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30 août

Talismã

Conheceram-se em um pequeno bistrô no centro. Ele era um advogado famoso na cidade, sócio de uma das maiores empresas de direito do estado. Acompanhava alguns amigos a um happy hour. Ela era fisioterapeuta, dona de uma franquia de academias e voluntária no tratamento de deficientes físicos carentes. Aquele dia tinha ido parabenizar uma amiga, que fazia aniversário, e acabou esbarrando no homem de terno bem-cortado que saía do banheiro.

- Mil desculpas, eu estava distraída...- começou ela, ainda de cabeça baixa.
- Não há problema, senhorita.Eu também não estava lá muito atento- ele se levantava devagar e passava a mão por todo o terno, tentando tirar qualquer sujeira.

Como que combinado levantaram a cabeça juntos, e os olhos se encontraram. Por trás dos óculos dele ela notou os olhos castanhos, meio tímidos, que apesar de procurarem algo em que olhar não conseguiam se desgrudar dos dela.

- Eu sou... eu sou...- ele sempre gaguejava nessas horas.
- Você é...?- ela riu de leve.
- Oh sim. Antônio Alves, ao seu dispor.- fez uma pequena mesura.

Ela riu e respondeu com uma pequena mesura.

- Luciana. É um prazer conhecê-lo.

Ficaram se olhando sem saber o que mais falar. Ela então lembrou-se que precisava ir logo ao sanitário, pediu licença e saiu. Ele ficou ainda um pouco atordoado, mas logo ouviu os amigos gritando de uma mesa próxima e saiu em direção a eles. Sentou-se e fingiu prestar atenção em uma piada que alguém contava, enquanto na verdade vigiava a porta para saber a qual mesa a moça se dirigiria após sair do sanitário. Alguns minutos depois ela sai e vai em direção à mesa, onde um bolo e uma amiga impaciente já aguardavam apenas sua chegada para os parabéns.

Algum tempo depois ele notou que ela olhava para ele. Como em um jogo, quando um percebia que o outro olhava e se virava para encarar, o outro fugia com os olhos, como se não tivesse em momento algum olhado para aquela direção. Ele era tímido demais para tentar fazer qualquer coisa, para se dirigir à mesa onde ela se encontrava e conversar, pedir o telefone, marcar um encontro, qualquer coisa! E sentia que ali estava outra oportunidade perdida. Resignou-se e voltou a prestar atenção ao que diziam, entre risos, na própria mesa. Foi quando ela apareceu ao seu lado.

- Como é? Não vai falar comigo? Perguntar algo sobre mim? Sei lá, meu telefone!- ela perguntou, e riu.
- Eu... eu... sou meio tímido. Não sou muito bom com essas coisas.- ele respondeu, envergonhado.
- Eu notei, por isso vim aqui. Toma - entregou-lhe um pequeno guardanapo com um número escrito- Me liga amanhã e a gente combina alguma coisa, ok?

Ela saiu antes que ele pudesse dizer qualquer coisa. Aparentemente a festinha de aniversário havia se encerrado, pois não havia mais quase ninguém na mesa. Ela pegou a bolsa, despediu dos que ainda se encontravam na mesa e saiu. Ele ficou olhando para o guardanapo  ainda por um tempo, depois disse aos amigos que estava cansado e que queria ir embora. Despediu-se rapidamente e partiu.
29 août

Hipoalgia


- Então é isso?
- É.
- Então tá. A gente se vê.

Maurício se levantou. Não havia muito o que fazer, era a palavra final dela. Saiu resistindo à tentação de olhar para trás. A vontade era olhar, pedir que ela reconsiderasse, eles podiam ficar muito bem juntos! Mas ele já havia feito o que podia. Havia feito mais do que sempre tivera coragem de fazer. Foi inútil, mas dessa vez ele não poderia se considerar culpado.

Fato recorrente, aliás. Sempre que uma tentativa de relacionamento dava errado, ele se considerava culpado. Quando não pensava ter faltado atitude, acreditava que fora ousado demais, ou que lera errado os sinais. Por isso ele sempre analisava tudo antes de investir. Não queria mais se magoar, não queria mais sofrer, passar horas pensando no que errara daquela vez. Mas tudo se repetiu, e agora ele ia embora, sabendo que se olhasse para trás não a veria chorando e correndo para ele arrependida (como sonhava) . Ela provavelmente nem sequer estava mais lá, já tinha ido cuidar da própria vida. Só de pensar nisso Maurício tinha vontade de socar algo, uma parede, uma pessoa, qualquer coisa. Mas não pega bem um rapaz socar o vento por aí, como um maluco qualquer.

Nem sabia para onde estava indo. Olhou para o relógio, se viu atrasado para o trabalho. Pensou em acelerar o passo, correr o ajudava a não pensar. Mas naquele dia ele resolveu que não se preocuparia de pensar. Daquela vez não era culpa dele, não fizera nada de errado, apenas gostara da pessoa errada! Não rolou a química, não teve um clima, ou qualquer uma dessas expressões usadas rotineiramente. Simplesmente não nasceram um para o outro. Daquela vez ele não sofreria, simplesmente seguiria seu caminho, como ela mostrara que faria.

Já se prometera aquilo em outros episódios, mas alguma coisa estava diferente. Parecia que daquela vez era verdade, como se o coração não tivesse percebido o que acontecera. Ele estava normal, não feliz nem triste, normal. Quer dizer, agora começava a ficar eufórico. Era algo totalmente novo, finalmente ele estava se acostumando às desilusões! Começou a correr, como se estivesse no final de um clipe de uma música romântica. A qualquer momento chegaria a um campo florido, com borboletas e margaridas amarelas por todos os cantos, e lá ele estaria em paz!

O vermelho do adesivo escrito "O amor tem tempo para tudo, da paixão à desilusão" pregado na janela do carro só não era mais forte do que o sangue que grudava aos poucos nos pneus.
28 août

Sessão das 8

- Estou cansado da minha vida parecer um filme.
Isso sou eu, no começo de tarde de uma segunda -feira. Como de praxe eu desabafava pela internet com um pobre-coitado de um amigo, uma das minhas vítimas preferidas em momentos assim.
- Como assim?
- Oras, às vezes acho que nasci com um kit Protagonista Sofredor de Filme Europeu (PSFE). Vem com crises existenciais recorrentes, amores impossíveis ou improváveis, rotinas estressantes e um final triste ou moralista. Aliás, normalmente triste e moralista.
Ele ri, mas eu sei que não teve graça nenhuma.
- Se for pra minha vida ser uma porcaria de um filme, que pelo menos fosse um filme americano com tiros, explosões e mulheres seminuas...
- Acho que você exagera às vezes- ele replica.
- Eu acho que eu exagero sempre. Mas a minha vida é feita de exageros.
Ele ri novamente, e eu percebo que ele não está nem um pouco interessado na minha conversa. Resolvo fazer alguma coisa, ler um jornal, ler algo na internet. O estágio parece ainda mais monótono, e eu me sinto capaz de prever o futuro: quando sair, vou pegar o ônibus, passar 40 minutos pensando em algo que só vai me chatear ainda mais. Depois eu chego em casa e vou para o computador, afinal, a faculdade é uma piada de mal-gosto- continuo de férias. Depois vou me dividir entre o computador e a televisão, até dormir.
Minha vida não parece um filme, parece mais com a sala de cinema. As sessões se repetem, dia após dia, passando sempre a mesma película. E salvo quando algo acontece- a película desalinha, alguém grita com o casal que está se pegando perto de crianças- a coisa vai se repetir. E a minha película estará lá, sempre. Um filme europeu diferente, nem um pouco cult. Com um protagonista revoltado e ranzinza. E que insiste em criar explosões e tiros (só as mulheres quase peladas é que continuam fora). Até sair de cartaz.
Quero ser substituído por uma comédia. Romântica.
3 août

Avenida

Avenida
 
Não sei por que cultivei a mania idiota de sentar na janela em ônibus, vans e adjuntos. Sete horas da noite, o ônibus não tem muita gente, se for menos do que a quantidade de bancos ninguém se arrisca a sentar ao lado de outro. Prefere o conforto solitário. Mas quando tem mais gente do que bancos, você tem que escolher com quem se sentar. E aí faz toda a diferença a sua escolha.
Mas voltando à janela, é idiotice sentar-se à beira de uma. O tempo lá fora não passa- a avenida é comprida, e às vezes parece que todos os carros são iguais. Você se senta na janela e olha para fora, mesmo porque não tem nenhum motivo para olhar para dentro. As pessoas vão todas caladas, envoltas em seus pensamentos, e a única coisa que resta é olhar pela janela e pensar. Às sete horas da noite, tudo escuro lá fora, um silêncio terrível- e eu odeio pensar. Especialmente hoje.
De repente eu desisti. Há muito tempo eu tenho tentado me segurar, me manter na tentativa. Hoje eu desisti. Quando a gente fala isso, tendem a dizer que é coisa do momento, que em breve voltamos ao normal. Eu já passei dessa fase. Não sou lá um exemplo de determinação e firmeza, mas dessa fase eu já passei. Estou na fase de desistência mesmo. Todos os argumentos, de ambos os lados, esgotaram, e eu cansei, ora bolas! Cansei da situação toda, cansei das tentativas fracassadas, da esperança sempre seguida de desilusão, sem antes passar pelo aparente sucesso. Cansei dessa avenida também, que parece que não vai acabar nunca! O ônibus anda no limite da velocidade e mesmo assim parece que nem saímos do lugar.
O tempo continua sem passar lá fora, e eu começo a atividade imbecil de pensar. Não gosto de pensar quando estou desanimado. Pouco a pouco a situação vai se revelando cada vez mais caótica, as perspectivas parecem ainda mais assustadoras do que antes de pensar. A primeira lágrima aparece, pendurada no canto do olho como alguém desesperado prestes a cair num abismo. A lágrima se parece comigo, eu penso, e resolvo deixá-la cair. Agora parece que ela desistiu, eu me canso disso e passo o dedo, retirando-a.
Chorar no ônibus é uma das piores coisas que se pode fazer. Mesmo quando não há barulho alguém vai invariavelmente notar, e quando você percebe a pessoa te olha com ternura e afeto, como se visse um ente querido em sofrimento, ou com desprezo, como se você fosse um fracassado de emoções superficiais. Nenhuma das perspectivas me agrada, mas eu continuo chorando como uma criança. Pelo menos consigo conter o soluço, e evitar que mais pessoas me olhem como um bibelô de lojinha de souvenirs. Eu evito olhar para dentro do ônibus, para evitar as expressões de dó ou de desprezo, e acabo tendo de olhar para fora. O tempo continua sem passar, mas não minha parada.
 
Droga, vou voltar a pé.