá, "O Sétimo Selo". Ótimo, e o que exatamente isso significa? Devo chorar como uma menininha pela sua morte? Ele estava velho, já tinha produzido muito, que alguém tenha piedade de sua alma agora. A vida continua.
 
Encontrei com um amigo do trabalho, que não fazia questão nenhuma de esconder a tristeza. E não entendia porque eu não dava a mínima. Oras, se fosse o diretor de pelo menos algum filme que eu tenha assistido. O tal Bergman realmente revolucionou a história do cinema? Por que? Por que entrou em uma busca pelo psicológico humano? Acho que uns noventa por cento dos diretores europeus não fazem nada além de tentar penetrar na psiquê humana. Por isso, aliás, gosto tanto do cinema americano. Não tem psicologia, são só tiros, sangue e explosões.
 
Cinema não é livro, cinema não é teatro, cinema não é tese de mestrado em sociologia. Cinema é uma das poucas artes decentes, que atingem a função social de entretenimento e diversão. Ou alguém dá gargalhadas diante de uma escultura? Ou realmente sai de uma exposição de pinturas cubo-surrealistas e fala "Deus, há quanto tempo eu não me divertia assim!"? Eu vou ao cinema para sair da minha realidade, não para lembrar das minhas tragédias diárias. Por isso, mesmo com toda a sensação de culpa, digo com vontade: "Ei, Bergman, já vai tarde!" 
 
 
24 juillet

Cientista de banheiro

 
Manhã de sábado, e eu acordo mais tarde. Férias, finalmente. Parece que alguém lá em cima ainda gosta de mim. Me encaminho ao banheiro para as necessidades matinais. Me apressei com as pessoas lá de cima. Deparo-me, com terror, que a maldita válvula da descarga emperrou. De novo. "Isso só pode ser mal-olhado", eu penso. Ou maldição. Ou azar mesmo. Não interessa a causa, o que interessa é que o barulho de água descendo me irrita, e vai irritar o condomínio inteiro quando em uma hora tiver acabado a água do reservatório.
 
Existem dois tipos de pessoas no mundo. As que nunca tiveram uma descarga travada e aqueles tiveram. Os primeiros terão passado em branco pela vida, deixando nada além de um suave risco no papel da história.  Já os segundos estaremos para sempre marcados pelo clamor e ranger de dentes, ocupando posição fundamental como grandes sofredores da humanidade. E olha que eu tenho experiência com problemas
 
Todo leigo é refém de um técnico. E eu não estou sequer falando de nanotecnologia ou coisa parecida. Estou falando do técnico de TV, do eletricista de interfones e... do encanador. Ou melhor, do faz-tudo. Aqui perto de casa tem um, que vamos chamar de Messias. Não que seja o nome dele, é claro, mas é que ele ganha uma aura toda especial de salvador quando chega enquanto minha descarga emperrada chia no banheiro. Infelizmente, não dura muito tempo.
 
É como ouvir um médico explicando suas razões para uma cirurgia sem se preocupar se você vai entender. Juro ter ouvido a expressão "rebimboca da parafuseta" umas duas vezes. Eu concordo, atônito, aguardando que ele faça seu trabalho. Diversão para mim por dez minutos no máximo, eu torço, enquanto assisto ao homem trabalhar na minha privada. Mas passam quinze, e nada além de um monte de peças espalhadas no chão. Ele tira uma borrachinha e olha com uma expressão que, para meu temor, interpreto como "o que diabos é isso?". Eu começo a tremer.
 
Vou ver um pouco de televisão para descontrair. Dois blocos de Simpsons depois, eu volto e lá está ele, com a válvula montada. Imagino que esteja tudo certo, até ver uma mola no chão. "Ué, e essa mola?". Messias me olha com cara de desânimo. "Estou vendo como fica sem". Tenho quase certeza de não ter conseguido conter minha expressão de desespero. Ele estava ali há quase uma hora e ainda não tinha a menor idéia do que podia ser?
 
Voltei para a televisão, decidido a me acalmar. O desenho acaba, eu volto e no lugar da maldita mola está... a borrachinha de antes. Eu penso com meus botões que há alguma coisa muito errada ali, mas não falo nada- e nem preciso. Ele se vira para mim e explica, com a cara mais normal do mundo que não era a mola, mas que podia ser a borrachinha, por isso ele estava testando. Me sinto com um médico nazista cuidando da minha privada - arranca o rim, se sobreviver é porque não era no rim. Simples. E eu começo a rezar para que minha privada nunca tenha sido circuncidada.
 
Mais meia hora e eu volto ao banheiro. A válvula da descarga voltou a estar completamente desmontada no chão do meu banheiro, enquanto Messias olha com ar de resignação para a parede à frente. Chego a sentir pena dele, mas ele logo solta a pérola que desfaz toda e qualquer compaixão, e me força a intervir.
 
- Vou tentar esse parafuso.
- Não, deixa. Pode deixar.
- Mas pode ser o parafuso.
- Não, pode deixar. Amanhã você vem e tenta outra coisa. Eu tenho um compromisso em meia hora.
- Mas é rapidinho.
- Não, minha paciência esgotou. Você está brincando de "adivinhe o que é" com minha descarga há mais de uma hora, e ainda quer tirar o parafuso central. Amanhã você vem e olha de novo.
- Você que sabe, não precisava desse estresse todo. Pode muito bem ser o parafuso...
- Ok, chega, some da minha frente. Você ficou de palhaçada com minha descarga, dá o fora. Vou chamar um encanador e resolver isso.
 
Messias levanta, enraivecido. Atingi seu orgulho, dizendo que ia chamar um encanador. Ele se levanta, remonta rapidamente a válvula, pega suas ferramentas e sai, esbarrando nas coisas da casa. Eu vou atrás, em uma discussão de baixo calão telepática. Até que interrompo a telepatia quando ele atinge o segundo lance da escada.
 
- E vai praticar empirismo na privada da sua avó!
 
Até hoje a borrachinha está em cima da minha pia.
 
 
  
 
 
17 juillet

Léxico lebloniano

Não entendo como as pessoas se identificam com as novelas. Juro. Sei que existem inúmeros estudos acadêmicos exatamente sobre esse assunto, sobre como a teledramaturgia brasileira é bem sucedida exatamente pelo apelo de aproximação que possui com as massas. Sei que os ricos se vêem na tela e os pobres assistem pelo sonho da vida próspera e fútil que nutrem todos os dias. Bem, deve ser por isso que eu não entendo então, já que sou (tecnicamente falando) classe média.
 
Mas meu maior problema na verdade é a linguagem. Personagens de novela não falam "tá, mãe já vô". Eles dizem "Tudo bem, mãe, vou em um momento". Ninguém fala assim na vida. Como dizia Oswald de Andrade, ninguém fala "dá-me um cigarro", e sim "me dá um cigarro". Por que diabos então loiros e loiras magros da televisão têm de falar como em um livro?
 
Você, caro leitor, já se imaginou falando "Olá, Francisco, como vai? E sua adorável progenitora?"? Duvido. Provavelmente soltaria um "E aí, Chicão, beleza? Como tá sua mãe, cara?". E não está errado nisso, acredite. Pessoas normais têm coisas a fazer, e não podem desperdiçar um tempo precioso soletrando cinco letras que podem ser resumidas a duas. Diferente de personagens de novela, que nunca trabalham (a menos que sejam modelos fotográficos ou donos de loja) e podem passar a tarde no shopping, clube ou praia. De preferência praia, que já que estão no Leblon.
 
Veja bem, eu ainda não tinha sequer falado das novelas mexicanas. Não aguento aqueles "Oh, Rodolfo Afonso, que será de nossa tormentosa vida agora?". Se vier acompanhado de dublagem mal-feita então...Curiosamente, essa teledramaturgia cucaracha às vezes faz ainda mais sucesso do que a brasileira. Isso significa que as pessoas não só não se preocupam com uma linguagem que muitas vezes não entendem como também se emocionam com situações completamente inverossímeis e que elas jamais presenciarão. Ou alguém conhece um filho de fazendeiro muiltimilionário com bom coração que se apaixona de verdade pela filha cega do caseiro?
 
Aliás, o Brasil ultimamente não importa somente teledramaturgia. Descobri recentemente que a novela "Cobras e Lagartos" está sendo exibida (com grande sucesso, diga-se de passagem) na Albânia. Albânia! Um país recém-saído de uma sangrenta guerra civil que se diverte com as peripéicas de Foguinho e companhia. Dou um dólar de prata para o primeiro ator do elenco dessa novela que me disser onde fica a mais nova vítima da teledramaturgia brasileira.  E oitocentos e dez dólares de prata (renda per capita do país) para o primeiro albânes que me explicar porque diabos tem vontade de assistir um surfista de dezenove anos falando "Olá, amigo, tudo bem com você?".
13 juillet

FM

Lonely... I'm Mr. Lonely... I have nobody... For on my own..."
 
Eu odeio essa música. Simplesmente odeio. Mas meu computador adora. É a única razão lógia para a insistência dele em tocar essa porcaria toda vez que deixo o programa de músicas na escolha aleatória. E como está sempre no aleatório... Aliás, quase tudo em minha casa é aleatório. Comida na geladeira. Dias de limpeza. Momentos de solidão extrema.
 
"Lonely... I'm Mr. Lonely... I have nobody... For on my own..."
 
Não é como se eu não gostasse de morar sozinho. Ou de ser sozinho. Mas, como tudo na vida, ser assim também enjoa. Casados não vivem reclamando da monotonia, do tédio? Pois é, tem horas que eu canso do barulho da minha voz ecoando, única, nas paredes da minha casa. É quando eu começo a me perguntar se não seria melhor batalhar para conseguir alguém. Alguém só pra mim.
 
"Lonely... I'm Mr. Lonely... I have nobody... For on my own..."
 
Sou mestre em falar nas horas erradas. E falar coisas erradas nas horas certas. E não falar quando preciso. Sou muito instável, muito impetuoso, muito inconseqüente. Não digo que não tenho virtudes também (o que indica no mínimo que não sou falsamento modesto), mas infelizmente nenhuma delas me é útil ao tentar manter um relacionamento por um período mínimo. Será que isso tem a ver com minha condição atual?
 
"Lonely... I'm Mr. Lonely... I have nobody... For on my own..."
 
À noite a situação piora. Durante o dia pelo menos tem o barulho de restaurantes e lojas em volta. Quando chega a madrugada, nada além do silêncio absoluto. E eu sofrendo, lembrando que não tenho ninguém, aboslutamente ninguém comigo. E eu sofro, e sofro, e sofro.
 
"WHO LET THE DOGS OUT?! (WHO, WHO, WHO, WHO, WHO?!) WHO LET THE DOGS OUT?!"
 
"Alô, fala malandro! Aí, acorda que tô passando na sua casa pra gente ir pra farra, rapaz!"