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25 septembre

Amor de estação

 
Tenho um problema com pessoas caras-de-pau. Envergonho-me por elas. Sim, pois se elas não se enrubescem de falar determinadas coisas ou de tomar certas atitudes, eu o faço por elas. Sou um tímido nato, e acho que falta timidez ao mundo às vezes. Principalmente aos caras-de-pau.
 
Estava no trem voltando do trabalho quando vi uma cena padrão- a senhorita não encontrou um lugar para sentar-se e teve de ficar em pé, apoiando-se com muito custo em um suporte. Dois minutos depois o tarado de plantão aparece, por trás, e começa a se esfregar na senhorita. Perdoem-me os puritanos de plantão pela imagem, mas ela é fundamental. E quem não viu uma cena dessas no trem nos tempos atuais?
 
Eu, como sempre, comecei a ficar vermelho e sem-graça pelo homem, que não percebia que muitos no trem o observavam e aguardavam a reação da senhorita. Muitos ali eram velhos companheiros meus de viagem, já que pegávamos normalmente o mesmo trem, então mantínhamos uma cumplicidade silenciosa em casos como esse. Nenhum dos dois atores da situação era viajante padrão, eram dois forasteiros, e sua única importância em nossas vidas provavelmente estava naquele momento. Alguns pontos à frente eles desceriam, e nós voltaríamos à nossa rotina.
 
Como eu dizia, esperávamos a reação da jovem senhorita. Eu entendia o porquê do homem aproximar-se justamente dela, apesar da grande quantidade de mulheres em pé- era realmente bela, de feições bem traçadas e um corpo com tudo em cima. O fato é que estávamos acostumados (e aguardávamos efetivamente) ao escândalo que se seguia a uma média de dois minutos de perseguição muda: a mulher tentava se afastar para o lado, e o homem discretamente a seguia. Depois do tempo padrão, começavam os berros, as réplicas, tréplicas e afins. Então tudo voltava ao normal.
 
Aquele dia nada disso ocorreu. A mulher percebeu o homem se aproximando, percebeu que ele encostara nela com outras intenções, mas nada disse durante cerca de cinco minutos. Eu e o passageiro do lado (outro amigo de banco padrão) começamos a nos preocupar. O que acontecia? Por que ainda não começara a gritaria? Será que eram conhecidos? Namorados? Ninfomaníacos com fetiches públicos de voyeurismo?
 
Repentinamente a mulher virou-se para trás e olhou para o homem. "É agora", pensei calado, "agora ela acaba com o sujeito". A mulher então beijou o rapaz de uma forma tão apaixonada e entusiástica que consegui ouvir dois ou três suspiros de admiração ecoarem pelo vagão. Então era isso, eles eram conhecidos. Só podia. Nem minha mulher me beijava daquele jeito, o que dirá dois conhecidos! Se bem que hoje em dia...
 
Nossa estranheza, no entanto, só chegou ao grau máximo minutos depois. Enquanto nos entreolhávamos (quando digo nós digo os passageiros habituais daquele vagão) nos perguntando calados o que era aquilo afinal, a moça soltou-se dos braços do rapaz, que àquela altura já a abraçava e retribuía o beijo, e aproveitou a parada em uma estação para correr para fora do trem. Ficamos tão surpresos quanto o rapaz, que ainda olhava atônito a porta se fechar e a moça observá-lo de fora. Ele se sentou em um banco que acabara de vagar, e ainda com uma feição de estranheza, pouco a pouco começou a sorrir.
24 septembre

Tem texto hoje?

Não tem texto hoje, prezados leitores. Peço desculpas a todos vocês que freqüentam este espaço e fazem a minha vida um pouco mais alegre. Vocês, que ocupam um pouco do pequeno tempo livre que têm para passar aqui, muitos diariamente, e ver quais são as últimas palavras que consegui digitar em meu teclado e tive coragem de colocar em um espaço público. O que é um espaço público sem público, afinal?
 
Não tem texto hoje, queridos. Sei que falhei com vocês, que eu não presto, que sou um insensível aos seus anseios de receber uma mensagem minha. Que me crucifiquem se quiserem, eu mereço. Traí a confiança de vocês, e o pior, sem motivo. Não tenho uma doença terminal que justifique eu não poder levantar-me da minha cama e escrever. Não estive completamente ocupado com coisas importantes para minha carreira, nem estive lendo algum grande escritor. Eu simplesmente estou sem inspiração.
 
Não tem texto hoje, meus caros. Eu poderia jogar a culpa nas musas, sempre elas! Talvez fosse um boicote, já que ultimamente eu as tenho maltratado repetidas vezes. Ou poderia ainda jogar a culpa em uma amiga, que revoltada com as musas e com a inspiração que surge em momentos impróprios, matou-as impiedosamente. Mas eu nunca fui muito preocupado com inspiração, sempre fui mais operário da palavra do que um poeta. Sou um parnasiano frustrado, por isso culpar as musas seria picaretagem demais, até mesmo para mim.
 
Não tem texto hoje, senhoras e senhores. Simplesmente não tem. Eu poderia ser prolixo e "encher linguiça" por muito tempo, pois sou bom nisso, mas acho isso injusto e uma tremenda falsidade com vocês. Por isso despeço-me, e peço que estejam aqui amanhã, onde com certeza um novo texto os aguarda. Porque hoje não tem mesmo. E tenho dito.
22 septembre

Maktub!

A única coisa de que o garoto se lembrava ao acordar era o próprio nome: Leonard. Qual outro fato de sua vida lhe era completamente estranho e desconhecido, assim como o lugar à sua volta. Estava deitado no chão, coberto de areia, em um beco. Pelos muros em volta estava em uma cidade árabe, com certeza. Ou egípcia. Difícil saber, é tudo igual mesmo! No Oriente Médio são todos iguais, todos falam árabe e gostam de explodir americanos.
 
Aliás, pensar nisso deu-lhe um frio na espinha. A primeira lembrança além do nome veio-lhe à mente: era americano. Nova-iorquino, para ser mais exato. Morava no Harlem, inclusive. Mas peraí, se ele morava no Harlem, o que diabos estava fazendo ali? Não era nenhum dos becos de seu bairro, com certeza, e ele conhecia a maioria dos becos próximos à sua casa tão bem que poderia se guiar entre eles vendado. O calor também não era de modo algum o clima do Harlem, ainda mais no inverno. Aquilo com certeza não era seu bairro.
 
Girou, ainda no chão, e viu atrás de si sua bicicleta. Agora ele se lembrava com mais calma, e as coisas começaram a ficar mais claras: junto com alguns amigos ele havia invadido a loja do velho Salim, um arábe que tinha um pequeno armazém no bairro. Sempre faziam aquilo, mas geralmente às escondidas: pegavam alguns doces, escondiam dentro da jaqueta e saíam como haviam entrado. Aquele dia o "líder" deles, Bernie, disse que iam sacanear de vez o velho arábe. "Ele é só um velho, galera, o que pode fazer? Somos muitos, mesmo se ele quiser reagir não conseguirá!".
 
Eles chegariam aos poucos, deixariam a bicicleta posicionada no beco ao lado da loja e entrariam um por vez. Ao sinal de Bernie cada um pegaria o máximo de coisas que conseguisse e correriam. Pegariam as bicicletas e correriam cada um para um lado- plano de gênio. O pequeno e covarde Jeremy levantou a mão, e disse que não queria participar, diziam que o velho Salim era um bruxo, que já tinha amaldiçoado crianças. Todos riram, apesar de ficarem meio nervosos, pois já haviam ouvido aquelas lendas também, e caçoaram do pequeno Jeremy. Depois seguiram como o indicado.
 
Leonard riu, lembrando de Jimmy, mas pouco a pouco seu sorriso foi se esvaindo. Será que havia sido isso, então? O plano fora muito bem até a parte da fuga. O garoto tropeçou em algumas latas e veio ao chão. Quando conseguiu se levantar para fugir, todos já haviam saído da loja, menos ele. Já estava com um dos pés para fora quando sentiu a mão do arábe em seu ombro, e o ouviu sussurrar algo em seu ouvido. Conseguiu se desvencilhar e, tremendo muito, alcançou sua bicicleta. Pedalou como um louco, e alguns segundos depois chegava perto de sua casa. Até desmaiar e acordar naquele beco.
 
Então o velho arábe era realmente um bruxo? Ele havia transportado o garoto para algum país arábe? E se agora ele tivesse de viver ali para sempre? Onde ele estava afinal?
21 septembre

Esperança

Carlos Drummond de Andrade nasceu torto na vida. Pelo menos é o que ele mesmo dizia. Nasceu esquerdo. “Vai, Carlos, ser gauche na vida!”. Sou solidário à causa dele.

Camões dizia que não entendia o mundo. Que de tanto ver os bons serem punidos e os maus homenageados, resolver ser mau e foi castigado. Ou seja, pelo menos para ele o mundo estava direito. Pro resto das pessoas, ele devia ser meio esquerdo também. Um gênio da literatura lusitana que morreu na miséria. Mundo torto esse, meu Deus.

Tenho um amigo chamado Marcos. Outro esquerdo. O tipo de pessoa que se considera o mais azarado da história. Não tiro sua razão. Se algo que ele faz dá certo, pode saber que o beneficiado não é ele. Se conseguir, por milagre, que algo para si seja abençoado pelo destino, logo algo acontece e desfaz esse pequeno erro do universo.

Certa vez ele me contava como tinha se apaixonado por uma garota. Que se imaginava com ela em todas as situações possíveis, que sonhava poder estar com ela o tempo inteiro. Que se dedicava de corpo e alma à senhorita, mas ela parecia não perceber nada. Era como se ele sempre tivesse estado ali. Um elemento a mais no cotidiano dela. Uma peça de decoração, levemente torta e meio feia, mas arte é arte e ninguém critica.

Eu falava a ele que essas coisas são assim mesmo, acontece com todo mundo, que uma hora ela perceberia os verdadeiros sentimentos do amigo e eles finalmente ficariam juntos. E que se isso não acontecesse, é porque ela não era a mulher certa para ele, e que ele encontraria sua cara-metade no momento adequado.

Não que eu acreditasse em uma palavra do que dizia, mas não é função de quem aconselha acreditar no que fala. Não tinha essas ilusões sobre o amor, mas sabia que fazia bem a ele em dizer aquilo. Às vezes, tudo que uma pessoa esquerda precisa ouvir são algumas palavras de apoio. Eventualmente é muito pouco, mas ah! Ele é esquerdo de qualquer forma. Eu não ia dizer a ele “Vai, Marcos, ser gauche na vida!”, ia?

Passamos algum tempo sem nos vermos, o que era completamente compreensível, considerando que ambos andávamos muito ocupados, mas por motivos diferentes. Como não recebia notícias dele, nem sequer imaginava em que pé andava seu “caso” com a dita cuja. Esperava que a situação tivesse se resolvido, pois me compadecia (acreditem, eventualmente eu me compadeço das pessoas) de ver sua expressão sofrida sempre que falava dela. E de fato vim a conversar novamente com ele só quando nos encontramos, por acaso, em um desses cafés da vida.

Ele lia um semanário, enquanto saboreava um café, até minha aproximação. Cumprimentamo-nos efusivamente, e eu logo perguntei sobre a garota. Ele primeiro fez uma feição de estranheza, até eu lembrá-lo quanto tempo fazia que não nos falávamos. Ele então gargalhou (até alto demais para os padrões do local) e disse que não estava mais naquela. Desistiu quando a garota pediu-lhe que a ajudasse a se relacionar com um amigo comum próximo dele. Não pôde deixar de fazer uma expressão chateada nesse momento, mas logo abriu um pequeno sorriso e disse:

- Já tenho outra em vista. Essa é fenomenal, só preciso me aproximar mais e começar a conquista. Com essa vai dar certo, tenho certeza!

            Eu apenas sorri e lhe disse:

            - É, também acho que agora vai!
20 septembre

Grande Feira Brasil 2006

Cheguem mais, dêem aqui uma olhada nos nossos produtos. Escolham sabiamente, para o resultado não sair indigesto nem para sua família, nem para seu bolso! Olha só, olha só, eu vou apresentar as nossas ofertas especiais!

 

Tem esse chuchu baratinho aqui, ó. Veio direto de São Paulo, fresquinho. Esse faz milagres. Dizem que resolve tudo: problemas de saúde, de educação, até dor de cabeça. Acaba com a corrupção e salva a economia sem precisar aumentar os juros. Uma verdadeira panacéia, freguesa. Parece que teve um pessoal querendo fazer campanha contra, inventar um dossiê contra ele e contra um outro chuchu da mesma safra, mas ouvi dizer que é mentira, deve ser conversa de político. De repente ele virou vítima, mas não sei não. Eu acho mais graves as vítimas do PCC lá em São Paulo, né? Sem contar que uns anos para trás já tive problemas com uma verdura dessa safra aí. Mas se quiser levar, pelo menos está barato...

 

Ê dona, tem esse vegetal aqui também. Eu sei que parece lula, e lula é fruto do mar, mas esse aqui é certeza que é um vegetal. Não ouve nada, não vê nada, não sabe de nada, nunca viu mais gordo. Está saindo muito, apesar do que dizem os fornecedores do chuchu. Vendi muito na última feira, mas de lá para cá teve uns problemas com uns bichinhos que foram escondidos  e atrapalharam a vida de quem comprou. Abocanhavam mais do que deviam, roubavam caladinhos e fugiam, sem contar que era muito difícil convencê-los a largar o que não era deles. Deu o maior rebuliço, mas muita gente está voltando e comprando de novo. Uma freguesa disse uma vez que tinha muito medo, mas nunca mais voltou para reclamar, deve estar satisfeita. Se quiser, faço um descontinho especial. Mas fica só entre a gente, hein?

 

Tem essa aqui também, ó madame. Dizem que tem um gosto meio amargo, mas que faz sucesso no Nordeste. Muita gente se assusta, mas parece que a mulherada gosta e aprova. Não sei, freguesa, eu não confio, acho que vai acabar dando o mesmo problema do último. Muita conversa e pouca ação, na hora de fazer mesmo precisa negociar, e aí voltam os bichinhos famintos. Sem contar que ta vendendo pouco, não está fazendo tanto sucesso quanto pensei que fosse fazer. Não que tenha ficado de fato surpreso, nunca esperei muito, mas como fala que é uma beleza, eu achei que ia dar mais resultado.

 

Tem uns outros também, freguesa, mas são tão pequenos e tão vendendo tão pouco que não sei se a senhora vai querer levar. Tem um que dizem que ajuda na educação das crianças, mas eu não sei como funciona, nem se compensa, afinal, a gente tem muitos outros problemas além da educação dos guris, né? E os outros tão vendendo tão pouco... Quer saber, freguesa? Não vou mais falar nada, a senhora olha e escolhe o que mais lhe agradar. Todos podem nos dar alguma indigestão, mas com sorte a gente até consegue um que tenha um gosto razoável, e ajude a gente a engolir essa salada diária mais facilmente.

19 septembre

Ao Cair da Noite

O barulho das gotas na janela era tão suave que a maioria dos enfermos no quarto dormia tranquilamente, como há muito tempo não se via naquele pequeno hospital da vila. Eram sempre poucos os pacientes, não passava de um vilarejo de montanha, e a maioria chegava ali por algum acidente tolo, como uma queda ou manuseio errado de ferramentas. O fato é que aquela noite tinha algo diferente, e não era só a chuva suave que caía.
 
Na última cama do quarto, lá no cantinho, perto de uma das poucas janelas da pequena cabana, estava o louco. Sim, pois era assim que o chamavam na vila há tanto tempo que nem mesmo os mais velhos eram capazes de se lembrar de seu nome. Ele andava pelas ruas sempre a olhar para cima, procurando o objeto de todo seu amor: a Lua. Não uma lua qualquer, em qualquer fase, com qualquer cor. Ele amava a grande Lua cheia dourada que aparecia eventualmente. Naquela região do país, naquela região montanhosa, a lua aparecia dourada muitas vezes, e ninguém sabia explicar se isso começara antes ou depois do jovem louco.
 
Diziam que ele era um jovem normal, como a maioria dos que viviam por ali. Morava com os pais em uma pequena fazenda ao sul da vila, e ajudava o pai na colheita. Era filho único, por isso sentia a responsabilidade de ajudar. E o fazia sempre com um sorriso no rosto. As comerciantes do vilarejo, que iam eventualmente comprar hortaliças para revender na cidade, sempre diziam como ele era simpático, e que a moça que se casasse com ele seria de muita sorte. Um dia, no entanto, ele acordou durante a noite e desceu do sótão, onde dormia, para beber um copo d'água. Foi quando ele viu a lua, enorme, gigantesca e completamente banhada em ouro ali, na sua janela. Ele não conseguia piscar, sequer mover os olhos. Era a coisa mais bela que já havia visto em toda a sua vida. Passou o resto da noite ali, sentado na mesa e observando. Não conteve as lágrimas quando o sol começou a nascer, e chorou até adormecer.
 
Depois daquela noite, o rapaz já não parecia nem um pouco o que já fora. Dormia durante o dia, acordando ao cair da noite esperando sua amada. Quando a lua não aparecia como ele esperava, ele fechava os olhos e chorava a noite inteira, com medo de admirar aquela outra lua que aparecia e trair seu verdadeiro amor. Descobriu que podia ver a Lua inteira do telhado da igreja do vilarejo, e para lá ele seguia todas as noites, aguardando sua amada entoando as mais belas palavras que encontrava. "Eu lhe daria as estrelas, se já não as tivesse, eu lhe daria o céu, se já não as tivesse. Mas tudo que posso lhe dar é meu coração!", ele gritava, sem resposta. Minto, pois um caçador que vivia ali por perto sempre praguejava e ofendia o pobre amante, que lhe impedia o sono. Ameaçava o jovem louco, dizia que se não se calasse ele o calaria pela força. Mas o rapaz não o ouvia, apenas gritava cada vez mais alto, tentando fazer com que a lua o ouvisse.
 
Muitos anos se passaram. Os pais do rapaz vieram a falecer, a fazenda ficou abandonada. O jovem louco vivia vagando pelo vilarejo, dormindo durante quase o dia inteiro, e acordava novamente ao pôr-do-sol, para louvar sua amada. Muitos se acostumaram ao pobre rapaz, as crianças caçoavam dele, mas ele não se importava. Outros se irritavam, agrediam o jovem louco, e ele nem sequer reagia. Se preocupava somente com procurar sua amada nos céus, escrever poemas a ela. E isso cada vez mais irritava seus agressores, principalmente o caçador que não conseguia dormir pelos lamentos do rapaz.
 
Certa noite, a Lua apareceu mais dourada e bela do que nunca. Uma lua plena, completa, que nunca estivera tão cheia. O jovem louco escalou rapidamente o telhado da igreja, com a experiência de anos que tinha, e começou a ler para a lua seu último poema. Daquela vez ele gritava alto, como se sentisse que aquela era sua chance, que a Lua estava lá para ouví-lo. Pegou seu melhor poema, o que escrevera mais inspirado e apaixonado. Começou adeclamá-lo a plenos pulmões, e acordou todos os do vilarejo. As moças saíam à janela e ouviam aquelas palavras, e dentro de cada uma elas sentiam o amor fluindo da voz do louco e se espalhando pela pequena vila. Eram, de fato, as mais belas das rimas já ditas pelo louco poeta, e quando todos ouviam-na atentos, o poeta calou-se.
 
Uma flecha, disparada da janela de uma das casas à volta, a do caçador, alojara-se em seu pescoço. O jovem se desequilibrou, e caiu do adro da igreja antes que alguém pudesse fazer qualquer coisa. Quando o padre saiu à porta, junto com outras pessoas, viu que o rapaz ainda respirava, com dificuldade, mas estava vivo, e era o que importava. Levaram-no para a pequena cabana no fundo da igreja, que servia de hospital. Era onde ficavam os enfermos, à espera da morte ou de um milagre. E lá, em uma cama próxima à janela, colocaram o jovem louco, que tentava respirar e olhar pela janela, uma última vista de sua amada.
 
Ela não estava lá. O que havia era uma grande lua vermelha, como nunca havia sido vista naquelas paragens. Uma lua escarlate, como se sangrasse. E a chuva que caía, aos poucos, suave, molhando a noite, nunca tivera um gosto tão salgado.

18 septembre

Não, não é isso não...

Bem, baseado em um e-mail que li algum tempo atrás eu resolvi escrever algo parecido, definindo o que seria o amor...
 
Amor não é aquilo que te leva para as nuvens. Isso é avião. Amor é o que te dá a sensação de estar nas nuvens, mas se você não ficar esperto e manter os pés no chão, a queda será grande.
 
Amor não é aquilo que te deixa imune a tudo, sem sentir dor alguma. Isso é lepra. Amor é aquilo que "dói e não se sente", uma dorzinha que a gente gosta de ter, isso é claro, quando é correspondido.
 
Amor não é aquilo que te impede de dormir, deixando sua mente ligada e pensando em todos os detalhes. Isso é cafeína. Amor não te impede de dormir, mas sim te mantém acordado e sonhando o tempo inteiro.
 
Amor não é aquilo que te faz ouvir sempre as mesmas coisas, com a mesma voz, a qualquer momento do dia. Isso é horário político. Amor te faz imaginar as coisas boas que você ouve na voz da pessoa amada.
 
Amor não é o que te faz ver borboletas multicoloridas, flores e sentir uma brisa que nem parece existir ali. Isso é LSD. Amor te faz sentir as coisas que estavam sempre ali, mas você estava ocupado demais para perceber.
 
E finalmente amor não é "contentamento descontente". Isso é síndrome de maníaco-depressivo. Amor é estar alegre quando estamos perto da pessoa amada, e a tristeza da saudade quando estamos longe. E uma das coisas mais maravilhosas que pode existir é essa tristeza se tornar alegria quando os amantes se encontram.
17 septembre

Dois de Paus

Eu devia levar uma surra por tentar falar de um tema como o amor. Grandes mestres já falaram sobre esse sentimento. Machado de Assis, com um conto belíssimo chamado Ex Cathedra (recomendo aos que se consideram mais racionais), Vinícius de Moraes com seus sonetos, Joelma com suas belas melodias. Ah, para quem não sabe, Joelma é a vocalista do Calypso. De qualquer forma, resolvi tratar do assunto, que nunca foi minha especialidade nem na língua nem na pena. Talvez na mente, onde posso imaginar toda e qualquer forma de história amorosa que desejar, e lá (somente lá, para minha tristeza) elas acabam como eu quero. Aqui, no mundo real e palpável, meus caros, amor é para mim como uma mão ruim em uma mesa de pôquer.
 
Aliás, uma das mais belas metáforas em que já pensei sobre essa porcaria de sentimento. Porcaria sim, pelo menos para esse que vos escreve. Ao contrário do que dizem as frases feitas, não considero o amor o mais belo sentimento que existe. Não o vejo nem bonito nem feio, mas neutro. Afinal, estar apaixonado e ser correspondido é uma das melhores sensações que alguém pode sentir, mas a desilusão de uma paixão não correspondida deve corresponder a um ataque cardíaco, talvez até um parto. Acreditem, posso falar com conhecimento de causa que um ataque cardíaco deve doer menos.
 
De qualquer forma, como eu dizia, o amor para mim é uma mesa de poquêr VIP de um grande cassino. VIP porque as apostas são sempre altas. Para colher frutos no amor o nosso prezado apostador deve investir pesado, não tendo medo de perder. Dizem que os maiores vitoriosos no poquêr são aqueles que sabem a hora de investir tudo e a hora de recuar. Deve ser por isso que eu não ganho em nem um dos dois.
 
Nem sempre é o momento do blefe, assim como no amor nem sempre é momento para sinceridade. Um erro gravíssimo ser sincero demais no amor. A gentil donzela não quer saber a verdade sobre seu vestido alguns números menor do que deveria, ela quer que você diga que ela está lindíssima (ou só linda, o superlativo sempre soa falso). Ela não quer saber se você está inseguro, ou nervoso, ou tímido. Pode parecer meigo no começo, mas incomoda depois de um tempo. Uma hora você deve deixar de lado sua timidez, e ser um pouco mais agressivo. Investir algumas fichas a mais.
 
Mesmo os maiores jogadores não resistem a muitas mãos ruins consecutivas. Não há mulher que aguente um homem que erra várias vezes e não age como se quisesse mudar. Ou às vezes o rapaz é até bem intencionado, mas boas intenções não são necessariamente boas atitudes. Errar e pedir desculpa algumas vezes é válido, mas se isso se repete sempre, melhor pegar suas fichas e procurar outra mesa.
 
Nunca fui um bom jogador de poquêr. Blefo na hora errada, ponho muitas fichas quando deveria guardá-las para uma mão melhor. Acho que sei ler o comportamento dos meus adversários, mas eles me enganam com uma facilidade absurda. Mesmo assim eu continuo investindo, tentando, porque às vezes a única solução é pagar para ver. Como no amor.
16 septembre

A que ponto cheguei... desejando que minha vida estivesse num grau de Djavan...

Eu sei que vai ter gente que vai ler isso aqui e vai me crucificar, mas sem falar nada. Pq me zoaram por ter colocado uma letra do Jota Quest, logo eu, mas não no blog. Ou seja, eu provavelmente vou ouvir um pouco, mas dane-se. É meu espaço, oras, e eu coloco até a tradução da letra do Rebeldes se quiser!
 
PS: A letra não é sobre a realidade, como de praxe. É de como eu preferia que estivesse, no mínimo.
 
Se
 
Você disse que não sabe se não
Mas também não tem certeza que sim
Quer saber?
Quando é assim
Deixa vir do coração
Você sabe que eu só penso em você
Você diz que vive pensando em mim
Pode ser
Se é assim
Você tem que largar a mão do não
Soltar essa louca, arder de paixão
Não há como doer pra decidir
Só dizer sim ou não
Mas você adora um se

Eu levo a sério mas você disfarça
Você me diz à beça e eu nessa de horror
E me remete ao frio que vem lá do sul
Insiste em zero a zero e eu quero um a um
Sei lá o que te dá, não quer meu calor
São Jorge por favor me empresta o dragão
Mais fácil aprender japonês em braile
Do que você decidir se dá ou não.
 
Djavan
11 septembre

Deus Ex Machina (1)

Esta é a versão definitiva do meu artigo. Esta semana ele deve entrar no Campus Online, aqui da UnB. Então leiam e comentem, certo?
 
Deus Ex Machina
 

Muitas tragédias gregas eram desenvolvidas em tramas completamente mirabolantes e inverossímeis. Seguiam assim durante todo o tempo, até que ao seu final um artifício era empregado pelo autor: um deus aparecia e amarrava todas as pontas soltas da história. Era o solucionador, a figura mítica responsável por resolver todos os problemas, o herói da trama. E ele aparecia no palco pendurado em uma máquina, uma espécie de guindaste. Era o deus ex machina, o que em latim significa literalmente “deus vindo da máquina”.

 

            A política brasileira tem se aproximado bastante de uma tragédia grega, que se encerra com as eleições a cada quatro anos. As pontas soltas são as mesmas, sempre: segurança, saúde, educação, transporte. E começam a surgir os nossos deuses vindos da máquina, os nossos heróis - políticos que resolverão o que jamais foi resolvido. Sejam candidatos a deputado ou a presidente, todos prometem até as calças (se for preciso) em busca do cargo.

 

            É um quadro banal, convenhamos, comum mesmo. Já seria problema suficiente se não fossem ainda as ferramentas aplicadas. Nossos políticos não querem ser só deuses metafóricos, querem ser os representantes dos deuses (independente de quais sejam) entre os homens. Deixaram de ser marajás para se tornarem faraós. Com a diferença de que agora precisam levar aos fiéis, digo, os eleitores suas propostas, convencendo-os ao voto. E quem melhor que os sacerdotes para fazer essa integração?

 

            Por todos os lados vemos religiosos se entregando à política. Muitos se tornam candidatos, e levam ao púlpito das palavras divinas as palavras seculares da política. Ao invés de falar de salvação pela fé, falam da salvação pelo voto. Somente eles podem ser capazes de levar ao povo sofrido o pão de cada dia, são os verdadeiros salvadores, os solucionadores. Heróis modernos.

 

            Outros preferem permanecer na campanha. Não se arriscam em uma candidatura, mas escolhem uma para endossar e seguem com ela. “Irmãos, este homem fará muito por nós!”. Nós quem, padre, pastor, pai-de-santo ou líder religioso qualquer? Nós quem? Antes de fiéis as pessoas fazem parte do povo, de um eleitorado que deve ter consciência da importância de seu voto. Se o responsável por trazer a palavra divina indica alguém, esse alguém passa a ser uma espécie de escolhido dos céus, aquele que deverá trazer ao povo sofrido a redenção, afinal.

 

            Um líder religioso pedir votos é uma vergonha completa: para a religião a que pertence, para os princípios que prega, e para os fiéis que o seguem. Foi-se o tempo em que o Estado era um associado da religião, e os líderes espirituais influenciavam nas decisões políticas e vice-versa. Hoje o Estado é laico, religiões oficiais não existem mais, porém a manipulação do povo crente para fins escusos persiste. E enquanto esperamos o nosso verdadeiro deus ex machina, seguimos em nossa tragédia diária.

(Título a definir)

Não, meu caro leitor. Não é mais um dos meus textos de leitura potencial que você odeia, porque eu deixo o final aberto demais. É um daqueles que fazem esse espaço ter a função que os blogs tinham em seu começo: um diário na internet. É uma idéia idiota, de fato, pois um diário deveria ser um livro onde você escreve seus segredos mais obscuros, logo depois do famoso "Querido diário". Se você os publica na internet, deixando ao alcance de todos, algo está errado.
 
Concordo com isso, mas eu me sinto melhor escrevendo e permitindo que outras pessoas leiam. Normalmente isso atrai a pena e a compaixão de quem lê, e eu ouço uma ou duas frases de apoio que, falsas ou não, surtem efeito em mim. Sim, eu sou carente de confetes, preciso que me digam que sou um bom escritor, que a vida é injusta comigo, ou os dois juntos. Infelizmente ultimamente o blog não tem ajudado nesse sentido: o único que se dispõe a comentar é o Jezuis, que por mais amigo que seja, não é do tipo que joga confetes: tá mais para aqueles que tiram com sua cara e riem da sua desgraça. De qualquer modo, eu ainda tento, porque sei que alguns lêem e não comentam, então eu ainda ouço as palavras de apoio fora daqui.
 
Bom, como eu dizia (e para variar comecei o texto sem falar nada relacionado ao tema original), chegou a hora de desistir. Sim, incautos leitores, estou falando de algo que normalmente prefiro esconder, distanciar ao máximo dos meus textos: minha situação amorosa. Fora um ou outro comentário que surge fora do meu controle em textos aleatórios, a minha vida romântica normalmente é problema meu e de uns poucos sofredores que aguentam meu choro e problemas fora daqui. Hoje, no entanto, vim lhes dizer toda a verdade. Abrir meu corazón, expondo os átrios e ventrículos ensangüentados. Nossa, ficou parecendo nome de novela mexicana: "Átrios da Paixão".
 
Bem, vou resumir que a "paradinha" é simples. Quer dizer, simples de explicar e entender, difícil de resolver. Como um bom sofredor que sou, entrei num daqueles becos sem saída: me apaixonei por uma mulher compromissada, e me estrepei. Achei que ia dar certo, achei que seria correspondido, mas meu pé-frio congelou de vez. Para variar ("nossa, que exagerado" dirá você, e eu direi "nada, é só minha vida") a coisa não fluiu como eu queria, e a cabeça entendeu, mas o coração, que devia entender não entendeu. Eu sei que o coração, no sentido sentimental da coisa, está na cabeça também, mas dane-se: tenho licença poética. E estou com o coração partido.
 
Sei que não faz diferença para vocês o que digo aqui (desculpa para quem sente que faz a diferença), e que nada que vocês disserem poderá mudar o que sinto. Mas vamos lá, povo, quero um pouco de compaixão agora. Sou um sofredor e preciso de duas coisas: palavras de ternura (nossa, nem parece comigo) e de um título, que sempre defino ao final do texto...
5 septembre

Deus Ex Machina

Texto provisório para publicação no Campus Online. Caso seja publicado eu coloco aqui o link!

Deus Ex Machina

Muitas tragédias gregas eram desenvolvidas em tramas completamente mirabolantes e inverossímeis. Seguiam assim durante todo o tempo, até que ao seu final um artifício era empregado pelo autor: um deus aparecia e amarrava todas as pontas soltas da história. Era o solucionador, a figura mítica responsável por resolver todos os problemas, o herói da trama. E ele aparecia no palco pendurado em uma espécie de guindaste. Era o deus ex machina, o que em latim significa literalmente “deus vindo da máquina”

As eleições têm se aproximado bastante de um final de tragédia grega. As pontas soltas estão surgindo há muito tempo: habitação desordenada, transporte irregular e caro, saúde em estado calamitoso. E começam a surgir os nossos deuses vindos da máquina, os nossos heróis, os políticos que resolveram o que jamais foi resolvido. São candidatos ao governo, ao Senado, ao Congresso e à Câmara, que prometem até as calças para serem eleitos.

Isso não seria tão preocupante (já que é tão comum) se não fossem as ferramentas aplicadas. Como alcançar a platéia, digo, o eleitorado com suas propostas? Como angariar seus votos para se tornar o novo salvador? Quem sabe a religião não seja uma idéia? Afinal, há muito tempo os religiosos ditam o que deve ser pensado e feito pelos fiéis. Se o padre, pastor, pai-de-santo ou líder religioso, que é a palavra de Deus na terra, indica o candidato, ele deve ter seus méritos, certo?

A religião e a política têm mantido uma relação cada vez mais promíscua. Religiosos migram para a política, saem da divulgação das leis divinas para a criação das leis terrenas. Políticos vão a cerimônias ecumênicas pedir votos e o apoio do líder. “Votem neste homem, irmãos, ele fará muito por nós!” Nós quem? A população, o povo, ou os fiéis? Até onde vai este sectarismo? Não bastam os candidatos que se apresentam como Fulano da Feira, ou Ciclano da Ambulância (curiosamente esse último anda desaparecido), agora vamos votar de acordo com nossa profissão, sexo ou religião?

Um líder religioso pedir votos é uma vergonha, para os princípios que prega e para seus fiéis. Por muito tempo política e religião, o Estado e os líderes espirituais estiveram ligados, associados, juntos em seus ideiais. Os tempos mudaram, o Estado tornou-se laico, não existe mais a “religião oficial”, porém as influências, a manipulação do povo crente, tudo isso persiste. E enquanto isso esperamos um verdadeiro deus ex machina, que ajude a resolver a nossa tragédia diária.

4 septembre

Telefone sem fio

 
A jovem senhora descia tranquilamente a rua. Levava uma cesta daquelas de feira repleta de verduras. Parecia desatenta, como se não estivesse com o pensamento ali, e sim em qualquer outra coisa distante dali. Era uma rua repleta de pequenos sobrados, que pareciam estar lá desde sempre. Era a mesma coisa com as pessoas que ali moravam. Eram em sua maioria senhores e senhoras já idosos, que passavam os dias jogando damas, xadrez ou mesmo conversa fora. Naquele momento, aliás, duas dessas senhoras se encontravam numa janela de um daqueles sobradinhos. E não puderam deixar de notar a jovem senhora que descia a rua tranquila, como se fosse uma adolescente.
 
- Aquela ali não é aquela mulher da rua de baixo, a...
- Renata. O nome dela é Renata.
- Isso. Renata. Ela não ficou viúva recentemente?
- Ficou sim, menina. O marido dela foi o que morreu na cama de outra.
- Foi ele? Foi o marido dela que morreu na cama com a Maria da Lourdes? Eu pensei que tinha sido o marido da Lúcia...
- Não, acho que foi ele mesmo. O marido da Lúcia morreu de desastre na estrada. Tadinha, viúva tão nova...
 
A jovem senhora, que agora tinha um nome, continuava em direção à própria casa. Usava um vestido de cetim vermelho, na altura do joelho, e sandálias sem salto. A rua era formada por pequenos paralelepípedos de pedra, o que tornava a simples tarefa de caminhar por ela um exercício de concentração intensa. Renata, no entanto, seguia a uma velocidade razoável, quase saltitando.
 
- Ela não parece estar triste. Eu, quando o Francisco (que Deus o tenha) morreu, fiquei de luto durante uma semana, como minha mãe ensinou...
- Eu lembro, claro que lembro. Nossa, foi tão triste. O Francisco sempre foi um amor de pessoa. Com as crianças principalmente, né?
- Pois é, os meninos o adoravam. Mas essa Renata, ela até parece feliz! Chega a ser ofensivo com o morto.
- Não sei não, menina. O marido dela a traía, eu a entendo. Imagina ver o marido morrer na cama de outra? Ainda mais uma amiga tão próxima como era a Maria da Lurdes. Aliás, a Lurdes deve estar sofrendo horrores com esse escândalo. A filha envolvida com homem mais velho, e casado ainda.
- É, mas mesmo assim. Cadê o respeito com o falecido?
 
Renata passava exatamente embaixo do sobrado agora. Era possível a alguém um pouco mais atento perceber um pequeno sorriso surgindo, e as senhoras conseguiram ouví-la cantarolar uma pequena polca. Ela já não se preocupava mais com a rua, e literalmente saltitava, como se dançasse.
 
- Vê? Ela está até cantando! Isso é um absurdo. Eu que não converso mais com uma descarada dessas...
- Você nunca andou com ela! Aliás, depois que o marido morreu, todas paramos de falar com ela. Fiquei até com dó, coitadinha. Quando o Chico morreu todas nós te apoiamos, lembra. Por que com ela deve ser diferente?
- Ah, mas vai querer comparar meu Francisco (que Deus o tenha) com aquele marido da Renata? Ele se deu ao desfrute com a amiga da mulher!
- Tudo bem, eu concordo, mas ainda acho que devíamos dar apoio a ela. Deve estar sendo um momento difícil.
- Não parece...
 
O final da rua ia se aproximando. Em logo a jovem deixaria a rua, e entraria em sua humilde casa na via de baixo. Dançando uma canção imaginária, ela não se importava nem um pouco com a possiblidade de estarem criticando-a. Era normal, já se acostumara a ouvir os sussurros, aquelas velhas falando, e falando, e falando. Não fazia diferença nenhuma, no final. Não mesmo. Parou por um momento, deu um grande sorriso para trás, como se sorrisse para todos na rua, e virou a esquina.