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November 08 Tempos de MudançaOs Estados Unidos elegeram o primeiro presidente negro, em uma eleição histórica. São tempos de mudança, como anunciou o vitorioso, e eu entro na onda. Para quem não sabe, troquei de blog e agora estou dando minhas opiniões em http://oopinioso.wordpress.com . Marcelinho, o Opinioso, de cara nova. YES, WE CAN! October 15 Marcelinho, o Opinioso, comenta: "É casado? Tem filhos?"Estourou minha cota de paciência com bobagens da imprensa a história da propaganda eleitoral da Marta Suplicy sobre a vida pessal do Kassab. Sério. Tanto que resolvi voltar à seção "Marcelinho, o Opinioso, comenta" para tratar do tema. Não que seja exatamente um sacrifício dar minha opinião sobre isso. Mas esse espaço é mais como um alívio catártico, um cantinho que me permite desabafar e desestressar sem gastar fortunas com terapia.
Quem não sabe do que estou falando precisa ler mais jornais ou frequentar mais sites de notícias na internet. Não se falou de outro assunto essa semana. Acontece que na volta do horário eleitoral gratuito para o segundo turno da eleição para a prefeitura de São Paulo, a candidata do PT Marta Suplicy trouxe uma inserção em que um locutor perguntava, entre outras coisas, se o o eleitor sabia se o outro candidato, Gilberto Kassab (do DEM) era casado e se tinha filhos. Em resumo, a peça tratava do passado de Kassab, no qual a campanha de Marta está se focando agora, discutindo suas antigas ligações políticas.
De repente, começou o chilique. Por que? Porque algumas pessoas interpretaram que na verdade a pergunta era uma forma subliminar de se questionar a sexualidade do candidato à reeleição. É importante esclarecer que esse tipo de boato sempre existe, mais nas redações do que entre o povo propriamente dito. Jornalista é cheio de citar comentários maldosos que ouviu de inimigos ou mesmo de amigos de políticos. Nesse caso não podia ser diferente, mas a coisa extrapolou para as manchetes e se tornou o novo escândalo. Parodiando Titãs, "o maior escândalo dos últimos tempos da última semana". Editoriais terríveis, colunistas em polvorosa e gente decretando que isso manchará para sempre a carreira de Marta.
Nossas avós sempre disseram que muitas vezes a maldade está nos olhos de quem vê. Acho que aqui é disso que se trata, mas com um pouquinho de interesse escuso envolvido. Corro o risco de ser já imediatamente tachado de petista (ou pior, de petralha), mas me arrisco a analisar o fato. É realmente importante saber se um candidato a prefeito é solteiro, casado, viúvo ou namora? Nem um pouco. Isso não quer dizer, no entanto, que sua vida pessoal não seja importante. Homem público nunca terá uma vida pessoal completamente dissociada de sua carreira. Isso pode se dar pelo envolvimento de coisas públicas com o o privado (caso do ex-presidente do Senado Renan Calheiros) ou pelo simples fato de eventualmente segredos aflorarem. Quantas autoridades inglesas volta e meia não renunciam após aparecerem em algum tablóide com uma prostituta. Ou um michê?
Uma comparação ainda mais esdrúxula surgiu em outros momentos: comparou-se o fato ao episódio da eleição em 1989, quando Collor, vendo-se ameaçado por Lula, pagou para que a ex-mulher do atual presidente gravasse uma entrevista falando que Lula hava pedido que ela abortasse. Primeiro: aborto é bem diferente de opção sexual. Aborto é crime, e naquela época a sociedade era ainda menos tolerante com esse tipo de coisa. Além disso, a coisa foi completamente explícita. Agora, algumas pessoas que assistiram ao vídeo de Marta em fase de teste sequer consideraram a possbilidade de se estar discutindo os gostos de Kassab na cama. Obviamente não havia nenhum jornalista no grupo.
Me interessa saber se o Kassab é gay? Não. Mas se ele for, e se esconde isso, é problema meu? Pode ser. A idéia nesse caso é sempre discutir o que mais ele pode estar escondendo, e não se ele está ou não trancado em algum armário por aí . Políticos são hábeis na arte de ocultar rabos presos (com o perdão do trocadilho) de suas vidas pregressas. Nos Estados Unidos, o tão aclamado berço da democracia, praticamente toda disputa presidencial é cheia de dossiês e coisas arremessadas no ventilador. Aqui a gente tem uma tradição de jogo sujo só por baixo do tapete, deixando para a tela da televisão só sorrisos e propostas. Marta errou? Errou. Em campanha ganha quem consegue prever o máximo de movimentos à frente, como no xadrez. Isso tem que incluir mal-entendidos e interpretaões bizarras da mídia. Cochilar nisso pode ter custado a ela a chance de se eleger. October 07 "Rastafáris" no porãoMeu vizinho fuma maconha. Não ia nem falar sobre o assunto, mas quando me preparava para escrever mais uma obra prima de análise econômica senti o cheiro subindo pela varanda. Sim, é o vizinho do apartamento de baixo. E ele fuma praticamente toda noite, o que explica um pouco melhor minha revolta em relação ao tema. E talvez as piadas que eventualmente escrevo por aqui à noite e não acho a menor graça no dia seguinte.
Não sou careta. Conheço muita gente que já fumou, fuma às vezes ou fuma regularmente. Não me importo, acho que cada um faz o que quer. E nem começo com discursinhos como "se quer destruir o próprio pulmão e o cérebro é problema dele". Sério, não me importo mesmo. Desde que não suba pela minha varanda toda noite. E é como se ele fizesse questão de colocar um ventilador, mandando a fumaça para fora e a colocando diretamente em rota de colisão com meu apartamento. E aí ele fica com o que aparentemente leva todo mundo ao consumo, que é o barato, e para mim sobra só o cheiro incômodo. Não que eu quisesse trocar de papéis, eu simplesmente preferia que eles não existissem.
Talvez eu não devesse tornar a história inteira pública. Não tenho prova nenhuma do que falo, exceto talvez o depoimento de alguém que já frequentou suficientemente festas de faculdades de humanas para identificar esse tipo de coisa no ar. Talvez nem seja o vizinho exatamente abaixo, pode ser o de algum outro apartamento do andar, ou mesmo alguém do meu andar que aproveita uma anomalia nas correntes de ar que circulam o prédio para infernizar minhas noites. Provavelmente é o rapaz do saxofone, que de vez em quando resolve ensaiar nas manhãs de finais de semanas. Um me dá sono, o outro me acorda - uma bela dupla, diga-se de passagem.
Volta e meia me perguntam o que penso da descriminalização da maconha. Como se minha opinião fosse importante, ou como se eu fosse fazer campanha para qualquer um dos dois lados. Uns argumentam que o tráfico alimenta o crime, outros que se fosse liberado teríamos uma quantidade de viciados semelhante à dos cigarros normais, mas com uma substância mais nciva. Para ser sincero, não ligo muito. Desde que não aumente a quantade de fumaça chata entrando no meu quarto toda noite! October 01 De 0 a 10O ser humano classifica tudo. Sempre classificou. Não estou falando de nada científico, como tabelas periódicas ou números primos. Estou falando de coisas banais, como dar notas para jogadores de futebol após uma partida, a hamonia de uma escola de samba ou mesmo nádegas (a popular bunda) que eventualmente passam em frente a uma mesa de bar. Somos sempre tentados a dar valores numéricos às coisas, ou separá-las em categorias por cheiro, tamanho, forma, cor. Pensamos que podemos controlar o que classificamos, mesmo que sejam furacões devastadores. Como se a natureza se importasse com a escala Richter na hora de sacolejar o Japão.
Às vezes chegamos ao absurdo de querer analisar coisas abstratas. Emoções. Inteligência. Testes de QI são particularmente perturbadores para mim - com um 100 você é normal, abaixo você tem problemas, acima você é superdotado. Curioso é que um 140 não garante a você ser popular na escola, ou pelo menos amizades. Talvez porque o número não esteja na sua testa, ou talvez porque medir algo assim seja tão bizarro que a natureza faz questão de te castigar com a solidão eterna. Medimos até a dor - nunca passei por um parto, mas me dizem os médicos que o sofrimento de ter algo de alguns quilos saindo de você equivale ao de um infarto ou de problemas no dente.
Comecei a pensar recentemente em outras possibilidades igualmente esdrúxulas, como classificar nosso nível de felicidade, por exemplo. Sempre acreditei que felicidade é o nome bonito dado a um estado de alegria que dura mais do que o esperado. Como se a dopamina que permeia nosso cérebro em momentos de prazer demorasse um pouco mais do que o normal para ser metabolizada. De qualquer forma, imagino uma pesquisa em escala mundial, ou pelo menos nacional, sobre quão feliz um indivíduo se sente. Isso poderia contar pontos na escola, em entrevistas de emprego, entre outras. É uma idéia.
- Com licença, senhor.
- Pois não?
- Estamos fazendo uma pesquisa sobre o nível de felicidade das pessoas. O senhor se importa de participar?
- Olha, adoraria, mas estou um pouco ocupado agora...
- O senhor é feliz em sua vida profissional?
- Ahn... Bem, às vezes eu me atraso, mas é que eu enrolo um pouco para deixar meu filho na escola e...
- Hum... (anotando algo no papel)
- Ei, o que você está escrevendo aí?
- Nada, nada.
- Você anotou alguma coisa aí sim, que eu vi. O que é?
- Calma, calma. Que nota de 0 a 10 daria para seu nível de tolerância? O senhor sempre fica irritado assim facilmente?
- Eu não estou irritado! Só quero saber...
- Hum... (anota novamenta algo no papel)
- Ei, o que você escreveu agora? Eu disse que não quero participar da pesquisa!
- Tudo bem, eu entendi. É comum o senhor não querer ajudar outra pessoa que precise? Entre péssimo, ruim, regular, bom e ótimo, como o senhor classifica o seu nível de altruísmo?
- Eu só não quero participar dessa pesquisa!
- Hum... (anota)
- Olha só, eu estou fora! Já disse que não quero participar e não vou. Passar bem!
- Claro, claro. Obrigado! (e continua baixinho) Problemas no trabalho, culpa a família, se irrita com facilidade, pouco solidário. Vou dar um 3.
É, talvez não desse muito certo. Pelo menos eu passaria de ano. Por pouco, mas passaria. September 19 Marcelinho, o Opinioso, comenta: Gilmar, o opiniosoComeço a achar que esse blog vai virar uma eterna sessão de "Marcelinho, o opinioso, comenta". O que, aliás, me leva a crer que eu merça o título. O fato é que perdi a paciência, simplesmente não aguento mais ler sem falar nada a tantas declarações diárias do meretíssimo presidente do Supremo Tribunal Federal Gilmar Mendes. Pelo amor de Deus, alguém faça o homem parar!
Aposto com qualquer um que todos os dias os jornais publicam pelo menos uma declaração do ministro. O que leva à grande questão: terá ele tanto assim a falar? Sei que é um magistrado brilhante, um dos grandes estudiosos do direito constitucional do país, entre outras coisas, mas presumir que por isso ele possa comentar tudo... é exagero. Por essa lógica, não deveríamos ter reclamado quando o goleiro Julio César criticou o presidente Lula- ele também é importante, a seu modo, para a nação! Conhecimento não é motivo para demonstrações de saber. Ainda mais quando ninguém te perguntou nada.
Ver o homem falar todo dia me ensina valorosas lições sobre como agir em minha vida pessoal. Começo a perceber como meus comentários constantes provavelmente irritam quem acha que eu deveria simplesmente calar minha grande boca em alguns momentos. Percebo também que ser presidente do STF te dá a visibilidade necessária para ser ouvido sem muita contestação, o que confunde quem vê o presidente Lula ser contradito a cada 5 ou 6 minutos na imprensa. Não estou defendendo o presidente, de fato ele fala muita bobagem às vezes, mas não concordo que existam dois pesos e duas medidas: o único que teve peito até agora para peitar Gilmarzão foi o procurador-geral. E mesmo assim receoso, sem bater de frente.
Algumas pessoas me disseram que como presidente do STF é prerrogativa dele falar o que achar necessário. Não concordo, e assim como o tribunal, me baseio em jurisprudência. Alguém lembra a última opinião polêmica da Ellen Grace, ministra que acabou de deixar o posto? Não, porque ela agia como o poder judiciário: quando solicitada. Agora não: "pê" da vida com a história dos grampos, Gilmar pegou o carro e junto com outros dois ministros foi até o Palácio do Planalto cobrar uma explicação de Lula. Se acontece o contrário já tinham tirado o Lula do lugar.
Aliás, acho que é isso que me irrita mais. Perceber que ninguém quer contrariar o cara. Todo dia ele fala algo, critica Deus e o mundo, legisla através do STF ou do CNJ e ninguém fala nada. Eu não sei se é medo, ou se as pessoas preferem agir com ele como agem comigo: "não adianta discutir, ele não vai mudar mesmo". Espero que não seja isso. Sinceramente. Ou a democracia que o Gilmar tanto defende e aprecia estará indo para o ralo. September 17 Marcelinho, o Opinioso, comenta: Crise AmericanaQuem leu o último post entenderá o título desse post, quem não leu que leia (vai ter que procurar, não sei colocar link aqui). Mas resolvi que de agora em diante, sempre que for dar minha opinião "altamente gabaritada" sobre assuntos de atualidades o post terá esse subtítulo de "Marcelinho, o Opinioso, comenta". É o apelido carinhoso (ã-rã) que recebi no trabalho pela quantidade absurda de manifestações diárias que faço sobre os assuntos mais variados. E essa última frase é basicamente um grande resumo do post anterior.
O fato é que começo a achar que fica feio para um jornalista blogueiro não comentar eventualmente assuntos mais atuais e interessantes do que a própria vida. Sei que provavelmente meus valorosos leitores estarão mais interessados em minha vida do que nas tragédias mundiais diárias, mas dane-se. Quem manda aqui sou eu, e eu decido que vou falar sobre fatos e pronto. Oras.
Começo essa seção justamente com o tema do momento: a crise americana. Perguntará meu desavisado leitor: "que crise?" Pois foi exatamente essa pergunta que fez nosso presidente Lula quando indagado sobre o tema. Quando explicaram, mandou ele que perguntásemos ao Bush. Como se eu quisesse falar com ele. E como se ele soubesse do que se trata também. O fato é que ninguém tem muita certeza sobre nada na história inteira, e isso já vem lá do começo da coisa toda, no ano passado. O que torna bastante improvável que o Lula esteja falando sério ao dar a entender que não sabe de nada.
Em síntese, a coisa toda começou com a ganância típica dos bancos. Lá pelas tantas, cansados de emprestar dinheiro para quem pagava, alguns bancos ianques passaram a emprestar também para quem tinha nome no Serasa. E que, como já tava ferrado mesmo, topava pagar mais caro pela grana. Só que aumentou a inflação, que o Banco Central americano precisou combater aumentando os juros. As casas que eram dadas como garantia foram para o saco, passaram a valer menos do que antes. E aí quem devia viu que não tinha como pagar e desistiu. Em efeito cascata, quem tinha emprestado foi se ferrando, e levando mais gente junto. Um monte de bancos e empresas foi quebrando ao longo do ano passado, e agora outras gigantes caíram também.
O primeiro resultado legal da história é o que pouca gente parou para pensar até agora: para resolver parte do problema, o governo americano está comprando partes de empresas que estavam indo à falência. É o maior governo capitalista do mundo estatizando o mercado para não quebrar. Marx, dividido entre vários vermes, deve estar morrendo de rir agora. E não estou comemorando de forma socialista: se tivesse tido mais cuidado e mais regulação do mercado antes (ou seja, feito a lição de casa como um liberal bonzinho), talvez o governo Bush não estivesse pagando o pato agora.
Outra coisa legal é ver na prática os efeitos da globalização: a crise que começou nos Estados Unidos arrastou para o buraco a Europa, o Japão e, de certo modo, países emergentes como Brasil e China. Em menor escala, é lógico, mas ainda assim vemos como a economia mundial é interligada. Particularmente, considero que a crise toda é a melhor demonstração possível de que algo defendido volta e meia por economistas, uma tal teoria do "deslocamento", não funciona muito bem. Dizem eles que os efeitos de problemas econômicos de um país não teriam tanta influência na de outros. Bobagem. Taí os japoneses encaminhados para um recessão que não me deixam mentir.
Pergunta meu incauto leitor agora, antes de desistir de toda essa bobagem e ir para algum site de pornografia por aí: "e eu com isso, tio?". Você? Você se prepare para aguentar o tranco, porque isso vai bater aqui. Aliás, já está batendo. Os grandes que têm que pagar lá fora estão tirando dinheiro é do Brasil, o que dá trabalho para nossa bolsa de valores. Hora mais hora menos isso vai resultar em problemas na taxa de câmbio e na inflação, e vai sobrar para o seu bolso, porque vai ficar mais caro desde o arroz com feijão até o carro financiado e o Ipod comprado legalmente (ã-rã). Por sorte, e nisso o governo não está mentindo, estamos bem preparados para o troço todo. Vai doer menos, o que não significa que vá ser só um raladinho. Pelo menos não vai ser uma facada no rim, como foram as crises de 1930 e de 2001.
September 16 Marcelinho, o opiniosoUm colega de trabalho, o qual respeito muito, definiu-me recentemente como “Marcelinho, o opinioso”. E como tal subtítulo revelou-se estranhamente popular na redação, optei por bancar o advogado do diabo sobre o tema dessa vez. A única parte chata é a alcunha demoníaca que a mim passo a atribuir a partir de agora. Sou considerado opinioso pelo respeitável jornalista que comigo trabalha, segundo ele, pela grande quantidade de opiniões sobre os mais variados temas que profiro ao longo do dia, nas mais diversas oportunidades. Começo a tarde comentando as repercussões da crise americana na economia, discuto a crise dos grampos no decorrer da tarde para encerrar o dia com um malicioso comentário acerca do recém-criado LHC e suas conseqüências para o desenvolvimento tecnológico de nosso mundo. Concordo que às vezes eu fale demais, mas se existe algo característico do ser humano é a habilidade de deduzir as coisas a partir de um raciocínio engendrado. Macacos pensam pouco e agem muito, porque se baseiam em seus instintos. São reações muitas vezes desenvolvidas ao longo do tempo por conseqüências freqüentes de seus atos. Os seres humanos também têm isso, mas com um adendo: a capacidade de analisar. Raciocinamos a partir das evidências, dos fatos, antes de concluir as coisas. E é natural que desejemos exercer, ao final de tão penoso processo, nosso direito natural de tornar públicas nossas conclusões. Responde meu admirável colega que tenho conclusões demais para pouca análise, ou seja, deixa implícito que eu raciocine menos do que deveria. Ora, nada posso fazer se, de posse das informações, ponho-me a pensar intensamente. Não conheço ninguém que pense devagar, pelo contrário, é da natureza do pensar a velocidade absurda. Se por acaso faço isso de forma mais veloz do que outros, não há muito que eu possa fazer. Pode-se argumentar que meu problema seja na base: talvez as informações de que disponho ao começar meu raciocínio sejam insuficientes. Mas se formos pensar assim, provavelmente nunca teremos todas as informações necessárias para tudo, tendo sempre raciocínios incompletos. Também gosto de deixar claro que não defendo em momento algum que o penso ou concluo das coisas esteja sempre certo. Posso ser arrogante e pretensioso muitas vezes, mas não nisso. Sei que estou errado na maior parte do tempo, mas não acho que isso deva ser impeditivo. Gosto de falar, em resposta às acusações, que “é melhor ter opinião demais do que não ter”, o que defendo com unhas e dentes. Acredito que pior do que pecar por excesso, nesse caso, é preferir guardar o que pensa dentro de si apesar de discordar. Se fizermos isso, deixaremos de errar, mas nunca teremos a chance de acertar. E aí, aquele “opinioso” que volta e meia dá palpite fala alguma coisa, tem sorte e fica bonito na fita. E nem criticar a glória pouco merecida podemos. August 22 Correções Históricas (atrasada): Vida de PegadorComo podem imaginar, essa é a nova seção fixa do blog, e que já começou bem. Bem atrasada. Era para ter sido publicada na terça-feira, mas eu sou preguiçoso que dói e resolvi ficar assistindo Simpsons em casa, debaixo de um edredon. E ao diabo com minhas obrigações como blogueiro! Discursos à parte, a Correções Históricas tem a minha cara: sou eu tendo a presunção de corrigir a história e atribuindo a conceitos estabelecidos ao longo dos séculos pela sociedade o caráter de "erro". Assim, começo revisando a concepção clássica da vida de um pegador.
Sempre sofri com isso. Todo nerd sofre. A gente passa o final da infância e a adolescência ouvindo a família, os colegas de escola, os primos mais velhos perguntando o tempo inteiro: "Ué, em casa sábado à noite?". Sim, por que? É proibido? Dá cadeia, multa e apreensão da CNH? Parece até que somos alguma sub-raça, doente e fadada à morte sem herdeiros. Não entendem que tem gente que simplesmente não é viciada em sair toda santa noite para a balada, oras. Aliás, palavra horrível essa. Balada. Não sei nem se vem das balas de revólveres envolvidos nas brigas de trânsito da madrugada ou da "bala" que bomba a diversão de playboys e playgirls pelo mundo.
Sou um cara caseiro, adepto de ficar em casa vendo um filminho tranquilo, jogando alguma coisa ou conversando na internet. Não sou anti-social, nem um eremita de quarto dos fundos. Só não tolero os amigos que chamam para sair e depois ficam zombando se recuso. Não é que eu não tenha dinheiro, normalmente até tenho, mas não entendo a lógica de gastar 200 reais com vodca em uma boate até ser capaz de beijar a garota mais feia do lugar.
Aliás, a relação entre mulheres e "baladas" é um capítulo à parte. Cansei de chegar ao final da noite e ouvir "Peguei 15, e você?", "Pô, beijei pelo menos umas 23". Juro que me sinto excluído por estar só com minha própria saliva na boca ao final da noitada. Só que isso não me chateia. Sou do tipo arcaico, que gosta de estar em um relacionamento, que prefere ter uma namorada a tentar lembrar dos nomes de pelo menos metade das periguetes da noite anterior. Poderia até ser considerado um cara romântico talvez. E adoro ser assim, mesmo que tenha que abdicar da diversão de pegar sapinho todo sábado à noite. August 14 Troféus Tristan Tzara de Composição: Cerol na MãoDepois de muito tempo ocupado com coisas realmente importantes para minha vida(diferente desse blog), eu voltei. Não é que de repente eu esteja com tempo sobrando, apesar de ser essa a mais pura verdade. Só trabalhar cansa, mas nada que dormir até dez da manhã não resolva. Desse modo, resolvi reativar esse pequeno espaço de libertinagem de expressão, para aqui deixar algumas de minhas pérolas de sabedoria pensadas e coletadas ao longo de tediosos dias de trabalho. Ou seja, volto a postar nessa joça. Ah, e com novidade: a partir de agora, todas ("todas? não me faça rir") as terças teremos uma seção fixa, cujo nome ainda definirei, já que não pensei em nada engraçado até o momento. Assim, deixo vocês com a outra seção fixa ("fixa?") do blog e uma maravilha do funk carioca, que fez muito sucesso no começo do século. Bonde do Tigrão "canta" "Cerol na Mão".
"Quer dançar, quer dançar
O Tigrão vai te ensinar
Quer dançar, quer dançar
O Tigrão vai te ensinar"
Começou mal. Muito mal. Não sou exatamente um zoológo experiente, mas até onde eu consigo me lembrar, nunca vi um tigre dançando. É claro que já deve ter aparecido por aí em algum documentário da Discovery Channel a dança de acasalamento do tigre-d'água siberiano ou coisa do gênero, mas não consigo imaginar o gigantesco felino fazendo leves movimentos com as garras no ar e carinha de safado. Que, diga-se de passagem, era como os vocalistas dançavam. Memória tem dessas coisas.
"Vou passar cerol na mão
Assim, assim
Vou cortar você na mão
Vou sim, vou sim
Vou aparar pela rabiola
Assim, assim
E vou trazer você pra mim
Vou sim, vou sim"
Que feio! Todo mundo sabe que cerol é proibido! Assim como deveria ser comparar uma mulher a uma pipa. Típico trocadilho infame com a palavra rabiola que, para quem não sabe, é peça fundamental para pipas. É o que mantém o equilíbrio da dita cuja. Ou seja, comparar isso ao "popozão" das funkeiras não é só ridículo como cientificamente incorreto, já que bunda grande, todo mundo sabe, faz é tontear a dona e a molecada que observa. Não fiz pesquisa de opinião, mas acho que dificilmente eu conseguiria trazer uma mulher pra mim assim. Assim.
"Eu vou cortar você na mão
Vou mostrar que eu sou tigrão
Vou te dar muita pressão
Então martela, martela
Martela o martelão
Levanta a mãozinha, na palma da mão
É o bonde do tigrão!"
Três rimas difíceis demais da conta. Demais mesmo. Mão, tigrão, pressão... martelo? Não, martelão! Martelo na menina! Quero crer que isso seja a nossa tradução para o saudoso "Stop! Hammertime!", frase famosa de "U Can't Touch This". Ah, aquilo sim era funk! Funk raiz, como diriam os goianos. MC Hammer sim, era mestre na arte de martelar garotas. Ou tchutchucas. Que seja. No final todo mundo critica, mas dançava isso sim. E quem discorda, que levante a mãozinha para passar o cerol.
July 03 Troféu Tristan Tzara de Composição: Do Leme ao PontalNovamente, nada de posts essa semana. Estava ocupado com a última semana de aula pelos (espero) próximos 6 meses, no mínimo, e por isso não pude... Olha aí, lá estava eu me explicando novamente para vocês. Momento blasé funcional de novo. Essa semana temos um grande cantor. Um grande mesmo, tanto que acabou não tendo mais espaço aqui e foi parar no céu (nossa, que horrível! - a forma da piada, não o conteúdo). Com mania de falar durante as letras e uma voz inconfundível, ele imortalizou poesias como "Azul da Cor do Mar", entre outras. Com vocês, Tim Maia derrapa em "Do Leme ao Pontal".
"Do Leme ao Pontal
Não há nada igual Do Leme ao Pontal Do Leme ao Pontal! Não há nada igual..." (3x) Explico aos incautos: a orla carioca se estende por cerca de oitenta quilômetros, indo... do Leme - bairro nobre da Zona Sul - ao Pontal, que não tenho a menor idéia de onde fica. Juro, não tem "Pontal" no Wikipedia, e o Google também não dá sinal da existência de tal localidade, o que significa claramente que ele é uma criação da mente perturbada de Tim. Se não está no Google, não existe. Sem contar a ênfase no fato de não haver nada igual à tal orla. Mentira! Tudo quanto é praia brasileira tem mulher bonita, sol, água de coco e arrastão. Fica a impressão de que ele pensa que, se falar um monte (um monte mesmo) de vezes a mesma coisa, aquilo vai se tornar verdade. De qualquer forma, deixo um elogio ao mérito de fazer uma música que glorifica o Rio, algo raro na nossa MPB. E sim, eu estou sendo irônico.
"Olha o breque!
Sem contar com Calabouço Flamengo, Botafogo Urca, Praia Vermelha..." Deixei o "Olha o breque" para que os fãs saudosos lembrassem da adorável mania do rechonchudo cantor de salpicar frases no meio da música. E logo em seguida vem uma sequência de (presumo) praias. Problemático. Alguém se candidata a dar um passeio na praia de Calabouço? Ou na Praia Vermelha, que só pode ter esse nome graças a um combo de poluição com algas ou sangue? É, talvez não exista nada igual mesmo. Até vou deixar de lado as praias do Flamengo e Botafogo, para não semear discórdias futebolísticas por aqui. Ou não: ARRÁ, URRÚ, EU SOU LDU! Obrigado.
"Tomo guaraná, suco de caju
Goiabada para sobremesa...(17x)" Isso aí em cima vem logo depois de mais 3 vezes de "do leme ao pontal não há nada igual" e outra sequência de praias da morte. Sabe, esse número aí entre parênteses é sério. É sério, eu contei! Não me espanta que Tim Maia tenha ficado com uma barriga daquele tamanho: o cara almoçava um guaraná com suco de caju só para depois emplacar aquela goiabada, que certamente também vinha com um queijo minas bacana, formando a famosa dupla Romeu e Julieta. Dezessete vezes. Juro por Deus que depois de um dia nesse ritmo eu surtava, e a próxima vez que visse um copo de guaraná eu criaria várias Praias Vermelhas por aí. E me certificaria de que nada igual ocorresse novamente. June 26 Troféu Tristan Tzara de Composição: Só Love
Não postei nada essa semana. Lamento. Não que eu deva explicações a qualquer um de vocês, mas é que sempre fico com algum peso na consciência quando não posto durante tanto tempo. Ainda mais tendo muito o que falar. Por isso fiz questão de dar as caras pelo menos com a seção Tristan Tzara, que é para ser fixa. Por isso, e agradecendo a sugestão do colega e muito melhor blogueiro do que eu Vitor Matos (http://www.ofuror.blogspot.com/), segue abaixo um hit da época em que os bailes funk ainda podiam ser freqüentados por garotas vestindo calcinhas. Com vocês, Claudinho (que Deus o tenha) e Buchecha cantam “Só Love”. “Só love, só love Começo defendendo. Não pensem que é incompetência dos nossos prezados compositores mesclar as línguas inglesa e portuguesa em uma só frase. Marisa Monte fez um sucesso absurdo com “Amor, I love you” e todo mundo chama de gênio. Esse mundo é injusto. Além do mais, vocês podem não ter notado, mas o ritmo de só love dito várias vezes certamente lembrará a ouvidos sensíveis e atentos o som de um coito em execução. Reparem só. “Quero, de novo com você Poético isso. Nada mais romântico do que o rapaz que fala que se “atracar” de novo com a senhorita. Até vejo a cena: ela acorda, cansada da batalha sexual da noite e recebe o animado telefonema do rapaz. Só não entendi o “corpo, alma e coração”. Coração é um negócio à parte? Só não gostei quando o nosso romântico personagem demonstra todo o seu egoísmo. Ele não adora o prazer a dois, ele venera apenas e tão somente o próprio prazer. E todos nós sabemos que fim têm as pessoas que gostam mais do próprio prazer individual do que a dois, não é verdade? Mãos peludas! Quem não entendeu pergunta ao amigo nerd do lado. Agora, aqui está de longe uma das maiores bizarrices que já vi em termos de letra: "controlo o calendário sem utilizar as mãos". Primeiro, calendário sempre me lembra aquelas folhinhas de borracharia com mulher pelada representando cada mês. E segundo, como assim, controla o calendário usar as mãos? Ele faz tabelinha pela namorada? Usa telecinésia? Ou será que ele desenvolveu essa incrível habilidade porque está sempre com as mãos ocupadas demais na obtenção do próprio prazer? "Amor vou esperar Bem, talvez ele não seja tão egoísta assim, e ainda dê alguma chance à namoradinha de se divertir também. Mas pegou muito, muito mal ele falar que sonha, pensa na moça... jogando futebol. Em tempos de Ronaldo, frases como essa podem destruir carreiras! O que me tranquiliza é saber que ele só mandou essa para rimar com sol mesmo. "E mesmo que eu
Arriscasse alguém
Não seria tão bom
Quanto é
Eu não vou confiar
Em ninguém
E nem vou me envolver
Com qualquer
Pra despir toda essa razão
E a emoção transparecer
Deixarei que os momentos se vão
Pra amar
Tem que ser com você"
Desculpa, não tenho nada a dizer dessa parte. Estava desatento, lembrando que o rapaz aprendeu a mexer na folhinha da borracharia na base do poder mental só para estar sempre com as mãos em busca do próprio prazer. E depois ainda tinha a desfaçatez de fazer uma dancinha com a mão... no nariz. Pervertidos. June 20 Troféu Tristan Tzara de Composição: Papo de JacaréAntes de qualquer coisa, pedir desculpas por um dia de atraso no post dessa seção, que deveria ser todas as quintas-feiras. Lamentável. Principalmente porque não há motivo em particular, eu simplesmente fiquei com preguiça. Simples assim. O fato é que dessa vez os astros dessa seção são especiais. Clássico instantâneo à época de seu lançamento, essa música alçou seus poetas compositores ao estrelato, permitindo que eles se apresentassem até no Criança Esperança e fossem trilha sonora de uma novela das sete. Inovadores, definem seu próprio ritmo como uma mistura de reggae, rock, funk, maracatu e baião. E acreditem se quiserem, eles são goianos: as pessoas nunca me deixam esquecer disso. Com vocês, P.O. Box canta Papo de Jacaré.
" Tô viajando na onda
Dessa menina Que dá aula de inglês Toma vinho português E vive rindo Da minha ignorância Mas a minha tolerância Vai fundir a sua cuca..." Até aí tudo bem. Somos apresentados ao nosso caríssimo capiau, que se apaixona pela professorinha de inglês de classe média (afinal de contas, ela não toma nenhum Romanée-Conti, mas também não apela para o Mioranza), e que sofre por isso. Pudera. Se apaixonar por alguém que é professor no Brasil e ri dos outros é de chorar mesmo. Mas ele persiste, e vai demonstrar a nosso pequeno pedaço de arrogância da classe C que é um rapaz tolerante. Proeza nos tempos de hoje. Uma última confissão: eu juro que sempre entendi que a dita cuja dava aulas de inglês em um navio português. O que sinceramente parecia bem mais bizarro.
" Vou te bater uma real
Vou dizer que sou o tal Bater um papo no café É papo de jacaré Mas vê se fala por favor A minha língua Que já tem até uma íngua Por causa do seu inglês" Até agora eu simpatizava com o nosso protagonista, rapaz pobre da roça que se apaixona pela princesinha de papel culta. Mas ele chega nela como um legítimo peão, vamos concordar. Imagine a distinta leitora que encontra-se em uma cafeteira, a ler algum desses semanários gratuitos, quando chega um rapaz todo pimpão e manda um "Sou o tal". Já é ou já era? E eu sinceramente não tenho a menor idéia do que seja um papo de jacaré. É tipo, conversinha mole antes de comer? Quero acreditar que ele falou todas essas bobagens por causa da íngua na língua (rima pobre, mas fazer o que? O menino é da roça). Diz papai Aurélio que íngua é um linfonodo, um ingurgitamento dos gânglios linfáticos. Salvo engano, o negócio fica cheio de pus. Nojinho.
" Eu não sei falar
Também não sei entender Sou só só só suburbano Sou latino-americano... Sei quem é fulano Mas não sei quem é cicrano E o seu inglês Fica pegando no meu pé... Diz que vai me ensinar
Então diga como é! (4x)"
Bom, pelo menos o garoto reconhece sua condição. Não que ser suburbano, e muito menos latino-americano, seja desculpa para não conhecer o idioma inglês. Mas admitir a ignorância é o primeiro passo. Aliás, rolou uma gaguejada bacana no "só só só", mas completamente explicável: foi para se adequar ao ritmo pouco ortodoxo da melodia. Compreensível. Deve estar nervoso depois de levar um fora, porque é o máximo que eu conseguiria com um "Eu sou o tal". Ele não é tão o tal assim, afinal, mal consegue entender a periguete. E o pobre diabo até pede ajuda à moça, repetidas vezes, praticamente implorando. Ela diz que vai ensiná-lo, mas será que nosso pocinho de arrogância que vive de crédito vai ajudar?
"E o que é essa garota
Tá querendo me dizer? I love you, meu chuchu Merci beaucoup Meu chuchu, isso é francês E não inglês..." Alguém que dá a cantada do "Eu sou o tal" merece uma namoradinha poliglota com manias exibicionistas. E que ainda dá uma de malandrona, fingindo que fala francês com um Merci Beaucop que qualquer gambá de desenho solta de vez em quando. Parece eu com meu japonês de anime legendado. E o pior é que o nosso excelentíssimo caipira caiu. Eles se merecem. June 17 Traz aqui, traz... Não quero levantar...Eis-me novamente como advogado do diabo. Dizem que sou do contra, que vou de encontro às opiniões de outros apenas por diversão. Confesso que realmente me entreto com isso, mas minhas motivações vão além de ver faces rubras e lágrimas de raiva. Às vezes, e só às vezes, eu realmente acredito no que estou dizendo. E faço questão de firmar pé e colocar aqui, diante do escrutínio público, minhas convicções.
É o que acontece quando defendo a preguiça, por exemplo. Sempre achei que as pessoas geralmente superestimam o trabalho duro e o esforço. Aquela coisa de "Deus ajuda quem cedo madruga". Muita gente não entende que, na verdade, a preguiça é um elemento de evolução. Provavelmente foi a mais pura vontade de ficar quietinho na cama que motivou a maioria das invenções. Como o despertador. Idéia genial, com cara de criação de dorminhoco. Forno de microondas também. Eu sei de toda a história, de como ele foi criado por um cientista que sentiu um chocolate derreter no bolso ao lado de um gerador de microondas, mas tenho certeza que o rapaz não era exatamente do tipo ativo e cozinheiro. Sem falar no controle remoto - juro que conheço gente que nem sabia que tinha como mexer na TV com a mão no aparelho.
Chorumelas à parte, essa aversão que muita gente tem em relação à preguiça está na verdade associada àquilo que um alemão tornou famoso: a ética protestante. Segundo Max Weber (e não o Gehringer, que provavelmente me crucificaria agora), por algum motivo, os primeiros protestantes defendiam que o sucesso na vida - inclusive o financeiro - era a forma de demonstrar que Deus abençoava o indivíduo. Por isso tanta preocupação em enriquecer e ficar bacana: para conseguir uma vaga no céu. Só que naquela época o único jeito de fazer isso era na base do trabalho, não tinha jeito. E quem não estava muito animado acabava ficando com pinta de amaldiçoado, de gente ruim. Daí para o capitalismo, as indústrias e as horas do cafezinho que não passam nunca de cinco minutos foi um pulo.
Na prática, muito do que é criado hoje em dia pela tecnologia vem no caminho inverso a isso aí em cima: queremos menos trabalho. menos movimento, menos cansaço com coisa inútil. O que implica mais funções no celular (para não ter de procurar pela agenda eletrônica na mochila, que está uma bagunça), livros no computador, compras pela internet! Preguiçosos adoram a palavra "praticidade", só não gostam mais do que "controle remoto universal". É natural querermos nos esforçar menos, para armazenar energia: era isso que faziam nossos antepassados. E graças a esse tipo de atitude, de não sair para caçar porque está frio e chovendo, é que estamos aqui hoje. E provavelmetne se a gente ainda vai para a frente, é por causa de pessoas que não fazem questão alguma de sair do lugar. June 13 Um Grito de SocorroSou um apaixonado por tecnologia. Não chego a ser fanático, do tipo que sabe quando surgiu o microchip, quando foi criado o nanochip ou qual é a previsão para o picochip. Mas acompanho atento a chegada da tecnologia, principalmente de informação, ao nosso cotidiano. E é daí que vem meu temor: a forma como vão usar essas coisas todas que surgem todos os dias em uma velocidade absurdamente estonteante.
O celular, por exemplo, está na vida de todo mundo hoje em dia. Conheço gente que prefere ter o aparelhinho móvel a ter um telefone fixo, por exemplo. Eu sou um desses: com exceção do trabalho, prefiro mil vezes o celular para ligações pessoais do que ligar de casa. Chego ao cúmulo às vezes de ligar do celular para alguém estando em casa, e podendo tranquilamente usar o fixo, por pura preguiça de levantar da cama. Mas o fato é que me assusta o alcance que a coisa tomou, principalmente em termos de convergência. A maior vantagem de telefones móveis, para mim, sempre foi a comodidade de poder ligar e receber ligações "em qualquer lugar". Mas tem gente que surta com outros apetrechos possíveis: celular que é celular tem que mandar mensagem, acessar a internet, tirar foto, filmar, fazer pipoca, fritar um bife... Eu lembro que na primeira vez que meus primos menores viram meu atual celular a primeira pergunta foi "Não tem joguinho?". "Não, não tem joguinho." "Mas nem cobrinha?". "Nem cobrinha". "Que chato". Eu mereço.
E é engraçado como as coisas só pioram, mesmo no que se refere a só um desses recursos, como as mensagens. Sou usuário assíduo de SMS, porque sou sucinto e consigo normalmente passar mensagens importantes em 130 caracteres. Mas, por algum motivo, as pessoas se encantaram com esse recurso, que me lembra muito os velhos 0900 de piadas. Gente que escreve no teclado do celular mais rápido do que consigo digitar no computador. E que se impressiona com a possibilidade de receber todo tipo de informação por mensagem. Notícias de economia, de política, dicas de relacionamento, horóscopo! Vão lançar qualquer dia desses um celular cartomante, que fotografa a mão do usuário e prevê seu futuro. Por meros 50 centavos a mensagem.
Outro recurso que me preocupa nos celulares é o tal toque personalizado. Sou adepto, e acho até legal que toque o tema de "O Poderoso Chefão" quando meu pai liga. Mas tudo tem horas e horas. Tem no Youtube um vídeo em que, durante uma entrevista ao vivo em um telejornal, começa a tocar o celular de uma autoridade qualquer, ecoando pelo estúdio um "Não me chame não, viu, não me chame não". Lamentável. Sem contar o toque de risada estridente que já ouvi em velório. Há horas e horas para tudom, e para isso serve um outro recurso poderoso e muito ignorado: a opção do "silencioso".
Não quero parecer chato ou rabugento, entendam. Gosto de toda essa inovação, e de saber que tenho de tomar cuidado redobrado sempre que for fazer alguma besteira porque pode existir alguém com um celular por perto, que vai filmar, fotografar ou pelo menos gravar minha voz. Mas como toda tecnologia, é preciso cuidado nos exageros para não se tornar refém. Porque aí pode não ter mensagem de 50 centavos que resolva. June 12 Troféu Tristan Tzara de Composição: ObiNão resisti. Confesso que queria deixar mais para a frente a participação de um dos maiores dadaístas da música brasileira nessa seção, mas não teve jeito. Ouvi, por acidente, uma música que me fez sentir-me na obrigação de postar o mais rápido possível. Para quem não conhecer, deixarei o link com a letra no final do post. Com vocês, Djavan canta "Obi".
"Obi, Obá,
Que nem zen, czar,
Shalom, Jerusalém, z'oiseau,
Na relva rala Meu arerê Tombara Ali, Alá Logo além Nem lá Logum Pra cá ninguém faraó" E isso é a primeira estrofe. Não foi força de expressão chamar o autor de dadaísta. Realmente parece que ele é adepto do método de recortar palavras a esmo e jogá-las como se estivesse semeando um campo (bonita essa imagem, né?). Obi seria, segundo o dicionário, noz-de-cola na Bahia. Ou, em tupi, significaria verde ou azul. Não acho que os índios tupis considerassem as duas cores iguais, mas não vou discutir com meu pai, senhor Aurélio. Obá é tipo um príncipe do candomblé, alguma coisa relacionada a Xangô. Ser zen tem a ver com meditação, coisa de japonês, czar era o monarca russo pré-Revolução. Shalom é uma saudação judaica, Jerusalém capital de Israel, z'oiseau nem idéia, parece ser francês. Juro, nunca vi uma música tão miscigenada. Índio, negro, japonês, russo, judeu, francês. Nenhum sentido até agora, mas fazer o que, não é verdade? Isso é arte!
Não sei o que é o arerê (que só me lembra a Ivete Sangalo esperneando enquanto grita "Arerêeeeeeee Um love um hobby um love com você ê ê, ê ê!": a defesa encerra), mas pelo jeito o do rapaz caiu na grama. Logo ali. Aí vem mais um traço de miscigenação, com o Alá muçulmano logo além, Logum, pra cá ninguém faraó. Que diabos é isso? Alá está logo além de onde tombou o arerê (que diabos é arerê!!) mas nem lá e pra cá ninguém manda no Egito. Levante a mão quem entendeu alguma coisa. Agora, por favor, mantenha-a levantada com a palma para cima, pois passaremos distribuindo seus comprimidos de hoje. Obrigado pela atenção.
Mas a música continua. Sim, continua. "No ver da gente o samba é pedra mor África Benfica E fica melhor". Primeiro comentário óbvio: muito ruim esse trocadilho do Benfica e fica melhor, vamos combinar, né. E mor, nos diz papai, é um conjunto de camadas sobrepostas de humus repleta de matéria orgânica e que serve de tapete natural para o solo. Não me parece exatamente elogioso falar que o samba é isso, principalmente pela própria música ser um samba. E esse África aí sobrou, hein. Podia ter ficado lá em cima, no meio de obi, obás e adjacentes.
Por fim, vamos aos últimos versos:
"Amanheceu de um sorriso
Vida como é preciso Sonhando Sentindo Cantando Infindo Ouvindo Falando Falo de mim Pra você Alô, olá Se não for pra já So long Ouricuri madurou" Juro, não tenho nem idéia de quem amanheceu tão feliz assim. Quem acorda com um sorriso e sai cantando, sentindo, sonhando? Em que mundo vive essa pessoa?Imagine-se na cena, caro leitor. Alguém que se aproxima com um sorriso, cantando para você, e começa a falar de si. Aí você, que como ser humano normal acorda levemente mal-humorado, pede um tempo para esfregar os olhos e entender a situação bizarra e ouve um "Alô, olá, se não for pra já (ih, rimou!) so long, Ouricuri madurou". Ouricuri? Até onde eu lembro, ouricuri é uma planta, uma palmeira, usada aliás para se extrair cera. "Foi mal, não dá para converar depois, preciso ir ali extrair umas coisas do pau que cresceu o suficiente". Com trocadilho, por favor.
Não vou discutir aqui as habilidades poéticas de Djavan. Ídolo dessa seção desde já, ele tem lá seus méritos (sempre achei genial a metáfora de aprender japonês em braille, de "Se"), mas Obi não dá, sejamos francos. É por essas e outras que concordo quando dizem que o Jorge Vercilo é genérico dele: porque não consigo pensar em castigo maior. Shalom!
June 11 Se as meninas do Leblon não olham mais pra mim...Hoje esse blog atuará com um função social. Sim, finalmente serviremos para alguma coisa além do mero entretenimento de seu autor e de meia dúzia de gatos pingados que dão alegria a um pobre coração e deixam alguns preciosso minutos na leitura desse espaço. Farei aqui uma denúncia. E não uma daquelas que vemos todos os dias, de verba da saúde desviada, de filas em postos de saúde ou de falta de policiamento. Gostaria de registrar aqui minha irritação e profunda angústia em ver o dinheiro público sendo desperdiçado em algo tão banal. Juro, minha têmpora chega a saltar quando a adrenalina circula. E isso só acontece quando vejo que mais uma vez os óculos da estátua do poeta Carlos Drummond de Andrade, belamente localizada no calçadão de Copacabana, foi furtado novamente.
Ao contrário do que poderia parecer, não estou revoltado com o furto. Talvez eu esteja completamente anestesiado pelo descaso costumeiro com que tratam a segurança ao ponto de não me preocupar mais com roubos. Não importa. Meu problema é com a expressão "novamente" no final do parágrafo anterior. Pela quarta vez (vejam bem, quarta vez!) desde 2002, os malditos óculos foram roubados. E isso me provocou diversas dúvidas, que deixo aqui aguardando resposta. Por que diabos a maldita estátua tem óculos? Para ver melhor os biquinís (e recheios) das moças que ali caminham? Não! Ela não enxerga! É pelo valor artístico da fidelidade ao objeto ali homenageado? Que seja! Por que não fundiram a maldita armação à cabeça da estátua? Por que deixar aquilo solto? E ainda dizem que vão pedir mais policiamento no loca, além de uma câmera de vigilância. Tenho certeza que assim o Drummon de chumbo vai se sentir mais seguro. Será que vão matar os pombos que nele deixam lembranças também?
Diz o responsável que a reposição deve custar 3 mil reais. 3 mil reais em um óculos? Começo a imaginar que a estátua seja cliente da Benneton, da Oakley ou talvez da Hot Buttered. E com cartão fidelidade, afinal de contas, já gastou 12 mil reais na loja. Uma moto, diga-se de passagem. É inacreditável que continuem a gastar o dinheiro dos contribuintes cariocas nessa porcaria! Não duvido que o próprio Drummond ficaria chocado com tamanha piada. Internacional, aliás. Descobri que em Cuba uma outra estátua, do músico John Lennon, também sofreu com esse problema, tendo os óculos roubados duas vezes em oito anos. Mas lá, para resolver, alguns aposentados resolveram se revezar em turnos de doze horas de vigilância. E colocam os óculos no bolso, só tirando quando algum turista quer tirar fotografia.
Será que custaria mais de 12 mil reais importar alguns aposentados cubanos? June 09 Saudades do véuLá pelo começo da década... Dá uma sensação de ser velho quando a gente fala "lá pelo começo da década", né? Até sinto uma dorzinha nas juntas, um reumatismozinho. Mas bem, lá pelo começo da década a televisão estava em seu momento áureo de gostosas. Aliás, agradeço todo santo dia por ter passado a maior parte da minha puberdade nesse período. Lembrio com saudosa nostalgia da Banheira do Gugu, por exemplo. Aliás, para ser cinegrafista do Domingo Legal não podia ser qualquer um não: todos deviam ter diploma de ginecologista. Eles tinham uma técnica especial de voltar dos interlavos com a tela completamente escura, até a gente descobrir que aquilo na verdade era a bunda de alguma dançarina vista de muito, muito perto. E ainda tem gente que elogia o tal do Bergman.
É dessa época também o grande cafetão brasileiro: Luciano Huck, o gênio criador das Hzetes, Tiazinha, Feiticeira, Salva-Vidas... Poucas pessoas que eu conheço teriam o orgulho de poder falar, ao final da vida, que transformaram Susana Alves em celebridade, por exemplo. A maioria simplesmente negaria ter feito parte disso. Bobagem. O Huck fez isso e hoje é podre de rico, pai de dois filhos e casado com a Angélica. Chicotinho e reboladas dão dinheiro, meu caro.
Se tenho alguma decepção dessa época é a Feiticeira. Lembro que antes dela passar a treinar com o marido lutador de vale-tudo (e ficar com o pescoço do mesmo diâmetro da coxa), ela fazia a propaganda de um desses produtos que dá choque na barriga e teoricamente emagrece. Eu lembro do brilhos dos meus olhos enquanto ela falava, lembro de ficar impressionado com o formato das barrigas dos figurantes... até o choque de descobrir a verdade sobre tudo aquilo: "não é feitiçaria, é tecnologia!". Caramba! Em uma frase ela destruiu todo o meu encanto pelo produto. Tinha esperanças de ser alguma coisa de Merlin, algum segredo tibetano encontrado em uma caverna. Mas não. Era só produto da mente de algum nerd com preguiça de fazer exercícios. Malditos!
O fato é que hoje eu ligo a TV e é tudo muito diferente. A Banheira do Gugu, com seu singelo "Uba Uba Uba Ê!", foi substituída pelo Créu da Mulher-Melancia. Aliás, Mulher-Melancia?! Como assim? Cadê o véu, o chicotinho, o segredo? É só aquela bunda? Não estou sendo moralista, acho que faz parte da TV o erotismo, mas às vezes até incomoda. Eu tenho algo chamado vergonha aleia: fico sem-graça por gente que faz coisas embaraçosas, mesmo que elas não fiquem. Hoje, mal vejo TV por causa disso. E sinceramente: sinto falta de quando o mais pornográfico que eu via na tela eram duas pessoas brigando por um sabonete. June 06 Título? Para que? Ninguém vai ler mesmo...Quero fazer hoje um desabafo. Todos os dias eu vejo gente carregando por aí livros de auto-ajuda que defendem o poder do pensamento positivo e do otimismo. Não acredito nessas bobagens. Sou um pessimista nato e defensor da classe. Muita gente não sabe, mas se o mundo está onde está hoje, é graças aos pessimistas.
Um dia dois homens da caverna viram um tigre dentes-de-sabre - eu sei que homens e tigres dentes-de-sabre não conviveram, mas vou abusar da liberdade poética - na entrada do buraco em que viviam. Um deles, o pessimista, já ficou logo com medo. "Bicho grande, com dentes desse tamanho. Não gostei, vou fugir ou, se não conseguir correr, pegar um pau e lutar". O outro, otimista, pegou uma pequena flor entre os dedos e, balançando-a suavemente, se aproximou do tigre, pensando: "ele parece amável, vou levá-lo para a caverna e ele vai me proteger!". O resto vocês imaginam.
O fato é que ser pessimista é um resultado da evolução. Nós somos a raça superior (e não, otimistas, vocês não vão chegar lá). Acreditamos que as coisas vão dar errado, e por isso criamos planos B, C, D... Pessimistas são planejadores meticulosos e organizados. consideram todas as hipóteses possíveis: da estupidez de quem digita os números na calculadora a um chip com mal contato lá dentro que transforma quatros em setes. Nós não deixamos as decisões para a hora do erro. Isso é improviso, coisa para gente que acredita que o Brasil vai pra frente. Vai sim, mas só quando todo mundo estiver recuando para não cair no buraco.
Outra vantagem que eu considero fundamental para entender a força do pessimismo: nós não nos decepcionamos. Se eu não planejo longe demais, se minhas ambições não são absurdas, é mais provável que elas ocorram. Dá para ser o capitão de bocha do time do meu prédio, mas capitão do Manchester United... não rola. Otimistas têm muita esperança, normalmente sonham demais, até encontrarem o Freddy Krueger de suas vidas e voltarem à boa e triste realidade nossa de cada dia.
Para os chatos de plantão, lembro que não estou chutando: outro mais esperto (e obviamente mais pessimista que eu) falou mais ou menos a mesma coisa: Arthur Schopenhauer, filósofo alemão. Segundo Tuzinho, a vida do homem é fadada ao sofrimento pelas aspirações não obtidas. Às vezes algum sucesso passageiro aplaca esse sofrimento, mas é sempre temporário. Já o filósofo Xandy Avião, esse brasileiro, resume muito bem a situação: a vida do homem é beber, cair, levantar, beber, cair, levantar. O pessimista fica feliz de não ter rasgado o joelho da calça. O otimista lamenta até aquele restinho de cerveja quente do copo que perdeu.
Fica então o conselho: seja pessimista. Murphy foi, e ficou famoso. Virou até nome de lei. Tudo bem que hoje existe até Lei Pelé, mas Murphy era bem sucedido. Importante cientista da Força Aérea Americana, ele tinha motivos para ser pessimista: um erro besta de sinais em uma conta e teríamos mais Apollos 13 por aí. Mas isso não quer dizer que você, zé-ruela otimista, não possa se tornar um pessimista hoje ainda e ter sucesso na vida. Só não tenha muitas esperanças. É um excelente primeiro passo. June 05 Troféu Tristan Tzara de Composição: Pescador de IlusõesOlá, meus caros três leitores. A partir dessa semana teremos uma seção fixa no blog: é a seção "Troféu Tristan Tzara de Composição"! Todas as quintas-feiras teremos aqui a análise de letras de músicas de todos os tipos, para entender um pouco melhor a poesia e o simbolismo por trás de clássicos e hits que tomam de assalto nossos ouvidos todos os dias. Sucessos de rodinhas de violão, melodias assaz costumeiras em rádios, canções do meio undergound, todas terão espaço aqui. Antes de começar, no entanto, eu gostaria de fazer somente uma ressalva. Não há aqui nenhum preconceito ou juízo de valor. Não estamos dizendo que uma música é melhor ou não que outra, ou que as letras bizarras encontradas por aí as tornam dignas ou não de ouvidos menos apurados. Isso aqui é só um exercício lúdico de análise bem detalhada. Nada mais. Ou não. Lembrando que quem quiser deixar sugestões de novas músicas a serem analisadas, pode deixar o nome da música e da banda (se souber) nos comentários.
E estreamos em grande estilo, com uma música que fez imenso sucesso quando estreou, depois sumiu e voltou recentemente, graças em parte à sua repetida, contínua e extenuante exibição em um desses reality shows. Por algum motivo, os participantes do tal programa eram completamente apaixonados pela dita cuja, e isso atraiu meu interesse. Afinal de contas, o que tem de tão bom em "Pescador de Ilusões", do Rappa?
Diz a primeira estrofe: "Se meus joelhos não doessem mais diante de um bom motivo que me traga fé". Tudo bem até aí, imaginamos que ele vá explicar o que acontece se de repente ele virar ateu, ou perder as pernas, algo do gênero. Daí eu lembrei da expressão "ajoelhou, tem que rezar". Engraçado é que essa música fez muito sucesso na época dos escândalos de padres pedófilos... Fiquei na dúvida se não teria ali alguma mensagem subliminar, e juro que torci para que não tivesse,
porque os joelhos do rapaz já não doíam mais...
Depois ele continua falando em "se", o que me lembra: Djavan ainda vai estar nessa seção. "Se por alguns segundos eu observar e só observar a isca e o anzol, a isca e o anzol, a isca e o anzol, a isca e o anzol...". Ok, isca e anzol, entendi! Esse trecho é praticamente uma apologia à vadiagem. Tudo bem que ele diz que seja por alguns segundos, ainda assim é muito tempo parado observando. Mas vamos aceitar, já que aparentemente ele é um pescador profissional. De ilusões, mas cada
um pesca o que pode. Pelo menos não é nenhum candiru.
Mas aí vem um "Ainda assim estarei pronto pra comemorar se eu me tornar menos faminto e curioso, curioso... O mar escuro trará o medo lado a lado com os corais mais coloridos...". Então ser faminto é bom? Ser curioso eu entendo, as maiores alegrias da puberdade vêm da curiosidade, mas você está disposto a comemorar mesmo se ficar menos faminto? E não era para comemorar? E de onde veio o tal mar escuro? Medo, lado a lado com corais coloridos? Parece trauma de surfista. E a
isca e o anzol lá de trás, tem alguma coisa a ver com isso? Fico projetando a imagem: uma prancha quebrada flutuando, um surfista com os joelhos quebrados preso a uma barreira de corais, a noite caindo, e ele delirando em febre, vendo corais psicodélicos multicoloridos. Medo.
Daí a minha análise vai para o brejo, porque o rapaz chega gritando "Valeu a pena (ê ê) valeu a pena (ê ê) sou pescador de ilusões". Um masoquista, presumo eu logo de cara. Foi divertido ficar ali vendo a maré subir, com medo de se afogar, não podendo mais se ajoelhar em frente ao padre, tendo que dar adeus à roupa devb coroinha? Por que? Só porque virou um pescador de ilusões? E aí ele encerra a parte original com mais "se"'s: "Se eu ousar catar na supefície de qualquer manhã as palavras de um livro sem final". O que diabos quer dizer isso? Superfície da manhã? Quantas palavras tem um livro sem final? O que tem a ver isso com o resto das coisas? Ele vai catar? Mas não era um pescador, com linha, anzol e tudo? E aí ele volta a falar que valeu a pena, porque é um pescador de ilusões, e fica nisso até acabar. Juro: coisa de surfista dopado de morfina na cirurgia de reconstrução dos joelhos. Só pode. Mas isso até que é bom, porque explica porque o pessoal do tal reality show gostava tanto da música. Coisas de afinidade. June 04 Telhado- Eu te falei. - É a quinta vez que você repete isso. - E aí vem a sexta: eu falei. - É "eu te falei". - Não, não... Fui eu que te... - Esquece! É, você me falou. E daí? - E daí que estamos os dois em cima do prédio sem ter como descer. Você nunca me ouve e dá nisso. Depois fica reclamando. - Eu não fico reclamando. - Acha que eu não ouço? Acha que eu sou surdo? Eu sempre ouço alto e claro. Você consegue falar mais alto que as vozes na minha cabeça. - Sério? - Sério. Você é a pessoa que resmunga mais alto que eu conheço. Você resmungando parece um sindicalista gritando com um megafone estragado, daqueles que ficam chiando e com barulho de estática. - Comparação horrível. - Como se você resmungando fosse muito melhor. - Que seja. - Mas e agora? - E agora o que? - Agora que o que eu falei que ia acontecer aconteceu. - E eu que sei? Você deveria saber, já que você sabia o que ia acontecer. - Sou um pessimista nato, não um planejador nato. Sei quando as coisas estão indo para o buraco, mas isso não significa que eu saiba como sair dele. - Você é tão útil quanto uma lupa de canivete quebrada. - Comparação horrível. - Mas válida. - Então quer dizer que você não sabe o que vai fazer? - Nem uma mísera idéia. - Eu devia ter imaginado. - O que? - Que você não saberia o que fazer. Sou um pessimista, devia ter imaginado. - Cala a boca, vai. Se não vai dar nenhuma sugestão, pelo menos fica quieto enquanto eu penso. - Você pensa tão devagar que às vezes parece um bêbado com Alzheimer. - Comparação horrível. - Eu sei. - Já sei! Vamos fazer o seguinte: no três você pula, eu pulo logo atrás, e a gente corre quando chegar lá embaixo. - Pular assim, sem corda? - É. - Mas é alto. A gente não vai se arrebentar lá embaixo? - Não. Tem uma corrente de ar saindo ali do aquecedor, ela consegue segurar a gente. - Tem certeza? - Tenho, eu vi na Discovery Channel. - E daí? - Daí que tudo que fala lá é verdade. Pula logo. - Eu não. - Meu Deus, você é muito covarde. Parece uma menininha apavorada que menstruou pela primeira vez no baile de formatura da 8ª série. - Comparação horrível. - Eu sei. Agora pula. - Ok, mas se você não pular logo depois eu venho aqui e te puxo. - Tudo bem. Te encontro lá embaixo... Ei, espera! Você pegou as pílulas? - Que pílulas? - Que a gente tem que tomar amanhã cedo. - Ih, esqueci. - Meu Deus. Tem certeza que você não tem Alzheimer? - Tenho. Vou correndo lá pegar. - Eu te acompanho. - Ótimo. A gente aproveita e toma um café. - Você faz? - Faço. - Droga. Seu café é pior que cair com um olho no prego. - Comparação horrível. - Eu sei. Agora anda. |
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